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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Última Fruta Podre



Anoiteceu, eu estava fumando um baseado no telhado do prédio onde morávamos. Não havia ninguém em casa, todos estavam no hospital àquela hora. As luzes da cidade há pouco foram acesas e já podia ver os primeiro notívagos dando as caras. A lua estava minguante, como devia estar numa situação daquelas, e não se via estrelas no céu.
Ao meu lado uma garrafa de vodka esperava para ser aberta. Eu estava prestes a dar um fim em todo o tormento que minha vida era desde o princípio. Usava minha melhor blusa preta, apertada para deixar meu corpo bem delineado, adorava ver os homens babando pelos meus seios enquanto eu andava e virando as cabeças para mirar meu rebolado. Minha saia xadrez vermelha e preta combinava em cores com minha meia longa e listrada e meu All Star cano alto. Eu estava vestida no meu melhor traje para uma noite que prometia ser arrebatadora.
Esse mês meu cabelo estava roxo, e era esse roxo que esvoaçava livre a um vento forte e constante no alto do edifício Magic Apple. Minha mente era uma profusão de imagens e fatos, com certeza eu achava que a vida em família jamais poderia ser tão anormal como a minha fora. Depois de virar a garrafa inteira goela abaixo, eu ouvi o chamado, era a voz de meu pai que voava ao vento. Sem pensar nem sequer uma vez, saltei.
24 horas antes eu estava jogada no sofá assistindo Monster Truck, sempre adorei ver caminhões se destruindo, quando meu irmão mais velho, Christopher, passou gargalhando pela sala.
- Faz silêncio, retardado, tou tentando acompanhar os movimentos com a música e você está poluindo meu áudio! – disse eu avidamente.
Ele me deu um olhar louco desvairado e gargalhou mais alto ainda. Christopher jogou-se ao meu lado no sofá e fitou meu corpo de baixo a cima.
- Mana, você está cada dia mais gostosa, sabia disso? – os olhos dele reviravam rapidamente – Até dá vontade de saber como você é por dentro!
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, meti-lhe um soco no meio dos olhos e ele caiu desacordado no chão. O patife sofria de uma doença desconhecida que podia matá-lo a qualquer momento, tinha algo a ver com a morte de uma antiga namorada dele. O caso é que ele estava sempre ereto, se é que você me entende, e era impossível controlar os espasmos de loucura sexual dele. Muitas vezes éramos obrigadas a desacordá-lo, eu e Elena, minha mãe, porque vez ou outra ele reparava em nossos corpos e perdia o controle de si.
Resolvi sair para espairecer, estava uma noite muito agradável e o ataque de Christopher me deixara desejosa. Era sempre bom saber que alguém tinha desejos sexuais por mim, mas isso vindo de um irmão louco não era a mesma coisa. Então decidi que precisava de um homem naquele mesmo instante, nem que eu tivesse que dar para o primeiro gangster que assobiasse. Eu sabia as consequências que esse ato geraria, mas era mais forte do que eu.
Desde que eu tinha 15 anos, fui levada a saber, por uma aparição negra e nebulosa, que o sexo para mim seria eternamente proibido. Acordada do sonho, fui ter meu dia absolutamente normal, excetuando-se uma festa no fim do dia que culminou na minha primeira vez. Em nenhum momento deixei que a aparição no sonho me viesse à cabeça, o ato fora deliciosamente bom. No outro dia, já em casa, vi na TV o caso de um jovem jogador de futebol que havia sido assassinado na volta de uma festa, na noite anterior. Cortaram o órgão sexual dele e enfiaram na boca do dito cujo, depois levaram tudo que ele tinha. Ao olhar as fotos na internet, reconheci tanto o jogador quanto o órgão dele, aquilo me chocou e me apavorou. Naquela noite eu voltei a ver a aparição, ela me revelou que o que acontecera fora minha culpa e que da próxima vez seria mil vezes pior.
Daquele dia em diante eu me privei de tudo isso, por mais punk que fosse minha vida eu jamais deixei que outro homem me penetrasse. Mas cinco anos se passaram, eu estava na flor da idade, meus hormônios estavam explodindo dentro de mim. Toda vez que Christopher me abordava, eu pensava em ceder, mas é claro que isso seria um total absurdo. Então naquela noite eu resolvi que tinha que me satisfazer, se algum bandido acabasse morto por causa disso mal nenhum faria ao mundo.
- Ei, gracinha! – a voz esperada me abordou na segunda esquina em que passei – Coisa fofa, chega aqui com o Joe, deixa eu pôr minha língua nas suas bocas, nas duas!
