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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Rápido Relato de Chloe (Meia Janela, Meio Céu – Parte V)




Estava eu, Jack Lewis Carroll, a passear pelos corredores da faculdade onde estudava, quando me deparei com uma cena que a mim pareceu-me muito familiar: havia um casal de namorados discutindo a relação sem se preocupar minimamente com os terceiros que estavam a bisbilhotar. A garota em questão não era outra senão uma de minhas colegas de classe, Chloe Cavalcante. Ao que pude ouvir, do pouco que não consegui evitar, ela estava muito chateada com algo que o namorado, do qual até o presente dia não me recordo o nome, havia feito há dois dias.
Chloe não era pessoa de fazer mistérios, então quando comentei com ela sobre o ocorrido ela me deu um sorriso forçado e soltou:
- Coisas da vida, Jack, estresses que ocorrem quando se tem um namorado. Nada além disso. – depois que comentei sobre a clareza do fato de seu sorriso não ser sincero, ela desabafou – As coisas não são mais as mesmas, aconteceu uma coisa me pegou desprevenida.
Daqui por diante o texto se baseará no relato que Chloe me fez naquela manhã chuvosa, durante uma aula vaga ocasionada por uma professora prestes a dar à luz:


Sua mente vagava pelo céu infinitamente decorado por estrelas que contam histórias do passado e do futuro. O colossal guerreiro do céu acenava para ela, enquanto esta se distraía contando e identificando todas as estrelas que compunham as doze constelações zodiacais. Conhecedora de certos segredos astrológicos, ela se perguntava por que os astros mostravam que o porvir lhe reservava tais provações, se no momento estava tudo tão perfeito em sua vida.
Ser jovem demais e sábia demais, dizia sua avó, embora ser sábio seja uma grande dádiva, não era uma condição fácil com a qual lidar. Seu consolo era sua imensa esperança, esta jamais lhe faltava ao coração e sempre estava a lhe pôr um belo sorriso no rosto. Ela entendia o mundo como pouquíssimas pessoas o fazem, então ela conhecia as pessoas melhor do que elas mesmas, assim ela pensava.
Diante desse fato, Chloe esperava sentada e confusa, num dos bancos do Xadrez, local situado na praça Ed. Wood e que eu já mencionei, esperando pelo seu amado, que já se demorava. Lá vinha o dito cujo, não me recordo mesmo seu nome, caminhando com as mãos nos bolsos, cruzando a alameda que compunha o caminho que ia desde a Roda até o Xadrez. Usava óculos escuros Ray Ban que lhe assentava perfeitamente no rosto, uns dizem que esses óculos ficam bem em qualquer um, uma jaqueta preta aberta com uma camisa branca por dentro, e uma calça jeans desbotada e rasgada nos joelhos. Ele era um perfeito bad boy moderno, como que saído dos tempos da brilhantina.
A intensidade dos refletores que iluminavam a praça Ed. Wood à noite era tamanha, que Chloe nem estranhou o fato dele estar usando óculos escuros àquela hora. Mesmo ela precisou semicerrar os olhos enquanto o observava se aproximando. Ele jogou o cabelo para trás, iam à altura do ombro, e lhe mandou um sorriso.
- Boa noite, meu bem! – sua voz não condizia com sua pose – Desculpe ter feito você esperar, houve um vazamento em casa e eu tive que limpar tudo antes de sair.
Ela deu o sorriso de sempre, sorrir era uma de suas habilidades mais naturais.
- Sem problemas, eu estava tão distraída com as estrelas, que nem notei a hora passando.
- Que bom então. – e lhe deu outro sorriso.
Ele se aproximou e sentou-se num banco em frente a ela. Chloe estranhou o fato dele não a ter beijado como de costume, mas preferiu não dizer nada. Ficaram se olhando por alguns minutos. Ela tentava adivinhar o que ele teria para lhe dizer, ele tentava imaginar sua reação diante do que lhe diria.
- Bem, o que você tinha para me dizer? – ela cansara de esperar – Você parecia nervoso no telefone, cheguei a ficar preocupada que fosse algo ruim.
Ele a olhou de forma mais angustiada, depois desviou o olhar e resolveu encarar os cadarços. Ela não gostava daquela atitude, mas não era motivo para pressioná-lo.
