O que há por aqui?

Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

terça-feira, 22 de março de 2011

Transgressor (Meia Janela, Meio Céu – Parte IV)

-->
Elena (Meia Janela, Meio Céu - Parte III) 

Na Praça Edward Davis Wood, mas conhecida como Ed. Wood, acontecem diversas manifestações artísticas todos os dias. As maiores ocorrem aos sábados, quando todos os habitantes das classes média e alta da cidade estão de folga. Desde palhaços dando piruetas, a poetas que declamam seu amor aos quatro ventos, sempre há algo para se ver estando na praça.
Naquele dia a atração principal era um grupo teatral que representava um número de Commedia Dell’arte, pude ver claramente de onde eu estava o drama passado pelo Pierrot, que apaixonado pela bela e doce Colombina se vê diante de seu rival, o divertido e galante Arlequim.  Este dava várias piruetas e contava piadas mil, tendo sempre como alvo o pobre Pierrot. Colombina caia de amores por Arlequim, enquanto este estava mais interessado em lograr o outro palhaço. Ao fim da peça, a bela dama percebeu que o doce e romântico Pierrot era o homem certo para estar ao seu lado, ao passo que o Arlequim dessa versão passou o resto de seus dias a cantar à natureza, despreocupado.
Terminada a apresentação, decidi que já era hora deu estar onde prometi que estaria. Levantei do banco da praça e segui para o local onde os namorados costumavam se encontrar a noite. Tal local sob a luz do dia era, na verdade, onde os velhos jogavam seus jogos de tabuleiro. Era um espaço coberto e calçado, onde havia várias mesas cada qual com quatro cadeiras, e em tais mesas havia incrustadas pedras de cerâmica coloridas, formando os tabuleiros. Sentei à mesa mais próxima do poste de luz, pus minha mochila na mesa, virei-me e apoiei os pés no poste e encostei-me no local onde estava minha bolsa.
Por volta das três e meia da tarde, eles chegaram. Ele com o já conhecido casaco preto e laranja e ela com um equivalente feminino, com o acréscimo de um detalhe verde. Pararam diante de mim e jogaram suas bolsas em cima da minha.
- Ora, como sempre eu preciso esperar quase meia hora pelos meus amigos atrasados, não é? – na verdade eu havia esperado uma hora, mas eu havia chegado com meia hora de antecedência – O Axel passou os costumeiros vinte minutos penteando os cabelos, Bárbara?
Ao que a namorada do meu melhor amigo respondeu:
- Na verdade hoje foram vinte três, esse cabelo dele já passou da hora de ser cortado. – riu-se enquanto passava os dedos pelo cabelo dele.
- Ué? Foi você mesma quem pediu para eu deixar essa porcaria crescer, ou não foi? – disse meu indignado amigo.
- Pois é, mas ele está cheio de pontas duplas, meu bem, podia dar uma aparadinha.
- Ah claro, vou dar cinco reais para aquela mulher cortar as pontinhas duplas do meu cabelo! – ele não conseguia usar tom sarcástico, acabava sempre saindo sério demais – Melhor esperar que ele alcance meus ombros, então eu corto logo três dedos.
- Mas aí só o sobrarão sete nas mãos, meu caro. – nunca perdôo.
Eles se acomodaram à mesa e logo começamos a tratar dos assuntos corriqueiros.
- Estou organizando uma caravana para irmos ao show do “Bullet For My Valentine”. Já temos o ônibus e a hospedagem, só precisamos divulgar para a galera. – Bárbara sempre estava metida em tudo que tinha a ver com o cenário musical da cidade – Temos que arranjar no mínimo cinquenta pessoas para cobrir todo o investimento, e nem estou contando com lucros.
- Pode escrever meu nome no topo da lista. – afirmei com pouca empolgação – Mal posso esperar para cantar The Last Fight a plenos pulmões, junto com uma multidão de roqueiros alucinados e drogados.
- E alucinados “por” estarem drogados! – comentou ela.
