O que há por aqui?

Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Meia Janela, Meio Céu - Season Finale

Orgulho e Pós-Conceito (Meia Janela, Meio Céu - Parte VI)





Elena – O Fim De Um Ano

Já expus meu modo de ver a mente humana, um imenso universo onde tudo pode acontecer e de fato acontece, muitas vezes sem que possamos sequer interferir. Cada pessoa encara a vida da forma que melhor a convier, dependendo das experiências vividas. Assim, um mesmo objeto pode ser alvo de diversas opiniões, a uma mesma ação podem ser dadas variadas importâncias, isso dependendo da forma que afetar o indivíduo cuja opinião se pergunta. Aceitando essa visão como correta, é possível entender porque Elena estava tão chateada quando nos encontramos na hora por mim definida.
- Se é assim que você se sente sobre nós dois, Jack, não vou mais aborrecer você – claro que vai – No mais, pouparei meu tempo.
Eu tinha acabado de extravasar tudo que eu estive sentindo nesses últimos dias. Fui sincero com ela, deixei claro que não estávamos mais namorando e que nossas recaídas não passavam de uma relação física. Mas cometi o grande erro de dizer que ainda a amava, o que acabou por criar falsas esperanças em seu coração. É claro que eu ainda sentia algo por ela, mas não era nem um terço do que um dia havia sentido. O tal amor era só nossa velha química, que agia nos atraindo de forma letal um para o outro.
- Poupe mesmo, não perca mais tempo comigo! – nunca consigo dizer exatamente o que quero – Sou um caso perdido.
- Então é sério isso? Não perder tempo com você? – não ouviu da primeira vez, mulher? – Entendi certo?
Outra vez lágrimas, outra vez. Da primeira vez já havia sido ruim o bastante, eu não precisava ver aquilo de novo. No fundo eu não queria ficar só, essa era a real razão para eu não a ter deixado de lado no momento certo. Agora eu precisava resolver aquilo, ou ela pensaria que fiz tudo por capricho, que me diverti às suas custas.
- Entendeu certo, sim. – eu disse quando suas lágrimas cessaram – Seu tempo é algo precioso demais, quase não arrumou um pouco para mim hoje. – já estava outra vez no caminho errado.
- E no fim das contas você só queria me dizer que era tudo atração física, por isso não conseguia conter-se quando ficava perto de mim. Não era amor! – não era mesmo – Não consegue nem conversar comigo mais, nunca sentiu minha falta de verdade.
Eu sempre fico desconcertado quando alguém adivinha exatamente o que estou sentindo, sinto-me como se fosse um livro, ou algo transparente e fácil, isso não me agrada.
- Tudo bem, você tem razão outra vez – melhor do que simplesmente negar – Não era amor, de acordo com sua lógica, porque para amá-la seria necessário que eu me importasse em não magoar você, mesmo você não estando nem aí para o que eu sinto! – um dos meus maiores defeitos é tentar justificar tudo que faço, mas quem não tenta?
- Você chegou mesmo a essa conclusão, ou está dizendo para entrar de acordo com minha lógica? Você deve refletir bem sobre isso. Sei sobre mim, mas duvido sobre você. – ela achar que sabe e saber não era a mesma coisa.
- Não sei o porquê de você se importar, já disse o que sinto, por que ainda insiste em complicar algo que poderia ser bom sendo simples? – outra vez eu declino em minhas decisões por medo da solidão.
- A felicidade é construída aos poucos, por blocos de pequenas coisas felizes. No fim tenho que me importar com algo. Tento seguir sua linha de pensamento, mas não funciona assim comigo. – nem comigo, na verdade – Bom, se você é feliz assim, continue.
- Continuo sim, e não tenho culpa se você leva tudo tão a sério. – eu poderia ter parado nessa frase que ainda sim já seria ruim – E, honestamente, a única coisa que você ganhou com tudo isso foi um rosto molhado de lágrimas sem sentido algum! – a grosseria foi a única forma que encontrara de dizer o que ia no meu coração.
Depois dessa, é claro, ela não conseguiu manter a pose. Mas não a culpo, eu consigo ser realmente alguém para com quem é difícil manter-se firme num diálogo.
Então ela se levantou e gritou:
- Pode ficar aí se achando o foda, mas saiba que se hoje choro a culpa é sua só por ter insistido nisso quando eu tava superando. No fim acabei me fodendo.
Não respondi, seria covardia dar uma de minhas respostas a essa demonstração de fraqueza. Tudo que fiz foi observar enquanto Elena ia embora. Finalmente se dera o fim de ano na minha vida. Um ano no qual me tornei o que sou hoje, um ano em que percebi que não posso ficar com uma pessoa apenas para afastar outra do pensamento. Um ano em que surgiu em mim a consciência de que, por mais que não pareça, eu tenho o poder de dobrar o mundo com minhas palavras, ou ao menos evitar um assalto.


