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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Olhos Vermelhos (Meia Janela, Meio Céu – Parte II)


Saí de casa às catorze horas da sexta-feira. Corri ao ponto de ônibus e torci para que este se apressasse. Logo eu estaria no James Barrie, o horário de visitas terminava as dezoito, então eu teria pelo menos três horas com ela. Sentei no banco do coletivo e fiquei a escutar a música, Always, do Bon Jovi, que tocava na rádio. De vez em quando passava algo que prestava nessas rádios de ônibus. Geralmente eu cantava essa música pensando nela, hoje eu cantaria para ela. Logo o ônibus fez a última curva do trajeto, eu já podia ver as torres norte e sul do monumental Hospital James Barrie.
Corri até a portaria, Axel deveria estar esperando-me com as flores e os bom-bons. Não tive tempo de comprá-los, sorte minha ter um amigo tão prestativo à minha disposição.
- Ah! Aí está você. – Parecia a voz de quem esperara trinta minutos além do combinado – Eu estive parecendo um idiota segurando essas coisas aqui na frente, pega isso logo!
- Obrigado, meu caro, estou devendo essa a você com certeza.
- Sem dúvidas. Você está me devendo cinquenta e três pratas por essas coisas.
Dei um sorriso de deboche incrédulo.
- Marcela acorda de um mês e meio de coma e você só está pensando no seu dinheiro, seu porco? – meu olhar incisivo deixava qualquer um maluco de raiva – Que amigo mais mequetrefe você está se mostrando, espero que ela não venha a tomar conhecimento disso! – eu gargalhava por dentro.
- Pare de falar comigo dessa forma! – vociferou – Parece até que eu ‘tou num teatro! Aff!
Axel simplesmente detestava quando eu me prestava a palavrear de forma rebuscada. Ele achava que eu estava caçoando das três vezes em que ele havia reprovado em português, e, aliás, eu estava mesmo.
- Tudo bem, “mano”. – eu ri – “Valeu” pelas flores! Toma aqui a “grana”.
- Pode parar! – ele disse de repente – Três gírias de uma vez, vindo de você, assusta. – e então ele sorriu – Vai logo! Ela está doida para ver você.
- Não alimente falsas esperanças! – eu estava em chamas por dentro.
- Confie em mim. – e um sorriso malicioso surgiu nos lábios dele – Ela disse que mal podia esperar para ver o “Best” dela! – e aí caiu na gargalhada.
Passei rápido pelos corredores, depois de já ter me informado na recepção sobre o quarto dela. Tropecei no pé de um médico alto que saia de uma sala, quase que eu ia parar no chão. Pelo menos no hospital eu já estava. Depois de xingar mentalmente o “Doutor Lerdo”, dei-lhe as costas e fui em direção ao quarto de Marcela. À porta, eu estanquei.
“Bater ou entrar, eis a questão”
Antes que eu me decidisse, a porta se abriu e uma enfermeira saiu apressada.
“Entrar, então”
Pus-me para dentro e a observei. Estava coberta da cintura para baixo com um lençol, mas o que eu via me era o bastante. A pele moreno-clara brilhava sob a luz branca, as mãos delicadas apoiadas no lugar onde, por baixo do lençol, estavam as coxas. Os cabelos negros e lisos posicionados graciosamente à sua esquerda e o rosto, como posso expressar em palavras algo tão belo, fazia-me sonhar. Sua face era larga e delineada, tinha traços firmes e ao mesmo tempo delicados, o nariz era imponente e muito bem desenhado, o sorriso era um convite para o delírio. Mas o que mais me enlouquecia ao olhá-la eram seus olhos, grandes e lineares, tais como os das indianas, e sob eles brilhava o castanho-claro mais resplandecente que o universo poderia criar.
- Agora que seus olhos já estão em meus olhos, posso dar um oi a você. – era difícil me manter lúcido quando ela falava, sua voz era o canto dos anjos para mim – Por que demorou tanto? Sabia que eu acordei ontem à noite, deveria ter chegado logo de manhã!
- Isso vindo da “senhora atraso” me parece um pouco contraditório. – eu costumava passar horas esperando por ela – Além do mais eu faço faculdade agora, fiz o máximo possível para chegar logo aqui.
- Sei, o Axel falou que agora você é um cara ocupado. – ela abriu o belo sorriso para mim – Aliás, fiquei surpresa dele ter vindo me ver, sempre tão ocupado com aquela namorada dele.
- Ele veio porque eu pedi, já que eu não conseguiria chegar cedo.
O quarto onde ela estava era muito luxuoso. A família dela não economizava quando o assunto era saúde. Ao lado da cama, numa mesa de cabeceira, estava um notebook aberto, com um modem de internet conectado. Pude ver a página no Twitter aberta, todo mundo já estava sabendo que Marcela havia acordado do coma.
- Não perdeu tempo, hein? –
- Ah, isso? – ela apontou com o polegar esquerdo – Minha mãe trouxe hoje cedo. Eu falei para ela que ia ter tantas visitas que nem teria tempo de usar. Claro que eu estava enganada.
Não quis expressar meu pensamento, não naquele momento. Desviei o olhar e reparei num sujeito de altura mediana e olhar incisivo. Ele me encarou e eu reparei no cabelo negro penteado num topete alto e majestoso.
“Você está precisando perder uns cinco quilos, Jack” - pensei enquanto desviava minha atenção do espelho.
- Quem mais disse que vinha? – indaguei por fim.