- Hum, minha felicidade é que minha Baby aqui já confirmou os cem litros de vinho que o pai dela vai disponibilizar. – Axel adorava o fato do pai de Bárbara ser dono da única empresa de bebidas alcoólicas de toda Depp City, sem falar no fato de este ser bastante mão-aberta e radicalmente moderno – No mínimo dois litros para cada, sem falar das pessoas que por algum acaso não gostem de vinho. Será uma puta noitada.
Passamos cerca de meia hora discutindo os detalhes da caravana, depois bateu um breve silêncio. Silêncio esse que foi interrompido pela chegada de alguém que eu não conhecia. Ainda.
Cabelo verde, tatuagem no pescoço. Usava uma plataforma de quinze centímetros na bota preta e uma saia de borracha, vermelha. Usava uma blusa branca de botões, mangas compridas, e por cima um colete preto e aberto. As unhas pintadas de preto, brilhavam  a cada movimento. Havia vários tipos diferentes de pulseiras que iam até o cotovelo, a maioria preta, mas havia varias multicoloridas.
Aquela figura punk espalhafatosa veio direto em nossa direção, sentou-se no banco que ainda estava vago e nos deu um largo sorriso.
- ‘Tou atrasada, prima? – sua voz era estranhamente infantil, algo que se espera de uma garota de dez anos – Mas a culpa foi de um mané folgado que se jogou na frente da minha moto. O filho da puta quase me fazia cometer um assassinato e ainda teve a cara de pau de querer me cobrar pela bicicleta dele que ficou lá, toda fodida.
Àquela visão angustiante da parte podre dos roqueiros da cidade, minhas palavras se perderam em minha cabeça. O que foi uma sorte, pois caso eu proferisse alguma coisa naquele momento, com certeza seriam críticas sérias ao palavreado chulo e à aparência bizarra. A despeito da bizarrice ela era uma garota bem bonita, mas no momento aquele impacto não permitiu que eu reparasse nesse detalhe.
- Que nada! A gente chegou não faz nem uma hora, faz, amor? – Bárbara disse isso girando rápido a cabeça em direção a Axel.
- Não. Nós também nos atrasamos, na verdade. – e ele falava isso tão descontraído que nem parecia que havia esperado tanto – O único que poderia reclamar seria o Jack aqui, mas ele nem sabia que você vinha, então está tudo bem.
- É, ‘tá tudo bem agora, porque o Clark está aqui. – essa alusão ao Superman me fez lembrar das vezes que pensei em pular da minha meia janela – Mas aposto que ele ‘tá nem aí p’ra isso. não, mano?
Chegara a hora em que eu teria que falar, mas acompanhar aquele linguajar não seria moleza. Apesar de tudo, minha cabeça ainda estava cheia com os acontecimentos recentes, assim sendo, essa garota seria o menor dos meus problemas no momento. Resolvi apenas manter a conversa dela.
- Supostamente! Eu estive distraído, na verdade, sempre há o que se ver nessa praça. -  pronto. Eu conseguira manter meus comentários assassinos dentro da minha boca.
- Ah, é. Como um bando de palhaços dando piruetas e caindo de cu no chão. – não, caindo no céu – P’ra mim aqui só presta à noite, quando as bandas começam a tocar. Adoro ver o cenário underground saindo da garagem e assustando os babacas de terno.
Aquilo fora a gota d’água. Naquele momento eu decidira que aquela ali era só mais uma das pessoas a quem eu deveria ignorar a reles existência. Dei um sorrisinho forçado e baixei a cabeça. Mantive o silêncio enquanto os três conversavam, prestando o mínimo de atenção possível, apenas para o caso de alguém me pedir alguma opinião sobre o assunto em questão. Então a garota, que eu descobri se chamar Aline, fez a proposta que me despertou.
- Vamos beber? – aquela frase era bem aceita por mim, não importando de quem viesse.
- Eita! É só ouvir falar em bebida que o Jack se anima e esquece as minas! – que rima mais inapropriada.
- Ah! Então a razão p’ra essa morgação dele são mulheres? – indagou Aline – Nossa, mano, que coisa mais emo! – e ela não era emo? Sinceramente eu nunca distingui os “coloridos” dos “emos” – Devia ter notado pelos lápis de olhos, e pela cara de morte que você tem.
- Olha… melhor pegarmos logo o álcool. – e me afastei em direção ao depósito de bebidas.