Marcela – A Reafirmação Do Fracasso

A noite tinha acabado de cair em Depp City, os postes de iluminação já davam o ar de sua graça, as pessoas já começavam a desaparecer, hora do jantar, quem sabe? Eu andava cambaleante pela avenida principal do centro, alguns talvez afirmassem que eu estava bêbado. Costumo dizer que, se falamos de álcool, quando bebo em excesso posso perder-me em um alto nível etílico a ponto de minhas funções cerebrais ficarem alteradas. Porém, bêbado, para mim, era um estado de espírito, estado esse que tenho orgulho de desfrutar em tempo integral.
Eu não tinha bebido álcool naquela noite, na verdade eu não tinha bebido nada desde que recebera a ligação de meu tio, Arnold, sobre a viagem. De acordo com ele, sua filha, minha amada prima, Marcela, estaria no primeiro vôo para o Rio de Janeiro, do dia seguinte. Ela viajaria para conhecer a família do Dr. Lerdo, possivelmente ficaria por lá um bom tempo. Claro que entendi o que aconteceria a seguir.
“Casamento”
Minha mente tentava processar a informação, meu corpo desistira de sincronizar com ela, agia por impulso. Só quando estanquei em frente à casa dele, foi que despertei para o meu cenário, e não me agradou saber o que meu corpo planejara fazer. Ao entender o que ocorrera e pensar no que ocorreria, lembrei-me do que acontecera há pouco, antes de vir.

Assim que recebi a ligação, senti o conhecido calor nos olhos. A ira e o medo de perder Marcela dominaram meus atos, como se um demônio se apossasse de meus membros apenas para satisfazer minha real vontade, não importando o quanto minha mente dissesse que não poderia ser feito. Senti as pontas dos dedos ficarem em chamas, cada nervo se agitava como um louco numa camisa de força. Suor em minha nuca, espasmos em todos os meus músculos, surto de adrenalina.
Corri em direção ao porão da minha avó, local onde todos os pertences que foram salvos do incêndio foram guardados, esmurrei a porta, as dobradiças ficaram inutilizadas. Meus pensamentos gritavam tanto que nem ouvi o som que a porta fez ao bater numa jarra de barro e espatifá-la. No porão, procurei a mala com as coisas do meu Padrasto, ao menos uma vez esse casamento ia me ser realmente útil. Era um baú grande, pesado em si e ainda mais com os diversos trecos que tinham dentro. A despeito do peso absurdo, ergui o objeto facilmente e o pus na área iluminada. Destruí a fechadura, já que não possuía a chave do cadeado, levantei a tampa com tanta ânsia, que essa também acabou se desfazendo.
“Achei você!”
Arma básica da polícia local, pistola automática calibre 32, uma Sparrow. Meus olhos brilharam de prazer ao mirá-la, já sentia o efeito da endorfina que tentava aliviar minha tensão. Era prateada, detalhes em negro. Ao longo do cano havia uma inscrição. Era comum em Depp City que os usuários de armas dessem nomes às suas, assim sendo, se alguém tinha uma arma sem nome, muito provavelmente a havia conseguido por meio ilegal. A arma de Anthony, meu padrasto, tinha o nome da primeira bandida que ele prendeu usando essa.
“Vamos, Talita, seja meu brinquedinho hoje.”

