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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Elena (Meia Janela, Meio Céu - Parte III)

        Olhos Vermelhos (Meia Janela, Meio Céu - Parte II)



- Você ainda me ama? – não obstante à ternura da pergunta, a voz dela era imperativa e desafiadora – Responda sem rodeios!
A ventania naquela área da Universidade Gene Watson era constante, o que fazia aquela parecer uma cena Hollywoodiana. Seus cabelos dançavam ferozmente como se fosse um incêndio diante de meus olhos. Estávamos sentados num ponto onde aparentemente todos os ventos da UNIGEWA se encontravam, o som era mítico.
- Cheguei à conclusão que a paixão é só uma condição, logo muda. – cruzei os dedos sobre os joelhos, precisava pensar bem antes de responder.
- Não estou falando de paixão, Jack, mas de amor. – ainda me fazia sentir como se eu tivesse num interrogatório.
- E pensar que logo você está me fazendo tal pergunta, a “Senhora Disciplinada”. – quanto mais tempo eu ganhasse, melhor seria – Eu certamente não me preparei para dar essa resposta a você.
Ela me olhou com um ar de riso.
- Logo você? Achei que você tinha uma resposta pronta para tudo. – quando se conhece o oponente é muito fácil encurralá-lo.
- Isso não significa que eu queira falar tudo que me vem á cabeça quando sou interrogado.
O clima estava tenso, eu ainda estava sentindo a conexão, mas não fazia ideia do que se tratava. Pude sentir minha pele tremendo, meu coração acelerou. Minha mente estava diante de um dilema impar.
Eu peguei sua mão e comecei a pensar. Ao toque minhas forças se foram, fui obrigado a usar todo meu esforço para não desabar no chão numa tremedeira que não cessaria facilmente. Meus nervos gritavam comigo, meus músculos me mandavam saciar minha fome imediatamente. Logo minha outra mão segurava a mão dela, senti uma vibração vinda desde baixo até a ponta dos meus fios de cabelo.
- Você vai ficar aí segurando minhas mãos? – pude sentir uma suavizada em sua voz.
- Er... sentiu isso? – foi tudo que pude pensar.
- Meu rosto está vermelho, não está? – ela estava sorrindo.
O sorriso foi o estopim de tudo, nada mais me faria ficar ali parado apenas a observando. Puxei suas mãos e colei meus lábios nos lábios perfeitos que Elena tinha. Logo nossas línguas estavam dançando o mesmo tango, nossos corpos vibravam no mesmo ritmo. Diante daquilo nenhuma das minhas decisões fez o menor sentido, tudo era nada e nada era apenas eu.

Uma semana antes da minha recaída com a Elena, eu estava prestes a cometer um assassinato às portas do Hospital James Barrie. Não havia controle algum em meus atos, havia apenas o puro instinto animalesco que jaz adormecido no coração de todo ser humano. O verme que tremia a minha frente não poderia escapar, a morte cantava o réquiem e logo ele estaria acabado. O universo perverso que era a mente desse Duda logo se extinguiria sob minha ira.
Os físicos afirmam que as abelhas não poderiam voar. Graças ao fato de suas asas serem demasiadas pequenas em relação ao seu corpo, as abelhas não deveriam alcançar a força dinâmica necessária para erguer-se e alçar vôo. Não obstante tal teoria, o inseto melífero cuidou de provar que físicos são tão úteis a ele quanto vacinas contra a gripe para um adepto da teoria da conspiração. O fogo em meu pescoço fez com que meus músculos se contraíssem e logo eu estava no chão.
- Filho da Puta! – ele se afastou rápido, esfregando a mão no pescoço onde marcas de dedos estavam tornando-se hematomas – O que é você? – comicamente própria essa pergunta.
Eu já havia me levantado. Embora a dor em meu pescoço ainda fosse intensa, mais intensa ainda era o ardor em meus olhos.
- Melhor você sumir da minha vista, ou não responderei pelos meus atos. – era minha voz saindo da minha boca, mas não era eu falando.
Duda ainda ostentava pavor no olhar, deu um passo para trás e assim ele se afastou. Tive a impressão de que ele queria correr, mas o medo de me dar às costas não permitiu. E foi assim, caminhando de costas, que ele foi embora. Por razões óbvias ele desistiu de visitar minha prima.
Fui para casa depois daquilo, Mary Ann saberia cuidar do meu ferimento no pescoço. Ainda estava confuso em relação ao que havia acontecido, nunca antes eu tinha perdido o controle daquela forma. Era como se uma entidade mais poderosa houvesse se apossado de todas as minhas ações, embora eu tivesse presente como espectador. Quando eu já estava deitado em minha cama me ocorreu uma possibilidade que por poucos instantes me causou temores.
“E se acontecer outra vez? E se da próxima vez não houver uma abelha para me parar? E se eu matar alguém?”
Não consegui dormir naquela noite, fiquei a revirar-me na cama até que o astro rei resolveu mostrar-me sua face flamejante. Era pouco mais de seis horas da manhã quando meu celular despertou. A faculdade exigia que eu acordasse cedo, e mesmo aos sábados eu fazia questão de estar de pé antes de todos na casa. Pus o braço por cima da cabeça e alcancei o aparelho, ao olhá-lo percebi algo que havia deixado passar na noite anterior. Uma mensagem.