Nos últimos tempos eu havia andando mais bêbado que o normal. Normalmente eu tomava alguma Tequila misturada com café, só para buscar inspirações pára minhas histórias do blog. Mas desde que minha cabeça e meu coração não sabiam mais o rumo a escolher, troquei a Tequila por Vodka, pois era mais barata e eu poderia comprar bem mais do que uma garrafa por semana.
Há mais de uma semana que eu não tinha contato algum com Marcela, nem um telefonema nós trocamos. Eu não telefonava justamente devido à confusão que estavam meus sentimentos, já ela por estar bem ocupada com o novo namorado. Para meu desagrado e ódio, minha amada prima havia iniciado uma relação séria com o Dr. “Lerdo” Felipe, que cuidara dela enquanto estava em coma, três meses atrás. Pensei até em causar um acidente a ele, tal qual acontecera a Victor, mas abandonei a ideia. Ser bom me era horrível.
Já minha ex-namorada, atual ficante, estava tão presente na minha vida quanto esteve durante nosso namoro. Mensagens todos os dias, ligações a cada dois, parecia até que nada havia mudado e que ainda éramos namorados. O fato é que não estávamos mais juntos de verdade, embora meu coração de vez em quando sentisse vontade de largar tudo o quanto estivesse fazendo e correr até ela. Não obstante, eu sempre me lembrava, e percebia durante as conversas, que não estávamos prontos a reatar. Eu ainda me achava numa posição superior demais para admitir certos erros, ao passo que ela ainda achava que o mundo girava em torno de seu umbigo.
Marcela me via apenas como o amado primo, Elena me via apenas como alguém que deveria, por gentileza, fazer tudo que ela quisesse. Eu amava as duas, mas nenhuma das duas estava apta a me fazer feliz naquele momento. Dessa forma, o único jeito que eu encontrara para afastar esses pensamentos de minha cabeça era escrevendo, porém a única forma de não me afogar em versos dramáticos e depressivos era escrever bêbado.
Pegamos a bebida com um dos empregados do pai de Bárbara e fomos a Roda, o único local da Ed. Wood onde se é permitido beber. A Roda nada mais era do que um círculo de cimento, grande o bastante para comportar trinta roqueiros bêbados. Naquele momento éramos apenas nove os ocupantes da Roda, havia ainda cinco metaleiros encostados um no outro e com sete garrafas de vinho aos seus pés. Sentamo-nos a uns dois metros de distância deles, sem nenhuma razão em especial, e fizemos a mistura de Vodka com Coca-Cola. Cafeína e álcool é a mistura mais produtiva de produtos que podem matar já inventada pelo homem, com certeza.
Depois da primeira virada a conversa recomeçou.
- Mas me conte aí, seu emo, qualé a parada lá com as minas? – depois do primeiro copo eu já não me contenho as palavras – Quantas são as que balançam esse teu coração chorão, caralho?
- Dá-se o fato que esse palavreado baixo por você utilizado não condiz com a minha pessoa. – e eu estava só começando – Tente refazer esse seu questionamento de modo que eu consiga compreender sem pensar em nenhum órgão sexual!
- Quer me acertar na cabeça logo, não? – então ela fez uma expressão maníaca enquanto imitava uma arma com a mão e apontava para a têmpora – Dá logo na minha cara, porra!
- Você não me faz o menor sentido, sabia? – já ia terminando de beber o segundo copo – E eu não sou emo!
- Claro que não! Nem ‘tou vendo a porra da franja. – então ela deu uma risada histérica que acordou um dos metaleiros Eita! Foi mal aí, mano!
- É! Só a porra de um topete! – o nome disso é “má influência” –
- O seu problema, pelo menos assim de cara, é que você lê demais! – minha maior qualidade acaba de ser considerada um defeito, eu realmente tinha que estar bêbado -   Dá p’ra notar porque você fala feito meu professor de português.
- E, assim de cara, o seu problema é ler de menos! – fácil quando vem fácil.
- Uhuu! Meio brinde ao egoísmo! – disse isso me erguendo um copo cheio bem ao meu rosto.
- Bom saber que pelo menos site de quadrinhos você lê. Comecei a achar que você só sabia ler rótulo de bebida.
