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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Signo Vermelho - Parte 02



            Então, estávamos diante de uma taberna. Toda feita de madeira entalhada a mão, não tinha um estilo arquitetônico específico, tinha dois andares com janelas e todas voltadas à rua. Atrás de nós, o povoado parecia adormecido, nada se movia além do vento e de um cachorro negro que passeava alegremente pela rua, enquanto abanava seu rabo freneticamente. Com certeza, todas as pessoas estavam reunidas dentro dessa taberna, esperando pelo resultado da dizimação.
            Héctor não esperou pelo meu sinal para entrar, nunca esperava, na verdade, ele pulou na minha frente e empurrou a porta tão rápido quanto uma japonesa que abre um leque. Tendo em vista que já não havia necessidade de discrição total, adiantei-me e adentrei logo atrás do meu apressado amigo. Dentro da taberna, fez-se um silêncio mortal no exato instante em que entramos, exceto pela música, que vinha de uma vitrola velha, não havia sequer ruído que detivesse a atenção daquelas várias pessoas que nos observavam com os olhos esbugalhados.
            As mesas estavam repletas de cerveja e alguma carne, umas quinze ou dezesseis mesinhas de quatro cadeiras, todas da mesma madeira de que era feita toda a taverna, estavam espalhadas por todo o salão e não havia cadeira desocupada. O cheiro de cigarro e álcool incomodava-me muito, parecia que não havia mais ar respirável naquele ambiente. Ao fundo, o balcão era ocupado por mais algumas pessoas, umas sete que sentavam em banquinhos presos ao chão. O barman segurava um copo com a mão direita e um pano com a outra, aparentemente estava limpando-o antes da entrada súbita de Héctor.
            Logo o silêncio de desfez, um grito de triunfo veio do canto da sala, seguido de várias de vivas e de um turbilhão de aplausos. Todos aqueles rostos demonstrando uma extrema felicidade, alguns alívio, por verem que, finalmente, estavam livres dos loucos bebedores de sangue. Eles ficaram de pé, todos eles, e vieram agradecer-nos. Um a um, apertando nossas mãos e dando tapas em nossas costas. Eu, como sempre, nunca me empolgo com essas coisas, mas Héctor estava num total deleite com toda aquela atenção. A nós, foi servido um grande banquete. Óbvio que Héctor usaria essa oportunidade para ludibriar alguma donzela e conduzi-la ao seu beijo de morte, mas eu estava mais interessado era no enorme peru assado que reluzia em cima da bela mesa principal.
            Após o banquete, Héctor já havia saído com uma ruiva e uma loura, em direção ao quarto dos fundos. Muita irresponsabilidade por parte dele, logo seriamos nós quem haveriam de caçar. Todos estavam aproveitando a festa, dançavam e cantavam com muita alegria, uma música ritmada por instrumentos de corda. Permaneci sentado, o rosto apoiado no braço, cotovelos sobre a mesa. Pensava na próxima caçada e no quanto estava ansioso por ter mais sangue de vampiro em minhas mãos. Então, reparei em algo que, digo com muita vergonha, devia ter notado assim que entrei: uma pessoa não viera falar conosco.
            Encapuzado, no canto do salão, estava uma figura que em nada combinava com o estereótipo da cidade. Ele se pôs de pé, parecia ter minha altura, veio finalmente em minha direção. Pareceu-me que decidira vir no momento que soube que eu o notara. Quando estava do meu lado, eu pude ver que ele também usava um cinto com ferramentas, assim como o meu. Delicadamente, ele puxou para si uma cadeira e descansou ao meu lado. Lentamente, ele puxou o capuz, revelando um rosto jovial de alguém que não parecia ter mais do que dezessete anos, belos olhos azuis, um nariz reto e de tamanho médio, lábios finos contorcidos num sorriso de escárnio.
            - Então, a desgraça em forma de caçador caiu por sobre a família dos Malkans? – sua voz era calma e sarcástica – Realmente, quando soube que alguém viera antes de mim, pensei que fosse você. Ninguém em sã consciência enfrentaria um clã inteiro de vampiros, sem ao menos estudar suas peculiaridades, mas uma vez que você não tem fama de ser são. –
            - Ora, não teria minha fama se não agisse de tal forma, seria apenas um ninguém, como este com quem falo. – as muitas discussões com Héctor me transformaram num sarcástico inigualável. - E quem seria você, jovenzinho que insolentemente demonstra saber algo sobre mim?