Tendo me lembrado de tudo isso, estar diante da casa do Dr. Lerdo me abriu o leque de possibilidades. Mas embora eu soubesse que deveria dar meia volta e desistir daquilo, já não era mais possível. Enquanto eu cooperasse com meu corpo, teria controle sobre este. Porém na tentativa de ir embora, provavelmente acabaria inconsciente e deixaria que ele, meu inconsciente, fizesse aquilo que queríamos.
Com Talita escondida no bolso do casaco, toquei a cigarra. Ouvi passos se aproximando, a hora era vindoura. Tentei relaxar, ficou mais fácil quando aceitei o fato. Notei a maçaneta girando lentamente, logo após a sombra ter sumido do olho mágico. Abriu-se para trás, a porta, revelando o alvo de minha ira. Lá estava ele, Dr. Felipe, o homem que levaria embora minha fonte de felicidades, minha razão platônica de viver.
- Ah, finalmente você chegou. – eu estava sendo esperado, que ótimo – Entre, Celinha o está esperando! – “Celinha”? Ele estava pedindo para ser morto.
Permaneci uns cinco segundos calado, não podia transparecer meus reais sentimentos. Acho que se eu fosse o Superman o Dr. Lerdo teria sido frito pelos raios de calor, pois meus olhos já ardiam mais que o próprio inferno.
- Sim. – foi tudo que consegui falar.
Entrei. Ele me guiou até a sala, muito grande bem decorada. A casa de um médico promissor. Mas embora fosse uma bela estadia, tudo naquele lugar me gerava ódio. Exceto, é claro, pela pessoa morena sentada no sofá, olhando me daquela forma intensa e misteriosa.
- Duque! – a voz... era a canção que me dividia – Que bom que veio me ver, achei que viajaria sem me despedir de meu melhor amigo. – o olhar dela era o raio que tentava me levar de volta para a luz – Sente-se aqui, Felipe estava me contando sobre a vez em que ele quase caiu do corcovado. – antes tivesse caído.
- Ah, sim. Vou me sentar para comemoramos o seu desprezo por mim e pelo que sinto por você! – ficar calado não era um dos meus fortes – Vamos sim, falar sobre como será interessante para você com o seu novo namorado lá na terra daquela estátua odiosa, enquanto eu, abandonado e sozinho, arrasto-me em direção ao abismo das lamentações.
Uma vez dado o caos, o melhor a se fazer é aproveitá-lo.
- Não acredito em você! Como pode? – fácil, tente! – Depois de todas as vezes em que conversamos, Jack, achei que já tínhamos resolvido essa questão.
- Claro! Já sei o que você vai dizer. Mas uma coisa é você namorar outra pessoa morando aqui em Depp City, perto de mim. Outra coisa é ir embora, deixar-me como se nunca tivesse significado algum para você.
- Cara, não é bem as.. –
- Cale a boca, seu idiota! – gritei para ele, fiz um movimento rápido e logo o apontava a arma ao coração – Diante dessa situação, no seu lugar, eu não diria uma palavra sequer!
Marcela abafou um grito com as mãos quando viu Talita.
- Jack, abaixe isso! – nem ao menos conseguia usar um tom autoritário – Isso não é um brinquedo, alguém pode sair machucado!
- Alguém vai sair morto daqui, Celinha. Nesse momento essa arma é tudo quanto me resta de felicidade, e pode ter certeza que vou usá-la. – pude ver os meus olhos vermelhos, brilhavam no fundo dos dela.
- Jack, por favor! – daqui vem minha vergonha – Se você o matar eu sofrerei. – seus olhos estavam marejados, senti como se sua voz acariciasse meu coração.
- Vai sofrer por ele? É isso? – em contrapartida, apenas ódio escorria de meus lábios.
- Um pouco, sim. Eu o amo, Jack, não posso mentir sobre isso. – poderia sim, se quisesse – Mas sofrerei porque você seria preso, sofrerei porque você deixaria de ser meu amigo amado para se tornar o assassino do meu amor. Como eu poderia amar alguém que se dispõe a matar as duas metades de meu coração na mesma noite?
Desse ponto eu fraquejei. A razão falou alto, eu acordei para a realidade. Se eu fosse preso, não estaria longe de meu amor de qualquer forma? Se ela me odiasse, não me abandonaria do mesmo jeito? Não, não podia fazer, não conseguiria mais. Infelizmente, uma vez que eu fechei a janela de controle do meu inconsciente, este agiu por conta própria. Eu não sou uma pessoa que pode simplesmente negar os desejos e agir pela razão, o céu era o limite de minhas ações inconscientes, agora.
- Antes você me odiando sozinha do que me amando a distância e estando com ele. – não era eu falando, não era minha voz – Se for para me desprezar que seja por algo que realmente eu tenha feito, pois não há sentido em me amar como você diz e não querer estar comigo. Não aceito essas condições. – mas com certeza eram coisas que eu realmente adoraria gritar para ela.
Um golpe rápido em meu braço. Um disparo rápido no ombro dele. Dr. Lerdo sangrava no chão, Talita jogada no tapete. Marcela chorava com ele nos braços, não morreria. Ele não morreria. Mas as viaturas em frente à casa não me deixariam fugir, tentativa de homicídio também é crime.
- Desculpe-me, Marcela. – eu chorava – Não quis.. ele me atacou e.. – ela fez a pior coisa que poderia ter feito, olhou-me aliviada.
- Tudo bem, eu sei que você não teria feito. – eu não, mas eu sim – Ele ficará bem, vamos dizer que foi tudo um acidente lamentável.
Se fosse assim tão fácil eu não estaria escrevendo sobre isso agora. Dr. Felipe deu queixa de mim, sim, eu teria dado também. No outro dia eu estava atrás das grades, sozinho e acabado. Embora minha condição fosse péssima algo me alegrava, Marcela, em desagrado por ele ter me feito ser preso, cortou todas as relações com o sujeito. No fim, o amor dela por mim era mesmo maior. Isso me confortava.
Na minha cela, sozinho. Meu pai era militar, o que me propiciou uma cela particular. Mas a solidão já não mais me doía, embora eu preferisse estar solto. Não recebi visitas, Axel estava viajando com Bárbara, coisas da família dela. Nem mesmo meu pai se deu ao trabalho. Eu era apenas a ovelha negra da família, que embora parecesse ter um futuro maravilhoso, acabara sendo um peso a se carregar, uma escória.
Perdido em devaneios, mal pude ouvir a voz do guarda.
- Ei, garoto! Tem visitas para você!
Quem seria? Quem? Ainda tenho amigos, é claro. Provavelmente Axel voltara e soubera de minha prisão. Ouvi a voz dele, sim. Eram ele e Bárbara. Surpreendi-me por me sentir feliz, no fim eu realmente não queria estar só. Vi-os, aproximaram-se.
- Estávamos pensando em vir amanhã, porque acabamos de chegar. Mas tinha uma pessoa que não conseguiu esperar para ver você.
De trás deles saiu ela, uma visão que me deixou surpreso comigo mesmo, pela segunda vez naquele dia. Cabelo verde, tatuagem no pescoço, um sorriso lindo e um olhar audaz. Aproximou-se da cela, ainda sorrindo, ajoelhou-se perto de onde eu estava deitado e pegou minha mão.
- Oi, bebê! – disse Aline.
- Oi!- e eu sorri.

Jack L. Carroll

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Orgulho e Pós-Conceito (Meia Janela, Meio Céu – Parte VI)




