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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Meia Janela, Meio Céu



Um helicóptero passou hoje bem ao lado da minha casa. Jamais um desses chegara tão perto das minhas paredes quanto aquele. Infelizmente, por mais que eu me esticasse para vê-lo, a posição da minha janela não possibilitou minha visão. Assim, por alguns centímetros de janela à direita, não pude acompanhar o helicóptero que voou o mais próximo possível da minha casa. Agora me pergunto de quem é a culpa, essa é uma pergunta muito comum. Posso culpar o engenheiro por não ter posto uma janela na parede de trás da minha casa, ou o piloto, pois poderia ter admirado a vista da mata, caso voasse mais para a esquerda. De quem foi a culpa?
Sentado em minha cama tenho diante de mim a janela de meu quarto. Olhando em direção a ela posso ver o céu e a copa das árvores que compõem o pequeno resquício de mata que ainda existe em volta da minha casa. Meu quarto não é grande, pequeno quarto, mas há espaço suficiente para minha escrivaninha, guarda-roupas e minha cama. Atualmente isso é tudo de que preciso dentro dele. Minha escrivaninha está sempre cheia de coisas que eu jogo em cima, digamos que já fiz de tudo nela, até amor, menos escrever. Escrevo em um notebook, sentado em minha cama e olhando constantemente para minha janela.
Naquele dia eu estava escrevendo mais uma postagem para meu blog quando ouvi o som do helicóptero, mal deu tempo de pôr o notebook de lado para correr para a janela. Eu estava precisando de qualquer acontecimento incomum de onde tirar inspiração. Frustrada minha esperança, decidi que o melhor a fazer seria tomar uma bela xícara de café, seguida por um copo de tequila. Desci rapidamente as escadas e pus água para ferver. Enquanto esperava notei um som estranho no terraço e fui em busca da fonte.
Lá estava Sírius, meu labrador preto, correndo atrás de Bella, minha gata siamesa. Ele a alcançava e a lambia, então outra vez ela lhe escapava e ele outra vez se punha a persegui-la. Era uma relação bem estranha entre cão e gata, mas os dois só tinham um ao outro como companhia desde que se conheceram, então sempre foram íntimos. Comecei a imaginar se a relação entre eles seria a mesma caso houvesse outro gato, ou uma cadela, além deles mesmos. Talvez os dois cães fossem agressivos ou ignorassem completamente a gata. Talvez os dois gatos não se importassem com o cão. O que ficou em minha cabeça foi a necessidade que um tinha do outro, isso com certeza os unia.
Nunca pus em teste minha teoria, eu gostava muito de ver os dois animais juntos e ficava imaginando como seriam os filhotes, caso os tivessem. Depois, é claro, percebia que isso, provavelmente, seria geneticamente impossível. Um cão e uma gata, mundos muito diferentes, por mais que se gostassem, jamais daria certo.
Ainda do lado de fora da casa, notei como meu quintal estava precisado de uma limpeza. Quer dizer, não havia nenhum lixo ou coisa assim, mas estava cheio de folhas mortas no chão sujo. Admirei um pouco a beleza que era a certeza da morte, pois é a única certeza que se pode ter, depois decidi que logo após a tequila eu limparia todo o quintal. A despeito do fato de que talvez eu não me lembrasse de fazer o serviço depois de ter bebido, entrei para tomar meu café. Demorei tanto no terraço, que a água havia evaporado quase por completo, tive que pôr mais um pouco e esperar ainda mais.
Naquele meio tempo eu recebi uma ligação.
- Jack? Sua voz está estranha… Não importa, tenho uma coisa triste a lhe contar e não sei por onde começar.
Ao que respondi:
- Como diria certo personagem maluco, comece pelo começo e quando chegar ao fim, então pare! – coisas tristes raramente me deixavam triste.
- Bom… Argh, acho que cheiro um rato… Enfim, aconteceu uma fatalidade com um parente seu e imagino que isso vá deixá-lo muito abalado.
- Deixar quem? – Interrompi - Eu ou esse meu parente?
- Você! – ralhou meu bom amigo Axel – Como alguém na posição dela ficaria abalado?