- De certa forma é algo ruim. – sua voz falhava, onde estava a marra do bad boy agora? – Acho que pode abalar muito nossa relação.
O coração de Chloe apertou, ao menos foi assim que ela se sentiu. Ela imaginou, pelo que viu nas estrelas, que algo ruim viria, mas não quis acreditar que tinha mesmo a ver com seu namoro.
- Tem a ver com a Desirée. – por isso ela não esperava – Eu estou realmente dividido, de uma forma que jamais imaginei que aconteceria quando a revisse.
Tampouco Chloe imaginara que fosse isso. Há algumas semanas seu namorado havia comentado sobre o fato de sua ex-namorada ter regressado ao Brasil depois de uma temporada longa e gelada na Inglaterra, haviam se falado via internet, mas não passara disso. Mesmo com o fato de ela ter sido namorada dele por três anos, durante o ensino médio, Chloe não se preocupava nem um pouco com o retorno dela. Tinha plena confiança que seu namorado a amava o bastante para superar qualquer amor do passado, por isso não o aborrecia com ciúmes idiotas (opinião pessoal do narrador e da contadora) que poderiam acarretar no final trágico de seu relacionamento.
Agora que ouvia o que acabara de ser dito, ela já não sabia mais o que pensar ou no que acreditar. Em seu interior queimava uma dúvida, um sentimento totalmente novo para alguém como ela, que sempre acertou em todas as deduções que já fizera.
- Não esperava por isso! Nem sei o que dizer.
- Eu sinto muito, muito mesmo. Mas é assim que me sinto.
Ela voltou a olhar para as estrelas, buscando respostas.
- Bom! Enquanto você está dividido, vai ser melhor ter um tempo só seu, para pensar. – mas não era isso que ela queria de verdade – Eu não posso estar com alguém que não está inteiramente comigo, nunca dará certo!
- Eu imaginei que você diria isso, foi o que eu disse quando você citou essa possibilidade. – ele baixou o olhar e depois se virou de costas – Eu amo você!
- Eu sei disso.
Assim ele se foi. Chloe ainda ficou uma hora sentada ali, estava tentando absorver o que acabara de acontecer. Ela sequer desconfiou do quanto doeria ouvir o que ele tinha para falar, agora sentia um aperto insuportável no peito.

Algum tempo depois houve o carnaval. Essa festividade aqui em Depp City se comemora da mesma forma que se comemorava na sua cidade, se for no Brasil, há cerca de oitenta anos. Digo isso com certeza, pois nesse período não havia as famigeradas micaretas nem desfiles de escolas de samba, apenas os divertidos blocos de rua e os bailes em clubes fechados. Todas as ruas eram enfeitadas com decorações culturais, todas as casas sempre estavam cheias de serpentinas e máscaras. A alegria tomava conta de todos os cidadãos.
Até mesmo os roqueiros de Depp City participavam da festividade, esses tinham seu próprio bloco decorado de preto, branco e vermelho. O bloco, de nome Funeral de Paul, era a desculpa perfeita que os “head bangers” tinham para se divertir popularmente, sem “abandonar o movimento punk”. Era nesse bloco que Chloe estava, na companhia de cinco amigas, pulando e cantando ao som de Problem, da banda Remy Zero, quando avistou seu namorado, depois de sete dias sem contato algum.
Após todos aqueles dias, ela pensou, com certeza já seria seguro conversar com ele. Na cabeça dela esse tempo fora o suficiente para que ele percebesse que ela, e não a ex, era a mulher certa para ele estar. Ela o  avistou e o observou. Ele ainda não a avistara, estava com um grupo de amigos do trabalho, bebiam e cantavam sem reparar nos arredores.
A rua era larga, o bloco dos roqueiros a estava descendo enquanto que algumas pessoas estavam apenas passando por ela, subindo. O grupo do namorado de Chloe aparentemente não estava inserido no Funeral de Paul, apenas estavam “remando contra a maré”, passariam pelo lado das pessoas do bloco sem ao menos esbarrarem com os roqueiros. Ela percebeu isso e se apressou em acenar, fez um movimento com o braço esquerdo e o repetiu até que ele a percebesse.