Dom Quixote de La Mancha é um livro fenomenal. Lendo esse livro eu aprendi que sob os efeitos da imaginação, ou loucura para os céticos, pode-se transcender o estado da razão e alcançar-se uma elevação espiritual que pode muito bem ter representação no plano físico. Assim, enquanto o materialista Sancho Pança sentia-se todo moído após levar uma das muitas bordoadas que viria a levar durante o livro, Dom Quixote curou-se apenas tomando um gole de uma mistura inventada por ele mesmo, tal mistura que não fizera efeito benigno algum no escudeiro.
Enquanto eu tentava usar os poderes da imaginação para afastar da minha cabeça meus problemas, ouvi alguém gritar por mim do lado de fora de minha casa. Venho dizendo a minha mãe, há algum tempo, que nossa casa é muito alta e que por isso deveríamos ter instalada uma campaninha, poupando assim a voz do meu bom amigo Axel.
Tratei de ir à varanda para averiguar se minhas suspeitas estavam corretas, e deu-se que mais uma vez se confirmou o fato de eu raramente me enganar. Axel estava encostado em uma das duas árvores fícus que embelezariam a entrada da minha casa, caso fossem podadas. Gritei de volta avisando que logo desceria, ainda precisava encontrar minhas chaves, sou do tipo de pessoa que coloca as chaves na mesa e esquece no outro minuto onde as colocou.
Perceber que eu estava absorto numa leitura em pleno sábado à noite me fazia pensar nas palavras de Aline. Isso realmente era um grande sinal de solidão. Infelizmente ela estava viajando e não sabia quando estaria de volta, então eu estava sem a única pessoa com que eu me sentia confortável, além do Axel, para falar de mim sem ter que andar “pisando em ovos”. Eu só tinha, atualmente, esses dois amigos com quem aproveitar uma noite de sábado, Axel, porém, tinha Bárbara. Então o que diabos ele queria comigo?
Bárbara era muito ingênua e inocente quando começou a namorar Axel, embora essa fosse muito influenciada por histórias japonesas, o que poderia tê-la levada cedo demais para o caminho da luxúria. Porém o próprio Axel tratou de ser a influência que ela precisava, assim ele a levou para cama enquanto ela nem tinha completado treze anos. O problema é que, quando se tem tal idade, as pessoas tendem a querer experimentar coisas novas o tempo todo. Assim, de vez em quando, havia algumas brigas entre eles, o que fazia Axel sempre propor o fim  do namoro, caso fosse essa a vontade de Bárbara. No fim eles sempre se beijavam e resolviam que tudo não passara de uma situação ignóbil.
Agora ela já era muito mais madura que naquela época, sabia muito bem conter seus impulsos jovens. Os quatro anos de namoro os haviam aproximado tanto, que não se podia tentar pensar em um sem acabar pensando no outro. E assim eles sempre foram um modelo de casal para mim. Sempre que eu, durante o curto período em que estive namorando Elena, pensei em desistir por qualquer que fosse a razão, pensava em como eles dois eram felizes por tanto tempo e me imaginava feliz da mesma forma ao lado dela. Bárbara e Axel eram perfeitos um para o outro, enquanto ela relevasse as crises de orgulho e falso desapego dele.
Achei minhas chaves exatamente onde lembrei ter colocado, demorei uns cinco minutos para lembrar. Dentro do vaso de flores, em cima da mesa, eu sempre colocava ali quando chegava da faculdade. Saí e abri o portão, lá estava Axel.
- Desculpa incomodar, cara! – engasgou ele.
Sem aviso prévio ele veio para cima de mim e me abraçou, eu o abracei de volta assim que percebi que ele estava chorando. Percebi exatamente o que havia acontecido, então o apertei com mais força.
- Eu disse que isso acabaria acontecendo. – eu sei, eu sou insensível – Vem! Entra, vamos beber Coca-Cola e conversar sobre isso.
Entramos. Na sala eu o fiz sentar em um dos sofás e fui buscar a bebida. Não há melhor forma de se soltar a garganta do que com muito gás de refrigerante, essa é minha opinião.
- Você fez a pergunta outra vez, não foi? – claro que foi.
- Foi, cara. – ele ainda estava tremendo – Estávamos conversando sobre o futuro, e ela comentou algo sobre conhecer pessoas novas.
- E você demonstrou sua benevolência dizendo que se ela quisesse poderia terminar e ir em busca de novas pessoas, não foi?
- Quantas vezes você quer que eu diga que você está certo? – estava se afogando em lágrimas – “não foi?”, “não foi?”. Só sabe dizer isso?
- Desculpa. A Elena reclamava do meu “é ou não é?”. – todo mundo quer reclamar do Jack – Pode prosseguir.
Ele me olhou de soslaio e depois bebeu toda a Coca-Cola de uma vez. Acabou se engasgando e tossindo forte. Depois que se recuperou, encostou-se no sofá e olhou para o teto. O pomo de adão se movia rápido.
- Eu perguntei se ela queria conhecer outras pessoas, experimentar outras pessoas. – que expressão mais vulgar – Ela me olhou e disse que sim. Perdi a calma e mandei-a embora.
- Você perde a calma muito rapidamente, devia se tratar. Quem sabe um “tarja preta”? – ele não respondeu à minha provocação – Agora, logo eu vou ter que dar conselhos amorosos a você, onde já se viu?
- Manda ver! – a deixa.
- A Bárbara gosta de maltratar você por causa do seu orgulho. – Oh, Bárbara, não maltrate meu amigo – Ela adora falar coisas que façam você se sentir fraco. – parece música dos Los Hermanos – Mas ela não faz isso porque odeia você, e sim porque ela precisa que você demonstre que precisa dela. – ou seja, ela o faz miserável porque o ama – Mas você sempre faz questão de deixar bem claro ela poderia fazer a escolha que desejasse você a deixaria livre sem brigar por isso. – disso ela não gostava.
- Então você está dizendo que ela me deixou porque eu a deixei livre? – sim – Ela preferia que eu fosse um ciumento idiota e que a cercasse e a incomodasse sempre que houvesse outros envolvidos? – exatamente.
- Precisamente, meu amigo. Ela era tão insegura da própria importância, que tentava fazer com que você precisasse dela incondicionalmente. – e que mulher não tenta? – Mas você demonstrava sua suposta superioridade e a afastava, isso acabou afastando-a. – redundante?
Axel permaneceu calado por alguns segundos, quase um minuto, eu diria. Daí veio a pergunta que eu tinha esperanças que ele não fizesse.
- E o que eu faço, então? – Oh, pobre Jack – O que eu tenho que fazer para resolver isso?
- Algo bem difícil para você, engolir seu orgulho e CORRER ATRÁS DELA! – quis deixar bem enfático – Vá à casa dela e faça uma declaração, deixe claro que você precisa muito dela e que sim, precisa dela para ser feliz. Ela ama você, meu amigo, ama tanto que até enjoa, às vezes. – isso é inveja minha – Então não tem problema se humilhar por ela, já que você também a ama tanto.
- Já pensou em fazer o mesmo? – maldito – Há quanto tempo você não manda um torpedo para Elena?
- Não estamos falando de mim, não sou eu quem está chorando. – atacar o orgulho dele era a única forma dele me deixar em paz nessas horas.
- Ah, mas você deu mais esperanças a ela, não foi? E mesmo tendo ficado com a Aline... eu achei que vocês acabariam voltando. – eu cheguei a pensar isso também.
- Quer resolver o seu problema ou falar de mim? – pus-me em pé para ganhar autoridade – Vá agora e tome uma decisão, seja homem!
Ele ficou em pé também, lá se foi minha autoridade.
- Tudo bem, se você diz... vou agir diferente de mim mesmo, vou correr atrás dela. Afinal é ela quem eu quero, não é?
- Não é? – repeti para ser dramático.
- É! – então ele me lançou um olhar suplicante – Vamos comigo? Pelo menos até a frente da casa dela?
Dei um leve sorriso malicioso.
- Claro, aproveito e converso um pouco com a Mel!
- Safado! Você tá enrolado com sua ex-namorada, ama sua prima, tem uma amizade colorida com a prima de Bárbara, e ainda quer dar em cima da vizinha dela? – falando desse jeito eu pareço um tipo de Don Juan fajuto – Você atira mais que metralhadora, mas tem uma mira terrível!
- Ei! Dessas que você listou eu só errei em duas. – embora uma dessas fosse a que me valeria por um milhão, a única que eu realmente faria questão de acertar - Pode considerar cinquenta por cento de acerto nessa sua metáfora aí. –
No fim combinamos de ir juntos ao bairro de Bárbara, antes ele voltou em casa para se arrumar e eu fiquei a terminar meus afazeres. Tinha que fritar hambúrgueres para minha irmã comer, quando chegasse da aula de piano. Alegre estava eu, sentindo o aroma delicioso de carne frita, quando ouvi o som de mensagem no celular. Fui a ele, na mesa, a luz do display ainda acesa.
“Hum, Elena!”
E a mensagem dizia assim:

            “Só eu que tenho que me importar de manter contato contigo? Que pretensão, hein?”
Na verdade ela tinha certa razão em estar chateada, fazia três dias que eu não dava notícias. No começo, assim que tivemos nossa recaída, eu meio que voltei a mandar mensagens a ela todos os dias, uma ou duas só para constar. Acho que o sentimento voltou com tanta força, que foi quase como se tivéssemos reatado. Mas com o tempo, e devido há os outros aspectos, tudo foi esfriando outra vez para mim. Aparentemente, para ela, era como se nós tivéssemos mesmo reatado, assim ela exigia que eu agisse como tal, embora negasse tal exigência.
Além disso, tinha Marcela, minha corrente morena. Percebi que eu jamais conseguiria pertencer a alguém enquanto a amasse como amo. Como não fosse correspondido, sempre buscava o amor em outros braços, aliás, foi para afastá-la da cabeça que arrumei uma namorada. Depois, claro, desenvolvi um sentimento muito forte por Elena, era amor sim. Mas era um amor como o de Catherine por Edgar, no Morro Dos Ventos Uivantes, algumas folhas secas ao vento, logo mudaria. Meu amor por Marcela era como uma rocha, firme e imutável, eu era Marcela.
Infelizmente Marcela não era para mim como Heathcliff para Cathy, meu medo era acabar me tornando como ele, Heathcliff, amargo e infeliz. Minha sorte era a facilidade de ter sentimentos pelos outros, e o sentimento que eu despertei por Aline era mesmo acolhedor. Enquanto eu tivesse isso eu conseguiria não me tornar um monstro.
Perdido em devaneios, vi-me fora da casa. Não sei ao certo como fui parar lá, mas pode ter a ver com o estranho calor que senti nos olhos, como de outras vezes em que eu simplesmente apaguei. Saí e fui à casa de Axel, lá me pus desapontado.
- Olha, Jack, ela voltou para mim! – a expressão de felicidade e triunfo no rosto dele me deixou desconcertado – Bárbara veio para mim, Jack, nós nos resolvemos.
- Ah, claro! – disse eu olhando nos olhos dela – Na única oportunidade que eu tenho de fazer Axel pisar no orgulho, você me faz o papelão de voltar, senhorita Bárbara? – ela me lançou um sorriso demente – Que… coisa!
- Desculpa tê-lo feito ir até você, não quis que perdesse seu tempo.
- De forma alguma eu perdi tempo enquanto ele esteve lá, só perdi tempo vindo até aqui.
Ele deu um soco no meu braço e depois sorriu.
- Vamos, ela trouxe pizza com Coca-Cola, entra e deixe-me retribuir pela que bebi na sua casa.
- Tem álcool aí? Sério, depois dessa eu quero ficar bêbado.
Passamos três etílicas horas, com muita pizza, vodka e rock’n’roll. Ficaríamos lá por mais tempo, se não fôssemos alarmados pela sirene dos bombeiros. Alguma casa no quarteirão estava em chamas, embora nosso estado não nos permitisse conjecturar qual. Saímos e por pura curiosidade fomos em busca do incêndio.
É claro que o leitor atento já deve ter imaginado o acontecido: Eu não desligara o fogo do fogão, provavelmente o vento deve ter virado a frigideira e espalhado o óleo em chamas. O curioso é que não me recordo do momento em que meus pais chegaram a casa, sim, por que eles estavam dentro da casa quando houve o acidente. Minha irmã, por sorte, decidira almoçar na casa da vizinha, assim não houve perigo para ela.
Meus pais acabaram em coma. Sim, esse caso se torna cada vez mais curioso, pois embora o corpo do meu Padrasto tenha ficado quase todo queimado, minha mãe embora também em coma, não tivera uma queimadura sequer. Os dois foram internados na ala de luxo do Hospital James Barrie, onde ficaram por mais de um ano. Minha irmã foi morar com a família do pai, ali pelas redondezas mesmo. Eu, o pobre e bêbado Jack, acabei me mudando para a casa da minha avó. Infelizmente não havia como continuar pagando a faculdade, talvez não tão infelizmente, porque assim meu pai poderia começar a pagar um curso pré-vestibular descente para seu filhinho, eu, e no fim do ano eu faria o curso que eu tanto sonhei. A partir daqui iniciou-se a minha era de liberdade mais exacerbada, onde pude desenvolver cada vez mais meu lado sombrio.
Lados bons e lados ruins. São essas horas que me fazem pensar que falta algo de humano em mim, pois não derramei uma lágrima nem gastei um minuto sofrendo pelo ocorrido. Salvei meu notebook, por sorte eu ando com ele para todos os lados, então eu ainda tinha o que fazer. Afastei o incidente da minha mente e voltei a me concentrar naquilo que para mim era meu real problema.
“Hora de responder a essa mensagem!”