- Que posição? Do que está falando?
- Ai, como é difícil dar uma notícia a você. Ter que ficar escolhendo cada palavra. – a impaciência de Axel me divertia.
- Então continue! Prometo que vou tentar adivinhar essas coisas que você deixa tão ambíguas. –
- Ótimo! Como eu dizia, sua prima Marcela sofreu um grave acidente enquanto se dirigia à faculdade. – ele pôs o máximo de pesar que conseguiu nas palavras, logo eu teria que fazer o mesmo.
Fiquei calado, não soube o que dizer. Axel interpretou meu silêncio com mais pesar e continuou.
- Isso aconteceu há cerca de duas horas, sabe, ela está no hospital James Barrie… em coma!
Mais silêncio se fez, eu ainda não consegui pensar em nada para dizer e apenas continuei a escutar.
- Acho que podemos dar graças aos deuses por ela ainda estar viva, diferente do pobre Victor.
- Victor morreu? – infelizmente não consegui disfarçar a ansiedade na minha voz, qualquer um notaria isso, até mesmo Axel.
- Pois é. Ele estava dirigindo, sabe, ultrapassou um sinal vermelho e um caminhão acabou acertando-os no cruzamento.
Claro que eu sabia que, provavelmente, Victor estava correndo para que a namorada chegasse a tempo para a primeira aula. Percebi que sabia disso porque Marcela havia me falado sobre o Dr. Abberline e sobre a palestra que ele daria naquela mesma manhã. Mesmo assim não pude deixar de sentir raiva de Victor por ter causado o coma da minha prima, embora eu devesse estar sentido pela morte dele.
- É claro que eu sabia que você não lamentaria a morte do Victor, Jack, afinal você espera há meses se livrar dele. Mesmo sabendo que a Marcela só o vê como o primo que você é, está sempre querendo se livrar dos namorados dela. – ele se esqueceu do pesar enquanto falava – Só achei que você sentiria mais o fato dela estar em coma.
- Acho que esqueci a água no fogo. – estava achando difícil me portar como cavalheiro – Obrigado por me avisar, depois eu faço uma visita a Cela.
E desliguei.
Àquela altura a água já havia evaporado toda, agora o cheiro de alumínio queimado incensava a cozinha. Pus mais água e decidi ficar na cozinha esperando, do contrário nunca tomaria aquele café. Talvez algum de vocês pense em como eu sou insensível, ou coisa do gênero. Mas a verdade é que nunca fui de ficar triste por mortes, costumo encarar essas coisas como inevitáveis. Claro que por dentro eu estava muito preocupado com Cela, mas não havia necessidade de demonstrar isso a ninguém. Até porque ninguém estava comigo.
Sentado, olhando para o teto, observei que um casal de aranhas (não sei ao certo se era mesmo um casal) havia feito morada entre a lâmpada mal-colocada da cozinha e o teto. Eram aranhas grandes, do tamanho de uma mão de bebê. Nunca gostei muito de aranhas e me convenci que isso se devia ao veneno. Claro que nem todas as aranhas são venenosas, mas prefiro não pensar muito nisso. E lá veio uma aranha, descendo por um fio de teia, em direção ao fogão. Não sei ao certo o porquê daquilo, mas a dita cuja caiu exatamente dentro da panela onde eu estava fervendo água. Espantado eu observei, mas não mais espantado do que eu fiquei a seguir. A outra aranha veio descendo pela mesma teia, movimentando as patas lentamente, e outra aranha foi parar dentro da panela.
Claro que não tomei café naquele dia. Desliguei o fogo e joguei o conteúdo da panela fora. Resolvi me contentar só com a tequila e abri o armário em busca da minha garrafa. Não estava lá. O nervosismo me subiu à cabeça, subi as escadas correndo em busca de Mary Ann, nossa empregada.
- Mary Ann! – gritei – Mary Ann!
Lá vinha ela, esteve no quintal estendendo roupas e eu pude vê-la pela janela do meu quarto. Ela subiu apressadamente e veio ao meu encontro.
- Que foi? – perguntou ofegante – Quem morreu?
Eu ri da pergunta, mas não quis responder.
- Agora, Mary, diga-me onde está a garrafa de tequila que eu deixei no armário sob a escada?
- Aquela com uma imagem de óculos de aro redondo e um raio no rótulo?
- Essa mesma, onde ela está? – esperar por respostas quando se está contendo o nervosismo é muito difícil.