            Ele não respondeu. No lugar disso, puxou um papel de dentro das vestes, um rolinho preso por uma fita vermelha, abriu e mostrou se conteúdo.
            - O selo da Ordem Vermelha? – indaguei eu a observar o brasão da antiga família dos Ruvinos – Mandam X-Hunters à povoados que em nada interessam ao rei, agora? Achei que vocês só servissem para o extermínio de vampiros que se atrevessem a ultrapassar as muralhas das cidades principais. –  
            - Ora, os Malkans eram uma família importante em Lumière Rouge, toda a organização de vampiros da cidade costumava ser liderada por um deles. – Ele parecia estar se divertindo ao falar. – Em todo caso, eu pretendia exterminar os últimos detentores daquelas habilidades demoníacas, não queremos uma proliferação de loucos em nosso reino.
            Óbvio, evitar a demência causada pelos Malkans seria a desculpa perfeita para se iniciar uma caçada extraterritorial. Logo que compreendi que o dedo do Têterouge estava por trás do meu risonho companheiro de conversa, quis encerrar nosso contato imediatamente. Porém, ao ver que estava prestes a me levantar, ele se adiantou a minha frente, agora com uma expressão de seriedade em seu semblante.
            - Espere! Não pense que vim até você apenas para puxar essa conversa idiota. – de maneira alguma eu tinha pensado isso, mas deixei que ele prosseguisse. – Se você é mesmo Lucas de Ishtar, preciso lhe falar de algo que muito irá interessar-lhe. - Seu sorriso reapareceu no canto de sua boca fina, enquanto recitava essas palavras que, provavelmente, tiveram o intuito de me deixar interessado. Falharam terrivelmente.
            - Ora! Não estou interessado nos assuntos oficiais da ilha! – tentei ser o mais claro e educado possível – Se me permite, tenho que buscar meu companheiro de viagem. Precisamos partir de Île Rouge em direção ao Brasil. – cada vez mais me encanto com o fato de meu amigo instruído estar certo sobre palavras bem colocadas. – Temos uma matilha de lobisomens que precisa ser exterminada com certa urgência.
            Agora ele me observava impaciente, olhava de um lado para outro como se esperasse que alguém estivesse nos observando.
            - Se me acompanhar até lá fora, posso contar-lhe sobre Lê Roche Rouge. – espantado com o fato de um X-Hunter pronunciar tais palavras em um local público, não tive o mínimo de ações em mente. Ele me conduziu até a soleira, depois saímos e ficamos a meio-metro da entrada.
            Mal havia observado o quanto a lua brilhava, cheia e limpa. Lembrei daqueles dias, às margens do Sena, quando ainda era jovem demais para caçar e velho demais para perder meu tempo com as brincadeiras inúteis dos jovens de Paris. 
            - Desculpe, nem ao menos me apresentei. – começou ele. – Sou Natan Orgueil, primeira lança esquerda dos X-Hunters de nosso senhor Lê Mount, Têterouge de Île Rouge. – estava acostumado com aquela falação, sempre que encontrava um serviçal do Têterouge, o dito cujo fazia questão de pronunciar sua posição exata na lista de idiotas vermelhos. – Agora que parou para me ouvir, Lucas de Ishtar, devo falar-lhe sobre os idiotas que plan... – um som infernal veio de dentro da taberna. Meu impulso inicial foi o de invadir e verificar. Porém, senti um soco imenso e poderoso atirar a mim e a meu companheiro de diálogo em direção à rua.
            Gritos vieram e se foram na mesma velocidade, vindos do salão e logo toda a taberna estava em chamas. No momento em que tentei me levantar, senti um peso gigantesco sob minhas costas. No último instante, vi que as chamas aumentaram monstruosamente, labaredas que vinham de todas a partes do prédio. O calor começou a incomodar muito, e logo minha vista começou e embaçar. Enquanto perdia a visão do incêndio, algo apareceu diante de meus olhos e me ergueu.
            Nos braços de minha mãe, fui embalado com minha antiga canção de ninar!