Jack L. Carroll

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Elijah e a Conquista de Ankhar

Uma máscara branca que paira sobre a relva
Um vento que canta às mil vozes dos esquecidos
No reino perdido na mais profunda selva
Desperta os combatentes outrora adormecidos

Elijah convoca as tropas do grande pássaro
Sob a espada de fogo vida nova o exército ganha
Reanima os antigos que lhe eram caros
E em troca lhes exige uma enorme façanha

Doze eram as fileiras de doze combatentes
O vento era sua espada, lâmina que tudo fatia
E diante das terríveis chamas de calor latente
Cada simples golpe doze homens ele abatia

Sob as ordens do senhor Elijah, deveriam marchar
Rumo à amaldiçoada fenda da terrível perdição
Onde o exército vermelho do rei de Ankhar
Forjava suas espadas e escudos de mão

Terrível e sangrenta foi a batalha dos 144 dias
A máscara branca pôde enfim demonstrar sua impiedade
Aniquilando pais, mães, filhos, filhas, tios, tias
Distribuindo gratuitamente temíveis atrocidades

Ao fim da 144ª noite de sítio à cidade de Ankhar
O rei decretara oficialmente sua rendição
Elijah enfim conquistara o maior de seus objetivos
O controle absoluto da décima segunda região

E assim Ankhar chorou lágrimas sangrentas
Lágrimas que mais pareciam chuva ácida
Elijah comemorou e rei em sua contenda
Até que uma flecha perfurou sua de aço couraça

No chão ele estirado e abandonado ficara então
O exército esquecido ao esquecimento retornara
Ao que em chamas seu corpo foi-se numa explosão
E o corpo do conquistador de Ankhar se dissipara

Eis que a ave de fogo surgiu no extenso horizonte
E toda a vida da décima segunda região fora roubada
A máscara branca, Elijah, retornara imponente
Mas de seu domínio a governar não restara mais nada

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Rápido Relato de Chloe (Meia Janela, Meio Céu – Parte V)




Estava eu, Jack Lewis Carroll, a passear pelos corredores da faculdade onde estudava, quando me deparei com uma cena que a mim pareceu-me muito familiar: havia um casal de namorados discutindo a relação sem se preocupar minimamente com os terceiros que estavam a bisbilhotar. A garota em questão não era outra senão uma de minhas colegas de classe, Chloe Cavalcante. Ao que pude ouvir, do pouco que não consegui evitar, ela estava muito chateada com algo que o namorado, do qual até o presente dia não me recordo o nome, havia feito há dois dias.
Chloe não era pessoa de fazer mistérios, então quando comentei com ela sobre o ocorrido ela me deu um sorriso forçado e soltou:
- Coisas da vida, Jack, estresses que ocorrem quando se tem um namorado. Nada além disso. – depois que comentei sobre a clareza do fato de seu sorriso não ser sincero, ela desabafou – As coisas não são mais as mesmas, aconteceu uma coisa me pegou desprevenida.
Daqui por diante o texto se baseará no relato que Chloe me fez naquela manhã chuvosa, durante uma aula vaga ocasionada por uma professora prestes a dar à luz:


Sua mente vagava pelo céu infinitamente decorado por estrelas que contam histórias do passado e do futuro. O colossal guerreiro do céu acenava para ela, enquanto esta se distraía contando e identificando todas as estrelas que compunham as doze constelações zodiacais. Conhecedora de certos segredos astrológicos, ela se perguntava por que os astros mostravam que o porvir lhe reservava tais provações, se no momento estava tudo tão perfeito em sua vida.
Ser jovem demais e sábia demais, dizia sua avó, embora ser sábio seja uma grande dádiva, não era uma condição fácil com a qual lidar. Seu consolo era sua imensa esperança, esta jamais lhe faltava ao coração e sempre estava a lhe pôr um belo sorriso no rosto. Ela entendia o mundo como pouquíssimas pessoas o fazem, então ela conhecia as pessoas melhor do que elas mesmas, assim ela pensava.
Diante desse fato, Chloe esperava sentada e confusa, num dos bancos do Xadrez, local situado na praça Ed. Wood e que eu já mencionei, esperando pelo seu amado, que já se demorava. Lá vinha o dito cujo, não me recordo mesmo seu nome, caminhando com as mãos nos bolsos, cruzando a alameda que compunha o caminho que ia desde a Roda até o Xadrez. Usava óculos escuros Ray Ban que lhe assentava perfeitamente no rosto, uns dizem que esses óculos ficam bem em qualquer um, uma jaqueta preta aberta com uma camisa branca por dentro, e uma calça jeans desbotada e rasgada nos joelhos. Ele era um perfeito bad boy moderno, como que saído dos tempos da brilhantina.
A intensidade dos refletores que iluminavam a praça Ed. Wood à noite era tamanha, que Chloe nem estranhou o fato dele estar usando óculos escuros àquela hora. Mesmo ela precisou semicerrar os olhos enquanto o observava se aproximando. Ele jogou o cabelo para trás, iam à altura do ombro, e lhe mandou um sorriso.
- Boa noite, meu bem! – sua voz não condizia com sua pose – Desculpe ter feito você esperar, houve um vazamento em casa e eu tive que limpar tudo antes de sair.
Ela deu o sorriso de sempre, sorrir era uma de suas habilidades mais naturais.
- Sem problemas, eu estava tão distraída com as estrelas, que nem notei a hora passando.
- Que bom então. – e lhe deu outro sorriso.
Ele se aproximou e sentou-se num banco em frente a ela. Chloe estranhou o fato dele não a ter beijado como de costume, mas preferiu não dizer nada. Ficaram se olhando por alguns minutos. Ela tentava adivinhar o que ele teria para lhe dizer, ele tentava imaginar sua reação diante do que lhe diria.
- Bem, o que você tinha para me dizer? – ela cansara de esperar – Você parecia nervoso no telefone, cheguei a ficar preocupada que fosse algo ruim.
Ele a olhou de forma mais angustiada, depois desviou o olhar e resolveu encarar os cadarços. Ela não gostava daquela atitude, mas não era motivo para pressioná-lo.
- De certa forma é algo ruim. – sua voz falhava, onde estava a marra do bad boy agora? – Acho que pode abalar muito nossa relação.
O coração de Chloe apertou, ao menos foi assim que ela se sentiu. Ela imaginou, pelo que viu nas estrelas, que algo ruim viria, mas não quis acreditar que tinha mesmo a ver com seu namoro.
- Tem a ver com a Desirée. – por isso ela não esperava – Eu estou realmente dividido, de uma forma que jamais imaginei que aconteceria quando a revisse.
Tampouco Chloe imaginara que fosse isso. Há algumas semanas seu namorado havia comentado sobre o fato de sua ex-namorada ter regressado ao Brasil depois de uma temporada longa e gelada na Inglaterra, haviam se falado via internet, mas não passara disso. Mesmo com o fato de ela ter sido namorada dele por três anos, durante o ensino médio, Chloe não se preocupava nem um pouco com o retorno dela. Tinha plena confiança que seu namorado a amava o bastante para superar qualquer amor do passado, por isso não o aborrecia com ciúmes idiotas (opinião pessoal do narrador e da contadora) que poderiam acarretar no final trágico de seu relacionamento.
Agora que ouvia o que acabara de ser dito, ela já não sabia mais o que pensar ou no que acreditar. Em seu interior queimava uma dúvida, um sentimento totalmente novo para alguém como ela, que sempre acertou em todas as deduções que já fizera.
- Não esperava por isso! Nem sei o que dizer.
- Eu sinto muito, muito mesmo. Mas é assim que me sinto.
Ela voltou a olhar para as estrelas, buscando respostas.
- Bom! Enquanto você está dividido, vai ser melhor ter um tempo só seu, para pensar. – mas não era isso que ela queria de verdade – Eu não posso estar com alguém que não está inteiramente comigo, nunca dará certo!
- Eu imaginei que você diria isso, foi o que eu disse quando você citou essa possibilidade. – ele baixou o olhar e depois se virou de costas – Eu amo você!
- Eu sei disso.
Assim ele se foi. Chloe ainda ficou uma hora sentada ali, estava tentando absorver o que acabara de acontecer. Ela sequer desconfiou do quanto doeria ouvir o que ele tinha para falar, agora sentia um aperto insuportável no peito.