- Sam me ligou, disse que adoraria vir, mas já tinha marcado um encontro para hoje e que tentaria aparecer amanhã. – fiquei feliz em sentir a ira na voz dela, ao invés de remorso, embora Sam também fosse meu amigo – Além dele só o Duda ficou de vir, mas há essa hora eu já não sei.
Que ótimo, nunca gostei muito desse Duda. Sentei-me ao lado dela e peguei sua mão.
- Bom, pelo menos estamos sozinhos, minha Roman, podemos conversar em paz.
- isso! – essa era a resposta evasiva que ela mais usava, seguida de uma desviada no olhar.
Ela permaneceu em silêncio, eu sabia que logo isso aconteceria. Pensando nos amigos que não apareceram logo ela se lembraria do que não poderia aparecer.
A porta foi aberta e alguém se pôs para dentro. Era um médico, alto e distinto. Ao nos ver deu-nos um sorriso e exclamou:
- Senhor “Apressado”! – a voz dele já me irritava.
- “Doutor Lerdo”! – ao que o sorriso dele se expandiu, detesto pessoas assim – Qual é a história?
- Nenhuma! – disse ainda sorrindo – Só que eu sou um médico e este é um hospital. Aliás, esta é minha paciente.
Marcela sorriu ao ver o médico, isso fez algo em mim doer. Resolvi ignorar e fingir, tinha me tornado especialista nisso.
- Doutor Felipe, que bom que você ainda está aqui. Comecei a achar que ia embora sem se despedir de mim. – até assim sua voz me encantava.
- Como eu poderia? Você é minha paciente mais bonita! – maldito Don Juan.
Ela soltou minha mão e se sentou para abraçá-lo. Não tenho certeza, mas acho que meus olhos reviraram de raiva ao fitá-los. Ele a beijou no rosto e depois se afastou.
- Bom, minha querida, acho que esse é o nosso adeus. Quando eu vier ao hospital na segunda-feira você não mais estará aqui.
- O que não me impede de vir visitá-lo! - que interessante, a distância até a minha casa era a mesma, ela nunca me visitava.
- Bom, você tem meu telefone. Ligue quando quiser! – então ele se afastou e foi até a porta – Vou deixar vocês conversarem, o horário de visitas acabará em breve.
- Se você considera duas horas como breve...
- Todo o tempo que houver, junto de Marcela, é pouco. Mas é claro que você sabe disso. – e depois ele se foi.
Ela permaneceu sentada depois que o “Doutor Lerdo” saiu. Aparentemente havia esquecido o assunto que a deixara mal. Eu detestava ter que pensar nessas coisas. Tenho certeza que a vida dela seria muito mais simples e feliz se ela tivesse me escolhido logo de início. Pelo menos ela não estaria na situação que estava agora.
- No que você está pensando? – um grande defeito dela, que eu nem dava importância, era a incapacidade de perceber coisas que estavam bem diante dos seus belos olhos.
- Seu coração doerá menos quando você aceitar que eu sou o homem certo para você.
Ao que ela me respondeu com voz de riso:
- Você não é a primeira pessoa que me diz isso! – que ótima resposta. – Sabiá me disse isso uma vez.
- Mas você não o ama como a mim. – o que era bem verdade.
- Mas eu já fiquei com ele, então eu saberia. – claro que saberia, claro que não.
Eu já estava querendo ir embora, aquilo estava doloroso demais. Resolvi dar logo os presentes. Se eu conseguisse distraí-la bem, a ponto dela não mais pensar no Victor, para mim já seria alguma coisa.
- Você é meu herói, Jack, já não aguentava mais essa comida de hospital. – e então ela reparou nas flores – Rosas vermelhas! Claro que você traria rosas para mim, e a Elena espera suas rosas até hoje.
- Não espera mais, tenha certeza disso. – aquele era outro assunto que eu deveria desviar – Assim que pus os olhos nesse buquê eu decidi que o daria a você logo que despertasse.
Ela abraçou o buquê com carinho sincero e depois o colocou ao lado do computador. Ficamos conversando até que a hora viesse. Falamos de tudo e sobre tudo. É claro que eu tinha muito mais coisas para contar, e claro que falei mais sobre mim mesmo do que sobre qualquer outra coisa. Ainda comentei do sucesso que eu estava fazendo na minha sala de aula e de quão rápido eu me tornara popular.
- Você é mesmo muito sociável, Jack. Parece até que voltou a ser o cara que eu conheci. – o que eu esperava, ciúmes?
- Nunca deixei de ser esse cara. Apenas tive maus momentos, mas já está tudo bem agora. – só estaria tudo bem quando o Superman viesse.
Não estava tudo bem, estava tudo longe de estar bem. Contornei a cama, aproximei-me da janela meio aberta e encostei a testa. Observei o céu, estava azul e límpido. O crepúsculo sorria para mim, era como se o universo soubesse que eu estava num abismo sentimental e caçoasse de mim por isso. - “Onde está o poderoso e frio Jack Ishtar, que não se deixa abalar por sentimento algum?” – Era isso que o céu me dizia. Era isso que eu pensava e me perguntava.
- Lindo esse pôr-do-sol, ? – a voz dela ressoou clara e límpida em meio aos meus pensamentos.
Senti-me despertar de um devaneio e me virei para ela.
- Sim, o verão faz maravilhas ao céu. – ótimo, mostre a ela que você conhece as estações do ano – Já deve estar perto da hora de ir. – contornei a cama outra vez – Foi ótimo rever você, Celinha, e seus olhos.
- Meus olhos gostaram de rever meu melhor amigo também. – ela disse carinhosamente, mas me atingiu como uma espada.
Quando chegou a hora eu a abracei e ela me beijou no rosto. Senti meu rosto arder e me afastei. Ela sorriu para mim e eu devolvi sinceramente o sorriso.
- Até mais, minha cigana!
- Até mais, meu Grã-Duque!