Aprendi que não posso exigir nada de ninguém. Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim e ter paciência para que a vida faça o resto.
W. Shakespeare

A mensagem vinha de Elena, minha ex-namorada. Há algum tempo nós havíamos decidido terminar nosso namoro, mas de vez em quando nos surpreendíamos com essas mensagens.
“Exigir coisas de alguém não é privilégio de muitos.”
Pus o telefone de lado e me aprontei para sair. Sentia minha cabeça rodar, aquela havia sido, na verdade, a segunda noite consecutiva que eu passava em claro. Na noite anterior eu tive insônia e passei-a toda redigindo uma postagem para meu blog. Agora minhas forças estavam se esvaindo, mas o sono não viera visitar-me.
Estive absolutamente acordado o dia inteiro, embora as aulas ao sábado me causassem um sono que normalmente me faria dormir em plena carteira, o assunto das aulas penetrava em minha mente como uma faca que se perde no objeto perfurado. As pessoas em minha volta deixavam marcas em meu subconsciente como se meus olhos fossem uma câmera de vídeo e eu estivesse gravando cada momento num cartão de memória de estocagem infinita. Fui para casa assim que pude, tentei em vão adormecer, mas só conseguia entrar em devaneios e despertar, pulando da cama assustado.
Após a quarta noite em claro, eu já não tinha muita consciência do problema em que isso poderia me colocar. Assim sendo eu estava perigosamente debruçado sob a sacada de uma das salas de aula, quando vi alguém que não deveria estar lá. Passando pelo nível inferior ao meu, ela caminhava decididamente pelo corredor, usando a farda da faculdade, como se fosse uma estudante comum. O que seria impossível.
Desci correndo pelas escadas. Desviei de muitas pessoas, mas algumas eu tive que simplesmente empurrar para o lado. Sem tempo a perder eu saltei os últimos sete degraus, meu joelho causou-me uma dor cortante para a qual não dei importância no momento. Posso falar que voaria se tivesse asas, pois corri mais rápido do que posso me lembrar. Ainda me recordo exatamente das pessoas ao meu redor, apontando e cochichando, os olhares de espanto e os gritos de advertência.
Quase não tive tempo, mas o tive afinal. Agarrei-lhe o braço e a virei para mim.
- Elena! – minha voz saíra fraca, minha garganta estava seca.
Mas o rosto não era o dela. A voz que me questionara o ato não era a dela. A expressão de medo que surgira ao mirar-me os olhos não era a dela. Eu a soltei e corri. Não sei por quanto tempo, mas sei que estava fora da faculdade quando parei. Aquele mal entendido me perseguiria para sempre naquele lugar, mas nada me tirava da cabeça que havia sido ela quem eu vi passar.
“Mas mesmo que a fosse, não havia porque você correr daquela forma louca!” – eu disse para mim mesmo – “Ela estaria lá, você poderia apenas descer e falar com ela,”
Tentei me convencer que a culpa era da insônia, não estava conseguindo raciocinar no tempo certo.
“Mas você resolveu aquelas questões matemáticas com maestria, se faz isso com raciocínio lento você deveria ser um gênio!”
Gênio! Essa era uma coisa que eu certamente nunca fui.
Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, vi-a outra vez. Caminhando distraidamente pela calçada, trajada toda de amarelo. Estava prestes a atravessar a rua, novamente eu corri. Não seria difícil alcançá-la. Mas quando estava frente a frente, percebia que não era ela.
“O que está acontecendo comigo?”
Havia passado os últimos dois meses me convencendo que não sentia mais nada por ela, mas era ela quem estava nas minhas alucinações. Repassei em minha própria cabeça as razões pelas quais nós dois havíamos terminado o namoro, uma delas era o fim da paixão que eu sentia por ela.
“Mas não o fim do amor, você mesmo disse isso.” – não era a minha voz, não era eu.
Elena estava em minha frente, olhando-me de forma acusadora. Pude sentir as várias críticas que ela estava prestes a me jogar.
“Seu megalomaníaco desprezível! Saiba que ser humilde com os que você considera inferiores é uma questão de nobreza” – eu imaginava que a razão de todos os meus males era minha mania de grandeza, isso me fazia acreditar que tudo dava errado por causa disso.
Mas eu sabia que não era culpa minha. Ou talvez fosse culpa minha e por isso eu não me culparia. Levantei para enfrentá-la, então percebi que não era o rosto dela diante de mim.