Era justamente esse tipo de salafrário que eu estava buscando, Joe Maníaco era o irmão do maior traficante de drogas da cidade. Quem sabe eu até desse ao irmão dele também e acabasse com metade da criminalidade na cidade, seria um ato heroico.
- Você não aguenta comigo, pequetuxo. – disse isso enquanto passava minha mão lentamente pelo meu corpo – Não duraria nem um minuto sozinho!
Ele fez uma careta estranha e depois ficou de pé. Chegou bem perto de mim e segurou meus ombros com força.
- Acha isso mesmo, vadia? – e estava quase babando no meu rosto – Sabe quem eu sou?
- Não, sei quem seu irmão é e sei que você nunca vai chegar nem aos pés dele! – eu estava brincando com a sorte, mas já estava sentido a “vontade” dele de pé.
- Então vou levar você pra minha casa e entupir essa sua boca grande com meu p...
- Essa eu pago pra ver! – agora minha mão passou entre as pernas dele e ele estremeceu.
Infelizmente meu ataque ao ego dele fez com que ele quisesse mesmo deixar o irmão dele de lado, eu teria que me contentar só com um. Fomos a casa dele, uma bela mansão para um belo traficante. Na verdade a casa era do irmão dele, mas não havia mais ninguém lá.
Sei que você provavelmente está curioso pelos detalhes, mas esse não é um conto erótico, por mais que vá parecer.
No êxtase eu relaxei e olhei para o teto. Não me sentia tão bem assim desde meus 15 anos, era uma nova mulher. Antes que eu pudesse adormecer, senti um solavanco e algo me jogou contra a parede. Bati com a cabeça, a dor era insuportável, e em minha frente pairava um velho trajado com uma bata preta e flutuando a um metro do chão.
- Você foi avisada, Alessandra, de que seu corpo jamais deveria sentir os prazeres da carne outra vez. Devido à sua desobediência, o caos se dará a sua volta.
“De que raios esse velho está falando? Achei que o cara morreria e eu podia voltar sossegada pra minha casa.” - pensei.
- Você era o pilar que sustentava a ordem, por mais deturpada que fosse, em sua amaldiçoada família. Tornando-se impura você fez desmoronar a última esperança que seus familiares tinham de ser salvos do mal que seu pai fez há 30 anos. – a atmosfera estava cada vez mais pesada, além da dor em minha cabeça que parecia aumentar a cada momento que se passava – A última fruta apodreceu quando você decidiu que seus desejos carnais eram mais importantes que a vida desse homem, o fim é chegado!
O velho de preto desapareceu e o quarto se reajustou. Eu estava novamente na cama, Joe Maníaco jazia ao meu lado. A dor em minha cabeça havia passado, eu já me sentia mais leve. Não obstante, eu ainda sentia que algo estava muito errado e decidi sair. Percebi que o cara havia adormecido segurando meu pulso e ele custava a soltar, então puxei com toda minha força e me soltei. Um som horrendo de algo sendo partido ressoou, o corpo dele caiu em minha direção, morto.
Os dedos haviam quebrado quando eu puxei meu braço, e agora eu pude ver o buraco no estômago do dito cujo. Apavorada, eu vesti minhas roupas e sai dali o mais rápido que pude. Não tive tempo de analisar melhor a situação, não faço ideia de como aquele rombo aparecera na barriga dele, em menos de dois minutos eu já estava em frente ao prédio onde morava. Mal percebi que estava de dia, aparentemente eu havia passado horas na casa de Joe Maníaco. Subi as escadas correndo, morava no segundo andar e não tive paciência para esperar o elevador. Abri a porta do apartamento depressa e meti-me para dentro como se algo me perseguira até ali.
Dentro de casa eu me acalmei, pareceu que estava tudo bem agora. Então eu ouvi um arfar, algo soou muito familiar, como um eco de algo que acontecera recentemente. Ao virar-me dei de cara com uma cena incomum e bizarra: meu pai estava de pernas abertas em sua poltrona enquanto minha mãe, nua e de costas para ele, sentada em seu órgão sexual, subia e levantava, gemendo, enquanto ele a segurava pela cintura para erguê-la e abaixá-la. Os dois gemiam alto, ele a mordia avidamente os ombros, já eram visíveis outras marcas de mordidas pelo corpo todo e em algumas escorria sangue.
Ao me ver, meu pai abriu um sorriso demoníaco e apavorante.