Ao sair do hospital eu me deparei com algo inesperado. Subindo a rampa estava outro amigo de Marcela, Duda, que tendo perdido a hora de visitas provavelmente tentaria usar a influência de seu pai para burlar as regras. Ele me viu e veio andando em minha direção. Estando a um passo de mim ele palavreou:
- Olha só! Se não é o pequeno duque. Como está minha amiga mais gostosa? – a voz dele irritava até o mais ínfimo poro da minha pele – ‘Tou louco para vê-la nas roupas de hospital. Será que ela ‘tá usando daquelas que deixam a bunda de fora? – e daí veio um sorrisinho pervertido.
Sem pensar. Sem refletir. Sem responder. Eu avancei sobre ele e cravei meus dedos por entre os cachos do seu cabelo com minha mão esquerda. Com a direita eu apertei tão avidamente o pescoço dele, que marcas vermelhas surgiram imediatamente. Puxando o cabelo dele para trás eu o encarei.
Eu nunca fui muito bom em brigas, mas meu corpo se mexeu sem minha autorização, embora eu houvesse concordado plenamente com o que aconteceu. Senti meus olhos em chamas, pude vê-los vermelhos pelo reflexo nos do outro. O mundo havia desaparecido, só havia eu e aquele verme o qual eu ansiava por esmagar.


3 comentários:

  1. Continua no próximo capítulo! bwahahahaha

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  2. Mais uma vez, uma boa história. Bem mais leve em detalhes que a parte I. Para mim, desta vez a história se desenvolveu de maneira mas direta e com menos reflexões a serem feitas. O foco principal, a meu ver, foi o de mostrar como o amor pode fazer com que as nossas atitudes e pensamentos mudem, as vezes de maneira que não esperamos. Não mudam por que não temos personalidade...e sim pq ele (o amor)nos dá novas "lentes" para enxergarmos o mundo em nossa volta...

    Bjuss nii-chan
    Agora é só esperar pela parte III!!

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