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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Vestido de Lady DaGradi



Isso aconteceu há três anos, na época em que meu irmão Christopher ainda morava conosco. Nossa família havia decidido mudar de ares, por vários motivos não conseguíamos mais chamar o nº 64 da Rua Earl Grey de lar. Pergunte a qualquer um da família e ele dirá que mudamos devido ao problema de saúde de minha mãe, Elena. Mas eu posso jurar que a verdadeira razão era a loucura em que meu irmão entrou desde que sua namorada fora assassinada (Mais detalhes sobre esse caso no conto “O Breve Relato Sobre A Rua Earl Grey, 64”).
Assumindo o pulmão poluído da minha mãe como real explicação para a mudança, mudamo-nos para o campo. Depois de alguma pesquisa compramos um antigo casarão no meio de Interiores, estado menos habitado de nosso país. Logo que cheguei percebi que minha vida naquele lugar seria um inferno, isso devido ao fato de nossa casa ser um pontinho marrom em meio ao mais vasto campo de plantações que eu já havia visto. Não haveria ninguém com quem falar nem de quem falar. Era um local tão afastado da civilização que tínhamos que percorrer uma hora na caminhonete até a cidadezinha mais próxima, Eddyville. Sem falar do lamaçal, minha roupa ficara absolutamente imunda ao descer do carro, teria que trocá-las assim que chegasse ao meu quarto.
O cheiro de mofo naquele casarão me fazia espirrar, sem falar nas traças corroendo todas as pinturas do século passado que balançavam nas paredes também carcomidas daquela casa horrorosa. Eu me senti como o único que conseguia enxergar que ficar ali seria ainda pior do que respirar o ar da cidade. Meu quarto era grande, mas nem se comparava ao quarto que meu pai tinha em nossa casa anterior, embora ele ainda tenha alardeado o fato do quarto novo dele ser ainda maior.
Corredores gigantes, primeiro andar, vinte quartos, a casa em si era um monstro. Eu precisava andar uns três minutos até o banheiro mais próximo do meu quarto, ao menos eu não teria que escutar mais gritos da minha mãe dizendo que havia esquecido uma das bagagens na casa antiga, porém me fez estremecer ao lembrar-me de minhas necessidades noturnas.
Logo na primeira noite eu me deparei com uma vontade louca de urinar, eram cerca de 02h34min e eu estava correndo corredor abaixo. Na saída do banheiro eu me deparei com algo que eu não reparara antes (porque nem estava lá, como descobri depois): Um quadro em tamanho real de uma bela dama da corte. Eu soube que era uma nobre porque o nome dela brilhava em ouro na moldura: Lady DaGradi.  Uma mulher alta e magra, muito branca de cabelos tão negros quanto é possível algo ser negro. As feições dela eram firmes e delicadas, os olhos eram de um esplendoroso azul mais intenso que o céu diurno, e a boca era escarlate como sangue.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei admirando a obra, mas meu transe foi interrompido por uma batida. Desperto, eu me dirigi à direção do som e me deparei com a janela que dava para a frente, e lá eu a vi. Deitada no chão, imóvel como que morta, jazia minha irmã, Alessandra. Corri para lá e a trouxe para dentro de casa em meus braços, deitei-a no sofá e verifiquei a pulsação. Com certeza ela estava viva, respirando muito lentamente, mas viva.
Logo que me afastei para buscar um copo de água, eu reparei no vestido que ela usava. Eu com certeza conheço cada roupa que minha irmã usa, pois costumo xingar o modo como ela se veste, mas aquele vestido eu nunca havia visto nela. Apesar disso, havia algo de muito familiar nele, mas não me lembrei de nada no momento.
O vestido era longo, ia até o meio das canelas. O azul do vestido rivalizava com um azul que eu havia visto há pouco. Havia vários detalhes em negro, como babados nos pulsos, na barra e na gola elegantíssima. Além desses, uma linha negra descia desde a gola, passando pelo meio do busto, cortando por onde estariam as pernas até o fim, na barra. Tal peça jamais faria parte do arsenal punk de Alessandra, ela já o teria retalhado e desenhado algumas caveiras. Sempre achei que minha irmã fosse uma perdida, embora minha mãe vivesse dizendo que tudo não passava rebeldia de adolescente e que logo ela começaria a se portar como uma mulher descente, eu duvidava friamente.
No outro dia, Alessandra não soube explicar como fora parar do lado de fora. Ela confessou ter experimentado o vestido, mas disse que caíra no sono logo em seguida.
- E pare de insistir nessa história, Raimundo, ou conto ao papai sobre o seu caso com Jeremy Nicholson. – ela sempre vinha com essa, maldita fedelha – Não vai querer ser a segunda fruta podre da família, não é?  Já não basta o Christopher louco, se descobrem que você é um via..