- Foi dona Magda quem pegou e bebeu tudo, umas duas noites atrás. – respondeu ela com um ar de riso – Nunca vi sua mãe bêbada, foi uma cena!
Mandei-a ao mercado e me pus debruçado na janela.
“Não posso esperar!”- pensei - “Preciso escrever algo descente já!”
Pela janela eu vi as folhas mortas, ainda precisava recolhê-las. Então desci outra vez e peguei uma vassoura. Comecei a varrer, em poucos minutos eu terminaria. Sim, terminaria rápido, se não fosse a campainha ter tocado.
- Pois não? – perguntei ao ser que me apontava um revolver pela minha grade.
- Abra a casa, agora! – ele estava nervoso, provavelmente drogado – Anda, rapaz, meto-lhe uma bala no meio do rosto!
- Nunca fui assaltado por alguém que usasse a ênclise assim, que lisonja!
- E eu nunca assaltei alguém tão frio e calmo como você parece estar agora, não obstante pretendo levar tudo que for de valor de você venha a ter.
- Interessante você dizer isso, pois nada tenho de valor que você possa carregar sozinho. A não ser, é claro, meu notebook, mas isso acabaria com meu trabalho literário.
- A última coisa que pretendo é estragar um trabalho literário, porém preciso alimentar uma garotinha de cinco anos e não tenho alternativa se não lhe assaltar. Abra já esse portão!
- O que fará caso eu decida não o abrir? – perguntei desafiador.
- Já lhe disse, pretendo atirar em você. Você é burro ou o que?
- Hum, mas se atirar em mim eu não poderei abrir o portão. Além disso, você será preso por assassinato e sua garotinha estará longe de você por um bom tempo.
- O que o faz pensar que eu não pularia o muro?
- O arame eletrificado em cima dele!
- Bom argumento, mas o que me incriminaria caso eu o matasse e fugisse?
- A câmera de segurança atrás de mim, gravando seu rosto desde que você chegou.
A essa altura o assaltante, que se mostrou muito amador, começara a tremer. Nesse ponto eu comecei a temer pela minha vida, mas continuei firme.
- Resumindo, é óbvio que você nunca fez isso antes e não tem o mínimo talento para assaltar. – eu falei lentamente, tentando acalmá-lo – Além do mais, você parece ter uns trinta anos e ser letrado, não deveria estar trabalhando ou algo assim?
Ele olhou para mim incisivo e respondeu.
- Não há muito trabalho para professores acusados de estupro. Infelizmente eu e minha filha só temos um ao outro.
Nunca fui de dar conselhos a ninguém, então o máximo que pude fazer, depois que ele desistiu e baixou a arma, foi dar-lhe um presente.
- Aqui, leia isso e tente tirar algo de bom. – dei-lhe um livro que me ajudara a resolver alguns problemas da minha vida – Poliana, de Eleanor H. Porter. É um excelente livro.
- Ah! Já ouvi falarem bem desse volume. Depois de lê-lo, é claro, você não vai se importar se eu vendê-lo para comprar comida, certo? – no fim das contas, acho que ele não estava drogado. Apenas nervoso.
- De forma alguma. Ele é seu, faça o que quiser com ele depois de lê-lo!
E assim o ladrão, que se chamava George Jung, foi-se.
Ao fim daquele dia, as folhas ainda estavam espalhadas pelo quintal, Mary não achou o mercado aberto, nem eu consegui tomar café. Então, sentado na minha cama, observei minha janela mais uma vez.  Eu via meia janela de céu, meia janela de árvores, como sempre. Um belo céu azul fazendo fronteira com um vasto verde. Era a mesma visão de todos os dias ensolarados, mas aquele não havia sido um dia ensolarado comum. Pensei que não conseguiria me inspirar, mas lembrando de tudo que ocorrera eu comecei a relatar.
Falei do cão e da gata, das aranhas no meu café e de como isso foi asqueroso. Comparei as folhas mortas no quintal com a morte de Victor, inevitáveis. Comentei sobre o amor que George sentia pela sua filha e de como isso o fizera adotar uma medida drástica para alimentá-la. E no fim escrevi sobre meu amor por Marcela e de como eu esperava que um dia ela acordasse e percebesse que eu estive ao lado dela o tempo todo. Não escrevi sobre o helicóptero, infelizmente, por culpa de alguém que não conheço.
Ao fim do conto, saí ao hospital.