- Cruel! Mas eu também leio embalagens de cigarro, porra, sou letrada nessas coisas. – grande.
Agora eu sabia estar diante de uma viciada em cigarros e bebidas, comecei a beber mais rápido. Quanto antes eu perdesse a consciência mais rapidamente me livraria da presença transgressora dela.
- E quem foi que disse que eu fumo? – eu achei que tivesse pensado isso.
- Eu falei isso alto? – o álcool já estava a me pregar peças – Que mais eu falei?
- Saiba que eu nunca dei nem um trago num cigarro!
- Você mesma disse que lia os rótulos.
- Por isso nunca dei nenhuma tragada, saca?  - como argumentar com essa lógica? – Agora minha presença é menos “transgressora”?
- Eu falei isso alto também? Mas a resposta é sim, de qualquer forma. – afastei-me um pouco, queria me encostar ao poste que havia no meio da Roda.
- É? Então foda-se! – curta e grossa.
- Ui! Mais um copo! – dobrei-me e enchi o copo à medida de três dedos de Vodka e o resto de Coca-cola.
Eu já estava vendo o mundo girando quando ela se aproximou de mim e falou em meus ouvidos, mania de bêbados essa.
- Sim, mas… e as garotas? – falou cochichando, mas eu senti o humor em sua voz.
- Ah! São duas, eu as amo, mas não estarei feliz com nenhuma delas. – não consigo inventar mentiras enquanto embriagado.
- Já pegou alguma delas? – sim.
- Uma delas é minha ex, então a resposta deve ser sim.
- Se ama por que é ex? – sua voz ia ficando cada vez mais alterada pela bebida.
- Essa é uma ótima pergunta, mas nem sóbrio eu conseguiria dar uma resposta satisfatória. – ainda hoje eu não saberia responder.
- Aff, que merda! Mas e a outra? -
- É minha prima, nunca quis nada comigo além de primisse! – já estava difícil usar palavras próprias do dicionário.
- Já tentou pegar? – daí veio um sorrisinho de desdém.
- Não exatamente, mas ela já deixou claro que eu não tenho chance alguma.
- Caralho, esse teu jeitinho certinho deve ser a merda! – e o dela era uma maravilha, não?
- Muitas gostam, ainda mais com esse meu rosto. – tenho rosto de homem do cinema.
- É um rosto bem bonito mesmo, aposto que ninguém nem repara na tua barriguinha. – eu reparo nela, todos os dias.
- Você acabou de reparar nela, não foi? – aí ela deu uma olhada rápida e depois desviou.
- Foi, porque agora eu estou te observando. Mas mesmo com esse rosto tu ainda fica uma merda por causa do jeitinho nerd. – sinceridade desmedida, era isso que eu precisava.
- Mas eu ainda beijo muito bem, disso eu posso me gabar sem um pingo de humildade nem modéstia. – não dizem que a modéstia é a humildade dos hipócritas?
- Ahã, Cláudia, senta lá!
- Fale o que quiser, mas eu me garanto!
- Então vamo colocar um pouquinho de “transgressão” nessa sua vidinha de leitor certinho.
Mais uma vez eu pude sentir meus olhos arderem em chamas, mais uma vez eu era eu e era nada, e embora Axel tenha dito que eu tentara me livrar dela no início, Bárbara tinha certeza que eu tinha agarrado Aline no momento em que ela me beijou. Mesmo que eu ainda possa argumentar, colocando a culpa no álcool, por exemplo, a verdade é que eu adorei fazer aquela loucura. Ficar com Aline naquele dia limpou toda minha mente de coisas importantes. Eu realmente precisava disso, duma dose concentrada de maluquice e insensatez. Consigo recordar bem o momento, embora eu não saiba se tentei ou não lhe escapar. Foi bom.

4 comentários:

  1. Cada vez que leio esse conto me identifico mais...
    Um dia quero ler o livro completo!!!

    ResponderExcluir
  2. Mais uma viagem...rs...
    Como já comentado "pessoalmente", esse Jack parece-me contraditório... se julga e é julgado como tão certinho mas com atitudes de pessoas "não-certinhas"! Se a gente for parar para pensar... no fundo no fundo todos nós temos algo de contraditório. Um lado que nem os outros e, muitas vezes, que nem a gente mesmo conhece. Bora descobrir?
    Fui...

    ResponderExcluir