Algum tempo depois houve o carnaval. Essa festividade aqui em Depp City se comemora da mesma forma que se comemorava na sua cidade, se for no Brasil, há cerca de oitenta anos. Digo isso com certeza, pois nesse período não havia as famigeradas micaretas nem desfiles de escolas de samba, apenas os divertidos blocos de rua e os bailes em clubes fechados. Todas as ruas eram enfeitadas com decorações culturais, todas as casas sempre estavam cheias de serpentinas e máscaras. A alegria tomava conta de todos os cidadãos.
Até mesmo os roqueiros de Depp City participavam da festividade, esses tinham seu próprio bloco decorado de preto, branco e vermelho. O bloco, de nome Funeral de Paul, era a desculpa perfeita que os “head bangers” tinham para se divertir popularmente, sem “abandonar o movimento punk”. Era nesse bloco que Chloe estava, na companhia de cinco amigas, pulando e cantando ao som de Problem, da banda Remy Zero, quando avistou seu namorado, depois de sete dias sem contato algum.
Após todos aqueles dias, ela pensou, com certeza já seria seguro conversar com ele. Na cabeça dela esse tempo fora o suficiente para que ele percebesse que ela, e não a ex, era a mulher certa para ele estar. Ela o  avistou e o observou. Ele ainda não a avistara, estava com um grupo de amigos do trabalho, bebiam e cantavam sem reparar nos arredores.
A rua era larga, o bloco dos roqueiros a estava descendo enquanto que algumas pessoas estavam apenas passando por ela, subindo. O grupo do namorado de Chloe aparentemente não estava inserido no Funeral de Paul, apenas estavam “remando contra a maré”, passariam pelo lado das pessoas do bloco sem ao menos esbarrarem com os roqueiros. Ela percebeu isso e se apressou em acenar, fez um movimento com o braço esquerdo e o repetiu até que ele a percebesse.
Ele fez com que o grupo se desviasse um pouco até ela, ela foi até ele. As amigas de Chloe pararam um pouco atrás deles e apenas ficaram observando, já sabiam do caso. Ela estava pronta para ouvi-lo dizer que a amava, quando reparou que os amigos dele continuavam a andar, sem se importar com ela. Ela imaginou que ele os tivesse dispensado e que a acompanharia, no bloco. Porém, para seu horror e total desagrado, ele deu um beijo rápido na sua testa e acenou para as amigas dela. E se foi. Antes que o grupo virasse à esquina, Chloe deu uma última olhada. E lá, os belos cabelos ruivos a balançar ritmicamente, estava Desirée. Eles riam, conversavam, riam outra vez. Nada parecia estar abalando a felicidade daquela turma de amigos.
A rua lhe pareceu deserta. Todos os sons silenciaram. Ela não sentia nada, nada além de nada. Sua mente não conseguiu processar o ocorrido. Seu coração era inexistente, não o sentia bater. Quando desse nada veio a falta de ar. Da falta de ar veio o sufocamento. Era um sufocamento que não a mataria, apenas a impedia de mover-se. A ponta de seus dedos começou a formigar, seus pés queimavam inexplicavelmente. Ao fim dessa sensação incômoda, veio-lhe o suor, frio e terrível, que tomou conta de toda sua pele no exato momento em que ele desapareceu de sua vista.
Ela correu. Sem se importar com quantas pessoas tiveram que pular para o lado para evitarem ser atropeladas, ela correu. Sua bolsa caiu, um de seus sapatos se soltou, ela pisou na barra de sua saia, rasgando-a. Pisou em poças d’água, sujou-se inteira de lama, os cabelos estavam drasticamente desmantelados. Ao virar à esquina ela notou que correra à toa, o ônibus que os levava já estava inalcançável, nada poderia ter sido feito.
E ela bebeu. Chloe usou todos os tipos de droga que lhe surgiram naquela noite, depois do álcool tudo entrava com mais facilidade. Maconha, loló, cocaína, absinto, e outras das quais não me recordo. Naquela noite ela havia esquecido todo o conhecimento e a sabedoria das quais sua avó tanto se orgulhava, ela era apenas uma garota desiludida e amargurada.
Da volta para casa Chloe não me forneceu detalhes, acredito que nem ela mesma sabia como acordou, no outro dia, de pijama e limpa, em sua cama. Sua cabeça doía de ressaca, o gosto de álcool e cigarro ainda assombrava sua boca. Após aprontar-se para sair para a faculdade, dois dias depois, ela foi surpreendida por um toque do seu celular, alguém lhe enviara uma mensagem.


- E o cara-de-pau me mandou uma mensagem hoje de manhã dizendo que me amava. – ela continuou a relatar-me – Me deixou toda desconcertada, porque eu estava com muita raiva dele, mas não poderia ignorar a  declaração.
- Certamente, essas palavras são importantes para as pessoas. – até demais, na verdade – Mas continue!
- Enfim, encontrei com ele no corredor e começamos a conversar. Tentei não discutir, a mensagem ainda me vinha à mente, mas quando toquei no assunto de dois dias atrás, ele desconversou e disse que eu estava fazendo tempestade num copo d’água. – não é uma coisa que se diga a mulher alguma, até eu sei disso – Daí tivemos aquela D.R. que você viu. E foi isso.
- Não consigo imaginar você perdendo o controle. – isso era verdade – Tão centrada, tão zen.
- Até agora me questiono exatamente sobre isso. Digamos que eu parecia estar drogada com aquela situação, antes mesmo de me drogar naquela noite.
Particularmente eu achei a história interessante. É intrigante como a mente humana pode ser um universo de sabedoria e terminar num buraco negro de dúvidas e ilusões por causa de outra pessoa. Como diria uma sabedoria japonesa: As pessoas criam vínculos e conexão apenas com um simples olhar, isso pode alterar todo o seguimento da vida de alguém.
Não sei dizer com certeza como terminou o caso de Chloe com o namorado, infelizmente eu deixei de freqüentar a faculdade a partir do dia posterior àquele. A razão do abandono do curso será explicada no capítulo seguinte, você só precisa saber que fui para casa naquele dia pensando e comparando a história de Chloe com a minha atual situação. Eu precisava tomar um rumo, ou acabaria perdido no meu próprio buraco negro, indefinidamente em solidão e sofrimento.