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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Orgulho e Pós-Conceito (Meia Janela, Meio Céu – Parte VI)




Dom Quixote de La Mancha é um livro fenomenal. Lendo esse livro eu aprendi que sob os efeitos da imaginação, ou loucura para os céticos, pode-se transcender o estado da razão e alcançar-se uma elevação espiritual que pode muito bem ter representação no plano físico. Assim, enquanto o materialista Sancho Pança sentia-se todo moído após levar uma das muitas bordoadas que viria a levar durante o livro, Dom Quixote curou-se apenas tomando um gole de uma mistura inventada por ele mesmo, tal mistura que não fizera efeito benigno algum no escudeiro.
Enquanto eu tentava usar os poderes da imaginação para afastar da minha cabeça meus problemas, ouvi alguém gritar por mim do lado de fora de minha casa. Venho dizendo a minha mãe, há algum tempo, que nossa casa é muito alta e que por isso deveríamos ter instalada uma campaninha, poupando assim a voz do meu bom amigo Axel.
Tratei de ir à varanda para averiguar se minhas suspeitas estavam corretas, e deu-se que mais uma vez se confirmou o fato de eu raramente me enganar. Axel estava encostado em uma das duas árvores fícus que embelezariam a entrada da minha casa, caso fossem podadas. Gritei de volta avisando que logo desceria, ainda precisava encontrar minhas chaves, sou do tipo de pessoa que coloca as chaves na mesa e esquece no outro minuto onde as colocou.
Perceber que eu estava absorto numa leitura em pleno sábado à noite me fazia pensar nas palavras de Aline. Isso realmente era um grande sinal de solidão. Infelizmente ela estava viajando e não sabia quando estaria de volta, então eu estava sem a única pessoa com que eu me sentia confortável, além do Axel, para falar de mim sem ter que andar “pisando em ovos”. Eu só tinha, atualmente, esses dois amigos com quem aproveitar uma noite de sábado, Axel, porém, tinha Bárbara. Então o que diabos ele queria comigo?
Bárbara era muito ingênua e inocente quando começou a namorar Axel, embora essa fosse muito influenciada por histórias japonesas, o que poderia tê-la levada cedo demais para o caminho da luxúria. Porém o próprio Axel tratou de ser a influência que ela precisava, assim ele a levou para cama enquanto ela nem tinha completado treze anos. O problema é que, quando se tem tal idade, as pessoas tendem a querer experimentar coisas novas o tempo todo. Assim, de vez em quando, havia algumas brigas entre eles, o que fazia Axel sempre propor o fim  do namoro, caso fosse essa a vontade de Bárbara. No fim eles sempre se beijavam e resolviam que tudo não passara de uma situação ignóbil.
Agora ela já era muito mais madura que naquela época, sabia muito bem conter seus impulsos jovens. Os quatro anos de namoro os haviam aproximado tanto, que não se podia tentar pensar em um sem acabar pensando no outro. E assim eles sempre foram um modelo de casal para mim. Sempre que eu, durante o curto período em que estive namorando Elena, pensei em desistir por qualquer que fosse a razão, pensava em como eles dois eram felizes por tanto tempo e me imaginava feliz da mesma forma ao lado dela. Bárbara e Axel eram perfeitos um para o outro, enquanto ela relevasse as crises de orgulho e falso desapego dele.
Achei minhas chaves exatamente onde lembrei ter colocado, demorei uns cinco minutos para lembrar. Dentro do vaso de flores, em cima da mesa, eu sempre colocava ali quando chegava da faculdade. Saí e abri o portão, lá estava Axel.
- Desculpa incomodar, cara! – engasgou ele.
Sem aviso prévio ele veio para cima de mim e me abraçou, eu o abracei de volta assim que percebi que ele estava chorando. Percebi exatamente o que havia acontecido, então o apertei com mais força.
- Eu disse que isso acabaria acontecendo. – eu sei, eu sou insensível – Vem! Entra, vamos beber Coca-Cola e conversar sobre isso.
Entramos. Na sala eu o fiz sentar em um dos sofás e fui buscar a bebida. Não há melhor forma de se soltar a garganta do que com muito gás de refrigerante, essa é minha opinião.
- Você fez a pergunta outra vez, não foi? – claro que foi.
- Foi, cara. – ele ainda estava tremendo – Estávamos conversando sobre o futuro, e ela comentou algo sobre conhecer pessoas novas.
- E você demonstrou sua benevolência dizendo que se ela quisesse poderia terminar e ir em busca de novas pessoas, não foi?