- Ola, filhinha linda! – sua voz era fraca e gasta, nem parecia meu pai, forte e robusto – Não se incomode conosco, estamos aqui há algumas horas nessa mesma posição, mas infelizmente não estou conseguindo gozar. – eles não pararam nem um segundo sequer para falar comigo – Assim que terminarmos sua mãe preparará o jantar, então espere só um pouco e torça por mim!
Tremendo, observei a expressão da minha mãe. Ela babava muito e os olhos estavam fora de foco. No chão havia uma quantidade enorme de líquido, dei-me conta que ela provavelmente tivera vários orgasmos e mesmo assim eles só parariam quando ele terminasse. Não sei como isso me veio à cabeça, mas novamente saí correndo para meu quarto.
Tudo estava assustadoramente estranho, óbvio que tinha a ver com a aparição negra e minha transa. Sentei em minha cama e comecei a tentar digerir tudo aquilo, mas em meio ao caos nunca há tempo suficiente para se pensar em pôr ordem. Batidas estranhas em minha parede fizeram com que eu levantasse bruscamente e me afastasse. Ouvi gritos no outro quarto, era a voz de Raimundo, meu outro irmão. Corri ao quarto para verificar, o pavor já havia se estabilizado e eu imaginei que não dava pra ficar pior do já estava.
No exato segundo em que abri a porta, arrependi-me por tê-lo feito. O que vi fez com que a transa louca de meus pais parecessem um episódio dos Ursinhos Carinhosos: Christopher estava com os braços e pernas amarrados na parede, lembrando muito uma estrela, e absolutamente sem roupas. De costas para ele, segurando-se na cama para dar apoio, estava Raimundo. Usava o famigerado vestido azul que ele roubara duma antiga casa onde moramos um tempo (Mais detalhes no conto “O Vestido de Lady DaGradi”), e nada mais que isso. O pior de tudo, aproveitando-se da doença de ereção constante de Chris, Raimundo estava com o ânus acoplado no órgão dele e fazendo movimentos de sobe e desce, enquanto gritava loucamente.
- Pare com isso, seu estúpido! – gritava Christopher - Você não é uma mulher de verdade, nunca será, e eu não tenho tara por homens!
Mas Raimundo não parou, continuou naquela loucura desmedida até que o pior aconteceu. O corpo de Chris amoleceu, a cabeça pendeu para baixo e o sexo dele atrofiou. Acontecera o que os médicos comentaram, o coração dele havia parado completamente. Raimundo levantou-se assustado, aparentemente curado da loucura. Tirou o vestido e pôs-se a chorar ao pé da cama.
- Culpa minha... não... culpa dela... não… culpa nossa! – ele se engasgava com as lágrimas, agarrou-se aos joelhos e começou a balançar estranhamente – É o fim do meu caminho... do caminho dela... nosso caminho!
Antes que eu pudesse impedir, ele tirou um revolver debaixo do colchão e atirou em sua própria têmpora esquerda. A cabeça explodiu, havia pedaços por todo lado, o corpo estirado no chão me deixou paralisada. Paralisada fiquei até que homens entraram bruscamente no quarto e levaram os dois corpos.
Não sei ao certo quantas horas passei ali, achei incrível o fato de que os policias que foram atraídos pelo som do tiro e vieram levar os corpos dos meus irmãos, nem sequer notaram minha presença. Acho que assisti CSI demais e esperava que eles cercassem o local e começassem a investigar o que havia acontecido. Aparentemente meus pais explicaram o que havia acontecido, sobre a doença de Christopher e a Homo-Sexualidade obsessiva de Raimundo, e assim deu-se que todos haviam ido embora eu estava sozinha no apartamento.
Lembro de ter ouvido algo sobre a minha mãe precisar de um médico urgentemente, mas não consigo lembrar-me do porquê. Eu fiquei de pé e sai do quarto, fui até a cozinha e me apoiei na geladeira.
“Por que? O que foi que nós fizemos para merecer tudo isso? O que o meu pai fez?”
Abri a geladeira e peguei a única garrafa de vodka, não havia nada com o que misturar, então seria pura mesmo. As coisas giravam em minha cabeça, embora eu soubesse o que fazer. Peguei toda a erva que consegui encontrar embaixo dos colchões da casa, éramos um bando de viciados. Subi pela escadaria de incêndio e cheguei ao telhado do prédio.
Se alguém ler essa carta, saiba que já não estou mais no mundo dos vivos. Demorou, veio antes para meus irmãos, mas logo o mundo dos mortos se apresentaria para mim. Não estava disposta a enfrentar o mesmo que meus irmãos viam quando se olhavam no espelho, não depois de tudo que acontecera essa noite. Então, antes que os mortos viessem a mim, eu fui a eles.

Alessandra D. Pereira