Ele fez com que o grupo se desviasse um pouco até ela, ela foi até ele. As amigas de Chloe pararam um pouco atrás deles e apenas ficaram observando, já sabiam do caso. Ela estava pronta para ouvi-lo dizer que a amava, quando reparou que os amigos dele continuavam a andar, sem se importar com ela. Ela imaginou que ele os tivesse dispensado e que a acompanharia, no bloco. Porém, para seu horror e total desagrado, ele deu um beijo rápido na sua testa e acenou para as amigas dela. E se foi. Antes que o grupo virasse à esquina, Chloe deu uma última olhada. E lá, os belos cabelos ruivos a balançar ritmicamente, estava Desirée. Eles riam, conversavam, riam outra vez. Nada parecia estar abalando a felicidade daquela turma de amigos.
A rua lhe pareceu deserta. Todos os sons silenciaram. Ela não sentia nada, nada além de nada. Sua mente não conseguiu processar o ocorrido. Seu coração era inexistente, não o sentia bater. Quando desse nada veio a falta de ar. Da falta de ar veio o sufocamento. Era um sufocamento que não a mataria, apenas a impedia de mover-se. A ponta de seus dedos começou a formigar, seus pés queimavam inexplicavelmente. Ao fim dessa sensação incômoda, veio-lhe o suor, frio e terrível, que tomou conta de toda sua pele no exato momento em que ele desapareceu de sua vista.
Ela correu. Sem se importar com quantas pessoas tiveram que pular para o lado para evitarem ser atropeladas, ela correu. Sua bolsa caiu, um de seus sapatos se soltou, ela pisou na barra de sua saia, rasgando-a. Pisou em poças d’água, sujou-se inteira de lama, os cabelos estavam drasticamente desmantelados. Ao virar à esquina ela notou que correra à toa, o ônibus que os levava já estava inalcançável, nada poderia ter sido feito.
E ela bebeu. Chloe usou todos os tipos de droga que lhe surgiram naquela noite, depois do álcool tudo entrava com mais facilidade. Maconha, loló, cocaína, absinto, e outras das quais não me recordo. Naquela noite ela havia esquecido todo o conhecimento e a sabedoria das quais sua avó tanto se orgulhava, ela era apenas uma garota desiludida e amargurada.
Da volta para casa Chloe não me forneceu detalhes, acredito que nem ela mesma sabia como acordou, no outro dia, de pijama e limpa, em sua cama. Sua cabeça doía de ressaca, o gosto de álcool e cigarro ainda assombrava sua boca. Após aprontar-se para sair para a faculdade, dois dias depois, ela foi surpreendida por um toque do seu celular, alguém lhe enviara uma mensagem.


- E o cara-de-pau me mandou uma mensagem hoje de manhã dizendo que me amava. – ela continuou a relatar-me – Me deixou toda desconcertada, porque eu estava com muita raiva dele, mas não poderia ignorar a  declaração.
- Certamente, essas palavras são importantes para as pessoas. – até demais, na verdade – Mas continue!
- Enfim, encontrei com ele no corredor e começamos a conversar. Tentei não discutir, a mensagem ainda me vinha à mente, mas quando toquei no assunto de dois dias atrás, ele desconversou e disse que eu estava fazendo tempestade num copo d’água. – não é uma coisa que se diga a mulher alguma, até eu sei disso – Daí tivemos aquela D.R. que você viu. E foi isso.
- Não consigo imaginar você perdendo o controle. – isso era verdade – Tão centrada, tão zen.
- Até agora me questiono exatamente sobre isso. Digamos que eu parecia estar drogada com aquela situação, antes mesmo de me drogar naquela noite.
Particularmente eu achei a história interessante. É intrigante como a mente humana pode ser um universo de sabedoria e terminar num buraco negro de dúvidas e ilusões por causa de outra pessoa. Como diria uma sabedoria japonesa: As pessoas criam vínculos e conexão apenas com um simples olhar, isso pode alterar todo o seguimento da vida de alguém.
Não sei dizer com certeza como terminou o caso de Chloe com o namorado, infelizmente eu deixei de freqüentar a faculdade a partir do dia posterior àquele. A razão do abandono do curso será explicada no capítulo seguinte, você só precisa saber que fui para casa naquele dia pensando e comparando a história de Chloe com a minha atual situação. Eu precisava tomar um rumo, ou acabaria perdido no meu próprio buraco negro, indefinidamente em solidão e sofrimento.