- Esse é o louco! – foram as palavras que ouvi antes de desmaiar.
De acordo com o que a Senhora Magda, minha honorável mãe, disse-me depois, eu dormi por três dias consecutivos. A faculdade me dera uma dispensa médica de um mês para tratamentos psiquiátricos. Eu estava num quarto da psiquiatria do Hospital James Barrie. A iluminação era fraca, mas eu pude ver que alguém estava ali comigo.
- Os médicos disseram que logo você acordaria, que estava só dormindo.  – Axel estava com o meu notebook no colo, na certa isso o distraíra durante o tempo em que estivera ali. – Vou tuitar avisando que você já despertou.
Meu sono não durou nem a metade do da Marcela.
- Não sei para que você colocaria isso no seu twitter.
- Na verdade estou colocando isso no SEU twitter. – e o maldito falou isso como se fosse a coisa mais normal do mundo – É o seu notebook, percebeu?
Não discuti assuntos de privacidade com ele, tudo que queria era resolver meus assuntos inacabados. Logo que pude eu mandei uma mensagem a Elena, tínhamos que devolver as coisas que havíamos emprestado um ao outro durante nosso ano de namoro. Com essa desculpa eu marquei um encontro com ela na universidade onde ela estudava.
- Eu tenho dinheiro para ir para casa ou vou ter esperar por carona? – perguntei enquanto procurava minhas coisas, mas apenas o celular estava ali.
- Na verdade você só tem a mim. Sua mãe me encarregou de dar a você uma carona até sua casa. – que ótimo, saindo da ala psiquiátrica e entrando na UTI
Fomos embora uma hora depois daquilo.
Eu sabia que não conseguiria seguir em frente sem pôr tudo em pratos limpos. Aquela culpa me perseguiria por muito tempo, eu precisava sanar aquela situação. Se eu conseguisse mostrar para ela os seus próprios erros, talvez a carga em minhas costas diminuísse.
Na sexta-feira nos encontramos. Na área mais ventilada da UNIGEWA nós sentamos e conversamos.
- Você nunca foi cem por cento honesta comigo! – o primeiro golpe era sempre meu.
- É o que VOCÊ acha! – ela respondeu sem nem me olhar.
- Você só falava as coisas que eu queria ouvir, nunca foi sincera o bastante.
- Hum, se eu fosse você ficaria irritado. Qualquer coisa que eu dissesse que fosse contra seus valores o deixava furioso. - o que era bem verdade.
- Não importa! Você deveria ter feito! Nós estaríamos juntos até hoje se você tivesse sido tão sincera quanto eu.
- Não! Você teria nos destruído com essa sua gana em estar sempre certo sobre tudo. Nada salvaria nosso relacionamento.
- Hum, era você que vivia jogando na minha cara o quanto eu era reclamão e dramático. Não conseguia ver que era sempre eu quem guiava nossas discussões para uma resolução. – minha respiração estava saindo do controle.
- É o que você acha! – ela disse para o chão – É claro, a culpa de tudo era sempre minha!
- Não consegue ver o quão dramática VOCÊ é?
- Ah, não quero ter que ouvir isso de você. Ainda mais sendo você o “Senhor Ignorância”. – De fato.
- Chama de ignorância a frieza que surgiu depois que deixei todo meu ciúme de lado? Eu chamo de desinteresse ou, talvez, indiferença.
- Pois foi essa indiferença que acabou conosco.
- Você exigiu o fim dos ciúmes, foi isso que eu fiz. Acho que você não esperava que a linha entre o ciúme e a paixão fosse tão fina.
- O fim da paixão… Foi isso?
- O resultado de tudo que você me exigiu sem nada dar em troca das exigências.
- Pare com isso! Não há sentido nenhum nessa nossa conversa.
- Só quero resolver as coisas. Preciso da nossa amizade.
Ela me olhou com uma expressão incrédula.
- Você ainda me ama? – não obstante à ternura da pergunta, a voz dela era imperativa e desafiadora – Responda sem rodeios!
- Cheguei à conclusão que a paixão é só uma condição, logo muda.
- Não estou falando de paixão, Jack, mas de amor. – não havia suavidade em sua voz.
- E pensar que logo você está me fazendo tal pergunta, a “Senhora Disciplinada”. – quanto mais tempo eu ganhasse, melhor seria – Eu certamente não me preparei para dar essa resposta a você.
Ela me olhou com um ar de riso.
- Logo você? Achei que você tinha uma resposta pronta para tudo. – quando se conhece o oponente é muito fácil encurralá-lo.
- Isso não significa que eu queira falar tudo que me vem á cabeça quando sou interrogado.