- Quantas vezes você quer que eu diga que você está certo? – estava se afogando em lágrimas – “não foi?”, “não foi?”. Só sabe dizer isso?
- Desculpa. A Elena reclamava do meu “é ou não é?”. – todo mundo quer reclamar do Jack – Pode prosseguir.
Ele me olhou de soslaio e depois bebeu toda a Coca-Cola de uma vez. Acabou se engasgando e tossindo forte. Depois que se recuperou, encostou-se no sofá e olhou para o teto. O pomo de adão se movia rápido.
- Eu perguntei se ela queria conhecer outras pessoas, experimentar outras pessoas. – que expressão mais vulgar – Ela me olhou e disse que sim. Perdi a calma e mandei-a embora.
- Você perde a calma muito rapidamente, devia se tratar. Quem sabe um “tarja preta”? – ele não respondeu à minha provocação – Agora, logo eu vou ter que dar conselhos amorosos a você, onde já se viu?
- Manda ver! – a deixa.
- A Bárbara gosta de maltratar você por causa do seu orgulho. – Oh, Bárbara, não maltrate meu amigo – Ela adora falar coisas que façam você se sentir fraco. – parece música dos Los Hermanos – Mas ela não faz isso porque odeia você, e sim porque ela precisa que você demonstre que precisa dela. – ou seja, ela o faz miserável porque o ama – Mas você sempre faz questão de deixar bem claro ela poderia fazer a escolha que desejasse você a deixaria livre sem brigar por isso. – disso ela não gostava.
- Então você está dizendo que ela me deixou porque eu a deixei livre? – sim – Ela preferia que eu fosse um ciumento idiota e que a cercasse e a incomodasse sempre que houvesse outros envolvidos? – exatamente.
- Precisamente, meu amigo. Ela era tão insegura da própria importância, que tentava fazer com que você precisasse dela incondicionalmente. – e que mulher não tenta? – Mas você demonstrava sua suposta superioridade e a afastava, isso acabou afastando-a. – redundante?
Axel permaneceu calado por alguns segundos, quase um minuto, eu diria. Daí veio a pergunta que eu tinha esperanças que ele não fizesse.
- E o que eu faço, então? – Oh, pobre Jack – O que eu tenho que fazer para resolver isso?
- Algo bem difícil para você, engolir seu orgulho e CORRER ATRÁS DELA! – quis deixar bem enfático – Vá à casa dela e faça uma declaração, deixe claro que você precisa muito dela e que sim, precisa dela para ser feliz. Ela ama você, meu amigo, ama tanto que até enjoa, às vezes. – isso é inveja minha – Então não tem problema se humilhar por ela, já que você também a ama tanto.
- Já pensou em fazer o mesmo? – maldito – Há quanto tempo você não manda um torpedo para Elena?
- Não estamos falando de mim, não sou eu quem está chorando. – atacar o orgulho dele era a única forma dele me deixar em paz nessas horas.
- Ah, mas você deu mais esperanças a ela, não foi? E mesmo tendo ficado com a Aline... eu achei que vocês acabariam voltando. – eu cheguei a pensar isso também.
- Quer resolver o seu problema ou falar de mim? – pus-me em pé para ganhar autoridade – Vá agora e tome uma decisão, seja homem!
Ele ficou em pé também, lá se foi minha autoridade.
- Tudo bem, se você diz... vou agir diferente de mim mesmo, vou correr atrás dela. Afinal é ela quem eu quero, não é?
- Não é? – repeti para ser dramático.
- É! – então ele me lançou um olhar suplicante – Vamos comigo? Pelo menos até a frente da casa dela?
Dei um leve sorriso malicioso.
- Claro, aproveito e converso um pouco com a Mel!
- Safado! Você tá enrolado com sua ex-namorada, ama sua prima, tem uma amizade colorida com a prima de Bárbara, e ainda quer dar em cima da vizinha dela? – falando desse jeito eu pareço um tipo de Don Juan fajuto – Você atira mais que metralhadora, mas tem uma mira terrível!
- Ei! Dessas que você listou eu só errei em duas. – embora uma dessas fosse a que me valeria por um milhão, a única que eu realmente faria questão de acertar - Pode considerar cinquenta por cento de acerto nessa sua metáfora aí. –
No fim combinamos de ir juntos ao bairro de Bárbara, antes ele voltou em casa para se arrumar e eu fiquei a terminar meus afazeres. Tinha que fritar hambúrgueres para minha irmã comer, quando chegasse da aula de piano. Alegre estava eu, sentindo o aroma delicioso de carne frita, quando ouvi o som de mensagem no celular. Fui a ele, na mesa, a luz do display ainda acesa.
“Hum, Elena!”
E a mensagem dizia assim:

            “Só eu que tenho que me importar de manter contato contigo? Que pretensão, hein?”
Na verdade ela tinha certa razão em estar chateada, fazia três dias que eu não dava notícias. No começo, assim que tivemos nossa recaída, eu meio que voltei a mandar mensagens a ela todos os dias, uma ou duas só para constar. Acho que o sentimento voltou com tanta força, que foi quase como se tivéssemos reatado. Mas com o tempo, e devido há os outros aspectos, tudo foi esfriando outra vez para mim. Aparentemente, para ela, era como se nós tivéssemos mesmo reatado, assim ela exigia que eu agisse como tal, embora negasse tal exigência.
Além disso, tinha Marcela, minha corrente morena. Percebi que eu jamais conseguiria pertencer a alguém enquanto a amasse como amo. Como não fosse correspondido, sempre buscava o amor em outros braços, aliás, foi para afastá-la da cabeça que arrumei uma namorada. Depois, claro, desenvolvi um sentimento muito forte por Elena, era amor sim. Mas era um amor como o de Catherine por Edgar, no Morro Dos Ventos Uivantes, algumas folhas secas ao vento, logo mudaria. Meu amor por Marcela era como uma rocha, firme e imutável, eu era Marcela.
Infelizmente Marcela não era para mim como Heathcliff para Cathy, meu medo era acabar me tornando como ele, Heathcliff, amargo e infeliz. Minha sorte era a facilidade de ter sentimentos pelos outros, e o sentimento que eu despertei por Aline era mesmo acolhedor. Enquanto eu tivesse isso eu conseguiria não me tornar um monstro.
Perdido em devaneios, vi-me fora da casa. Não sei ao certo como fui parar lá, mas pode ter a ver com o estranho calor que senti nos olhos, como de outras vezes em que eu simplesmente apaguei. Saí e fui à casa de Axel, lá me pus desapontado.
- Olha, Jack, ela voltou para mim! – a expressão de felicidade e triunfo no rosto dele me deixou desconcertado – Bárbara veio para mim, Jack, nós nos resolvemos.
- Ah, claro! – disse eu olhando nos olhos dela – Na única oportunidade que eu tenho de fazer Axel pisar no orgulho, você me faz o papelão de voltar, senhorita Bárbara? – ela me lançou um sorriso demente – Que… coisa!
- Desculpa tê-lo feito ir até você, não quis que perdesse seu tempo.
- De forma alguma eu perdi tempo enquanto ele esteve lá, só perdi tempo vindo até aqui.
Ele deu um soco no meu braço e depois sorriu.
- Vamos, ela trouxe pizza com Coca-Cola, entra e deixe-me retribuir pela que bebi na sua casa.
- Tem álcool aí? Sério, depois dessa eu quero ficar bêbado.
Passamos três etílicas horas, com muita pizza, vodka e rock’n’roll. Ficaríamos lá por mais tempo, se não fôssemos alarmados pela sirene dos bombeiros. Alguma casa no quarteirão estava em chamas, embora nosso estado não nos permitisse conjecturar qual. Saímos e por pura curiosidade fomos em busca do incêndio.
É claro que o leitor atento já deve ter imaginado o acontecido: Eu não desligara o fogo do fogão, provavelmente o vento deve ter virado a frigideira e espalhado o óleo em chamas. O curioso é que não me recordo do momento em que meus pais chegaram a casa, sim, por que eles estavam dentro da casa quando houve o acidente. Minha irmã, por sorte, decidira almoçar na casa da vizinha, assim não houve perigo para ela.
Meus pais acabaram em coma. Sim, esse caso se torna cada vez mais curioso, pois embora o corpo do meu Padrasto tenha ficado quase todo queimado, minha mãe embora também em coma, não tivera uma queimadura sequer. Os dois foram internados na ala de luxo do Hospital James Barrie, onde ficaram por mais de um ano. Minha irmã foi morar com a família do pai, ali pelas redondezas mesmo. Eu, o pobre e bêbado Jack, acabei me mudando para a casa da minha avó. Infelizmente não havia como continuar pagando a faculdade, talvez não tão infelizmente, porque assim meu pai poderia começar a pagar um curso pré-vestibular descente para seu filhinho, eu, e no fim do ano eu faria o curso que eu tanto sonhei. A partir daqui iniciou-se a minha era de liberdade mais exacerbada, onde pude desenvolver cada vez mais meu lado sombrio.
Lados bons e lados ruins. São essas horas que me fazem pensar que falta algo de humano em mim, pois não derramei uma lágrima nem gastei um minuto sofrendo pelo ocorrido. Salvei meu notebook, por sorte eu ando com ele para todos os lados, então eu ainda tinha o que fazer. Afastei o incidente da minha mente e voltei a me concentrar naquilo que para mim era meu real problema.
“Hora de responder a essa mensagem!”