9 comentários:

  1. Amei a história! Prendeu minha atenção por alguns minutos!rsrs'

    Adorei viiU!

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  2. Gostei de algumas referências, como o Jack, Dead Leaves and The Dirty Ground, I Think Small A Rat... Alice In Wonderland. ^^

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  3. Curti o texto, mas... achei a narrativa um pouco cansativa por conta de detalhes que (ao meu ver) não tiveram muita importância. (como os animais em si)

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  4. Mas Eu Achei Interessante Os Animais. Lembrou-me Algo Particular.

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  5. Gostei muito da história... foi uma viagem!!
    Acredito que a intenção de tantos detalhes e facetas da estória eram de simplesmente mostrar que independentemente do que aconteça com a gente ou com as pessoas de nosso círculo social, a vida continua. Quando digo vida, me refiro a continuidade de acontecimentos os quais normalmente nem notamos ou paramos para pensar neles se realmente não estivermos atentos. Às vezes me acho meio maluca quando penso nestas coisas, mas parece que além de nosso mundo particular existem vários mundos paralelos... formados pelas pessoas e ambientes onde elas estão inseridas. Quando estou andando pelas ruas, por exemplo, e vejo uma outra pessoa que não conheço passando por mim fico pensando...o que será que ela está pensando agora? o que será que ela faz da vida? Será que ela é/está feliz?... É muito estranho pensar isso, mas ela vive simplesmente no mundo dela, do qual eu não faço parte, e que o meu mundo não influencia e nem sofre influência mesmo que a gente se cruze em alguma esquina ou coisa assim.....
    Acho que ninguém entendeu nada, mas tudo bem rsrs... poucos aqui fazem parte do meu mundo para fazer questão de tentar me entender.

    Um beijo nii-chan

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  6. Os detalhes fizeram parte da história, foram os simples fatos que deram ao personagem a inspiração que ele precisava. Narrativas boas são detalhadas, embora nem todo mundo esteja preparado para esse tipo de leitura. Esse tipo de pessoa é, por exemplo, alguém que nunca terá paciência para ler nenhum dos livros da Anne Rice pois está acostumado ao belo mundo dos dragões onde tudo simplesmente acontece.

    Meire, vc é demais, mana!

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  7. Eu venho em paz! (uma mão no peito, uma para o ceu e olhos fechados de forma solene)

    Saibamos que nem tudo que é super detalhados é sinônimo de conteúdo, pois assim nunca olhe num caleidoscópio...

    (monto em meu dragão e vou para a terra onde as coisas acontecem do nada - UH HUUU!)

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  8. Tire um desses detalhes e perceba que a história perderá parte do sentido.

    Ou seja, os detalhes DESTE conto o TORNAM um conto DE conteúdo!

    (Em meio à lufada de vendo proveniente do bater de asas de um Dragão, vê-se uma escama rodopiando por entre os cortes de ar e remanescendo no solo cheio de folhas mortas.)

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  9. Well Avner, I'm going to comment this in English. Yes, I can the influence of the Great Machado here, because he's my favorite Brazilian writer and I've read several of his books. I could see his apparent "I don't care" attitude. Love the descriptions. I do it a lot when I write as well. For me, it's very Tolkian. I can see better because you had described that for me. I can see the house, the kitchen, the bedroom. Loved the references, Sirius and Bella (ps. Bella would kill Serius, by the way :)), and tequila Harry Potter? Must be a good brand. White Stripes song. My favorite psychoanalyst: Jung. My favorite part on your story was the argument between Jack and Mr. Jung. However, something that really had caught my eyes was a certain name choice. "Marcela had loved me for fifteen months and eleven contos de reis". A important name for Mr. Assis, and it had inspired you, but I couldn't let it pass. How cruelty ironic destiny can be. And makes me think in our great Will Shakespeare and the importance of a name "A rose by any other name would smell as sweet". Well done! And I'm being honest with you. Really good

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