Corri e pus a mão na boca dela, ela não fez força para se libertar. Deu um sorriso malicioso e saiu de perto de mim. Eu estava com um ódio destrutivo naquele momento, por isso resolvi não me mover até que passasse. Passei meio dia sentado naquele sofá, pensando em porque Alessandra teria saído e porque estava tão decidida a negar o fato. O dia se foi rápido, parece que passei o resto do dia em transe ou dormi.
Á noite eu resolvi voltar ao meu quarto, subi as escadas e dei de cara com o corredor gigantesco. Em pé, diante de mim, estava minha mãe. Assustei-me imediatamente, pois, minha querida mãe, Elena, estava vestindo o vestido azul que minha irmã usara na noite anterior. Se não era o mesmo, era idêntico. O mais estranho foi o olhar dela, focava o infinito como que observava o vento parado.
- Mãe? – indaguei, mas não tive coragem de dar mais um passo sequer – O que é isso? Nunca vi você usando esse vestido!
Não obtive respostas. Minha mãe andou, passou por mim e desceu as escadas, apenas movendo as pernas. Virei a cabeça e a acompanhei com os olhos, ela chegou até a sala e abriu a porta para a rua. De súbito ela girou a cabeça, apenas a cabeça, e me lançou um olhar de baixo para cima. Senti o corpo gelar, mal consegui me mover. Afastei-me da escada, bloqueando a visão da porta, e depois me sentei no chão.
Quando o susto passou, levantei-me e corri lá para baixo. De novo dei de cara com o retrato e tive um susto maior ainda. Diferente da noite anterior, Lady DaGradi estava absolutamente sem roupas. O corpo nu dela apenas ostentava um belo colar de pérolas e nada mais. Foi então que algo me veio à mente, noite passada eu achei ter visto o vestido azul que Alessandra usava em algum outro lugar, agora eu havia me tocado de que era justo esse que a figura no quadro deveria estar usando.
“Mãe de Deus!”
O pior de tudo foi perceber que a expressão no rosto da pintura havia mudado bruscamente. O que antes era um rosto firme de seriedade, agora era um sorriso malicioso e delineado, algo que me fez lembrar alguém que chantageia. A figura estava muito diferente da anterior, e agora eu desconfiava horrorizado que as coisas estavam conectadas. Caí para trás e me deitei num divã da sala, ainda compenetrado pela pintura, quando ouvi uma batida oca.
Certo de que era a mesma batida de antes, corri para a janela. Lá estava minha mãe, deitada na relva, exatamente onde Alessandra tinha estado. Fui para fora intencionando trazê-la para dentro, ainda que o medo me percorresse. Não podia deixar minha mãe naquele estado, o que as pessoas iriam falar? Então andei em direção a ela calmamente, temia que ela virasse o pescoço novamente e me pregasse outro susto. Pulei para trás, pois algo ainda mais estranho aconteceu.
O vento veio com força, folhas voaram para todos os lados. Lentamente o corpo da minha mãe se moveu, na mesma direção das folhas, como que embalado pelo vento. Foi a visão mais assustadora da minha vida, até aquele momento. Ela subia, aos poucos e dançando com as folhas, ela subia. Os braços moviam-se aleatoriamente como que feitos de pano, assim também iam as pernas*. Quando estava a minha altura, a de um homem de vinte anos, ela que voava deitada, mudou de posição para vertical.
Minha mãe me olhou com o já conhecido olhar de desgosto, sempre me lançava esse olhar quando eu fazia algo de errado. Ela tinha um jeito muito estranho de me castigar, eu sempre me sentia mal com esse olhar. Seus pés tocaram o chão e ela caminhou perante mim. Dei uma olhada rápida para o vestido, mas fui interrompido por sua voz.
- Você não está à altura dele, Raimundo! – ela disse rispidamente – Não seja uma vergonha para seus pais e irmãos!
- E o que você sabe sobre isso? – mal reparei que começara a gritar – Você nunca conseguiu me entender, sempre esteve tão cega pelo Chris que nunca reparou nos meus problemas! – não eram palavras falsas, mas nunca as diria se pudesse ter evitado.
- Sua vaidade desmedida é a mancha sangrenta em sua alma corrompida!
Ela desmaiou logo em seguida. O vento reiniciou, ouvi passos que corriam em minha direção. Ao virar-me deparei-me com Alessandra, nua e demoniacamente maquiada. Ela lançou outra vez aquele sorriso e se aproximou.
- Isso é o que você sempre quis, não é? – a voz dela vinha de dentro, seus lábios não se moveram – Sempre escondeu de todos, mas não poderia nunca esconder de mim, seus desejos!