O final disso, é claro, todos já sabemos. Não reatamos nosso namoro mesmo depois de termos aquela “recaída”, mas as coisas ficaram bem mais complicadas do que estavam, embora não houvesse mais nenhum peso de culpa em minha consciência. De minha parte eu estava satisfeito com aquela condição, mas tinha certeza que aquilo não poderia continuar como estava sem alguém acabar magoado.
Ao fim daquele dia eu pensei nas duas mulheres que estavam habitando meu pensamento. Meu coração estava se dilacerando em duas partes, minha mente era uma profusão de imagens. Eu sabia que tinha uma escolha difícil a fazer, e que ambas iriam requerer muito esforço para que dessem certo. O pior de tudo era: Não havia certeza de sucesso em nenhum das duas possibilidades. Eu estaria nas mãos do destino.

2 comentários:

  1. hummmmmmmm... bem bem...mais uma história sem mensagens nas entrelinhas, apesar da construção de linhas de tempo diferenciada.
    Um ponto interessante da história que me fez ficar pensando, foi a questão das possibilidades...destino... escolhas... que me pareceu, a princípio somente, um tanto controversa. Sim, pois se existe um destino já traçado, não teríamos muito o que escolher! Ele simplesmente vai acontecer independentemente do que tentamos optar. Parece injusta, às vezes, a idéia de não escolhermos realmente nossos caminhos, ao mesmo tempo que parece cômodo deixar nas mãos do destino que as coisas aconteçam.
    Outro ponto..... será que ao término de um relacionamento resolve de alguma coisa discutir sobre quem teve a culpa ou quem foi o mais culpado pelo fim? É como diz a história... quando um não quer, dois não fazem.... a culpa nunca é de apenas um... ou mais de um que do outro. Logo, ao invés de se tentar achar soluções, tenta-se livrar-se da culpa jogando- a para cima do outro.... erro esse extremamente corriqueiro.
    Enfim, acho que viajei denovo, para variar...

    Sem mais nada a declarar

    Bjuss nii-chan..

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  2. Engraçado como ninguém consegue entender minhas visões como você, mana. Você consegue explicar as coisas de uma forma que eu não consigo ver, adoro ler seus comentários por que assim eu mesmo me entendo.

    Fica tudo muito vago quando eu escrevo, você clareia as coisas e assim se resolve as confusões da minha mente.

    Amo você, minha irmã de outra mãe.

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