Jack L. Carroll

2 comentários:

  1. Hm, acho que o Jack tenta se enganar, mas não estar tendo sucesso. Mas enfim, não entendemos nem nossos próprios sentimentos, imagine então o dos outros.

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  2. Bem bem...o que posso dizer sobre a parte VI da história... hummmmmmmmmmmmmm... foi boa sim. Só não sei por que às vezes penso que a história está perdendo um pouco o foco inicial e se voltando a histórias mas desconectadas da parte central, que seria o Jack. De qq forma, concordo em partes com que o Zé falou. Na realidade, não acho que ele esteja querendo se enganar... e sim, está tentando acertar a acaba se enganando ao invés disso. Não sei por que o Jack insiste em estar com uma pessoa (ou mais) tendo tanta certeza que ama uma outra, como diz ele. E como fica a ex e atual ficante dele nessa história? Seria obrigação dela ficar a vida toda esperando de braços cruzados uma posição do indeciso Jack... e sem encher o saco dele? Às vezes dá a impressão q na visão do Jack sim. Usar as pessoas sem se preocupar com a situação delas parece-me um dos lados mais sombrios do ser humano. Pode até parecer que houve alguma preocupação por parte dele por ela, com o cuidado na hora de responder o sms. Mas será que era preocupação mesmo com ela... ou o medo de se ver sem seu principal "cano de escape" para desilusões? Veremos isso nas cenas dos próximos episódios...
    Espero ainda me surpreender positivamente com o Jack ^^

    Fui..
    Bju nii-chan.

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