Aquela não era a voz da minha irmã, eu percebi poucos segundos depois. Por trás dela surgiu outra mulher, era ela quem falava. Lady DaGradi se aproximou de mim. Usava o vestido azul, nela ele era infinitamente mais bonito. Logo notei que minha mãe já não usava o vestido, ela estava jogada sem roupa alguma no chão, toda suja de terra.
- Seria essa a razão de você ter invadido o meu quarto e vestido minha roupa? – com certeza era ela falando, não havia mais dúvida alguma disso – Você acaso achou que se compararia à beleza feminina se usasse essa peça maravilhosa?
- Eu não... do que você está falando? – o nervosismo tomou conta dos meus atos, não pude me conter.
Pulei para cima dela e a soquei. Bati nela com tanta força que senti meu punho doer. Ela já não estava mais lá, só havia eu, minha mãe e Alessandra. Minha irmã caiu também desmaiada, e eu tive que carregar as duas para dentro de casa. Pu-las nos sofás e corri a chamar meu pai.
Enquanto subia as escadas gritando, lembrei-me do dia anterior, em que cheguei a essa casa do inferno. Lembrei dos quadros, do cheiro de mofo, de mim entrando no que seria meu quarto, de achá-lo muito pequeno e de...
Parei de correr, lembrei-me do lamaçal. Minha roupa estava imunda, eu tinha que trocá-la. Mas por mais que eu tentasse, não consegui encontrar minha mala em lugar algum.
“Mãe de Deus, a bagagem esquecida!”
Não havia roupa extra para mim, minha mãe esquecera-se de minha mala na nossa antiga casa. Então o que eu havia vestido, afinal? Olhei de relance para meu corpo, embora eu já soubesse o que veria. O vestido brilhava em mim, como uma estrela brilha em meio ao céu sombrio. Mal pude acreditar na revelação que me fora dada, o vestido havia estado em mim o tempo todo.
Na noite anterior, quando chegamos ao casarão, eu havia subido ao meu quarto e me deparado com um baú de roupas. Aparentemente esse era o quarto de alguém nobre, pois a decoração, embora velha, era luxuosa. Como estava cego de raiva por minha mãe não ter trago minhas roupas e por eu estar todo sujo de lama, tudo que pude notar foi que o quarto era menor do que o que meu pai tinha em nossa mansão anterior. Atendendo a minha curiosidade sem limites, abri o baú e olhei todas as roupas que havia dentro. Experimentei os vestidos de um por um, sempre gostei de usar roupas femininas quando estava só. Quando pus o vestido azul de Lady DaGradi, senti uma atração tão poderosa por ele, que resolvi dormir usando-o.
Parei de correr, tudo estava excepcionalmente claro. Não havia sentido em chamar meu pai aqui, pois ele nunca conseguiria chegar. Entrei no meu quarto, lá estava eu, dormindo. Aproximei-me e vi que quem dormia não era eu. A dona do vestido azul levantou-se e me encarou friamente, o olhar de desgosto da minha mãe. Ela estava sem roupas e olhava atentamente de mim para o vestido.
- Então? – perguntou ela sinceramente – Irá devolvê-lo a mim?
Minha vontade inicial era tirar aquele maldito vestido e jogá-lo nela, mas logo percebi que não conseguiria fazê-lo. Eu o queria, eu o amava. Nunca havia me sentido tão certo de uma coisa como eu estava naquele momento, aquele vestido era parte de mim, ele me fazia mais... mulher.
- Não! – gritei para Lady DaGradi – Ele é meu, eu o achei! Você nem deveria estar aqui, suma de uma vez!
O olhar que ela me dera, fora de total bondade.
- Esse vestido me pertence, não posso simplesmente deixá-lo aqui! – ela falou calmamente – Foi um presente do meu marido, é muito especial para mim.
- Não me importo! – falei debochadamente – Você está morta, sabia? Por que não descansa em paz e me deixa na mesma?
Lady DaGradi me olhou de soslaio. Novamente vi em seu rosto a expressão dura e séria que vi, ou sonhei ter visto, no quadro da sala. Ela se afastou de mim lentamente, não caminhando. Virou-se de costas e flutuou até o espelho, chegando a ele, penetrou.
A última coisa que ouvi naquele dia, antes de acordar daquele sonho medonho, foi a voz fria da Lady, dizendo-me que jamais abandonaria o vestido azul e que estaria comigo sempre que eu o usasse. Queria poder dizer que nunca mais o usei, mas todas as noites, antes de dormir, eu ainda ponho meu, sim “meu”, deslumbrante vestido azul de festa, e fico a me olhar no espelho. Admiro-me até que meu reflexo se torne “ela”, então não suporto mais e o dispo.

Raimundo D. Pereira

* Ver videoclipe “Vermillion Pt. 2” – Slipknot