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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sígno Vermelho - Parte 01



            Eu não sabia mais o que fazer com aquelas cabeças.  Todo aquele cheiro de sangue pairando no ar ao meu redor, estava difícil de pensar. Quinze, dezesseis, não sei ao certo quantas eram, mas todas pareciam olhar para mim de onde estavam. Os corpos estavam revirados pelo chão, mutilados e sem condições de identificação. Viam-se estômagos e intestinos entrelaçando-se, através dos rasgões na carne. As cabeças, essas estavam enfileiradas no chão, um velho hábito que torna o ambiente no mínimo excêntrico.
            Outros como eu já passaram por essa fase, mas acredito que ninguém tenha conseguido arrancar sete de uma vez só. O movimento perpendicular do braço em relação à cabeça é essencial para um corte perfeito. Aquela região estava pedindo pela minha chegada há muitas décadas, nem as lamúrias de Héctor me impediriam de ir até lá. Ah, sim. Héctor estava comigo desde o incidente em São Petersburgo, maldita cidade, ele jamais andaria sozinho depois daquilo.
            Cansado de pensar, eu resolvi que queimaria todos os corpos e empilharia as cabeças em crucifixos feitos por mim com os galhos das árvores próximas. Sempre me doía fazer esse tipo de coisas, entenda que eu sou um amante da natureza, mas aqueles vampiros mereciam que ao menos suas cabeças fosse santificadas.
            Saltei de onde estava e pousei de fronte a um lindo carvalho, uma maldade sem tamanho, mas os galhos era perfeitos para o planejado.
            - Peço por seu perdão, lindo carvalho, deixe-me usá-lo como ferramenta para o descanso eterno desses demônios. – com um movimento rápido eu arranquei todos os galhos da arvore, subindo com pequenos saltos para alcançar os mais altos. Empilhei-os na grama, umedecida pela chuva, e comecei a buscar as cabeças uma a uma. Todos aqueles sorrisos belos, lunáticos e cruéis, mas muito belos, provas do humor inalterável daquela família de vampiros. Mesmo durante a batalha, eles jamais deixavam de lado sua característica mais marcante.
            Héctor aproximou-se de mim logo que eu terminara o trabalho, o hábito dele manter o capuz sobre a cabeça até quando não havia inimigos por perto muito me incomodava. Veio se esgueirando por entre as cruzes, olhando horrorizado para os olhos que saltavam das órbitas. Nunca fora dessas atrocidades, meu bom amigo, deixavam-no nauseado,
            - Lucas, agora que já encerrou esse seu vício imundo, vamos ao povoado. – a respiração estava falhando, a falta de alimento já causava abstinência – Quero uma branquinha, e quero logo. Esses malditos loucos esgotaram-me as forças.
            - Ah, foi? A mim parece cômico você dizer isso, meu bom parceiro, mas não tenho recordações de você participando dessa luta. Acaso usou alguma técnica mental nova que estar a esconder? – um olhar penetrante em companhia de um sorrisinho de sarcasmo era o suficiente para silenciar meu caro Héctor nessas horas.
            - Você é um patife sem coração, Lorde Lucas, espero sinceramente que tenha uma indigestão depois desse banquete. – costumava fazer isso quando queria demonstrar incômodo com minha pessoa, chamar-me pelo título da corte romena. – Enfim, por certo notei que você estava com demasiada fome de violência, então usei toda minha energia para manter o controle e não ajudar. – cínico.
            Em matéria de discussões eu não passava de um amador comparado a esse maldito que balançava em minha frente, então nem repliquei essa hipocrisia.
            Pus-me de pé e dei uma olhada final para o cenário, estava como de costume, um caos no meio da bela natureza. Andei de volta ao carvalho, minha túnica estava jogada aos seus pés, senti-me um lixo pelo estado deplorável em que deixei a magnífica árvore. Então decidi que não poderia partir sem antes fazer algo a respeito, uma vez que meus valores éticos não incluíam o abandono de um carvalho secular totalmente depredado, ainda mais sendo eu o culpado por tal crime.
            - Héctor, traga-me sua bolsa! Preciso daquele vidro. – estendi meu braço humano em sua direção, ele ainda não se acostumara com o outro, e movimentei rapidamente os dedos. – rápido, indolente, não vamos sem resolver isso.
            Não foram palavras caridosas as que eu ouvi sair de sua venenosa boca, mas não há porque ditar tais pragas. Ele trouxe a bolsa e a abriu antes que eu pedisse, eu pediria de qualquer forma. Estava ali, o vidrinho que devolveria os braços do belo carvalho. Brilhando, o líquido dourado que enchia o pequeno frasco borbulhava loucamente, como se sentisse que era hora de ser usado.
            Sem delongas, destampei o vidrinho que, de tão pequeno, cabia na palma de minha mão, e derramei três gotas de seu conteúdo nas raízes da grande árvore. As gotinhas foram lentamente sendo atraídas para dentro, observá-las penetrar a raiz da árvore era nostálgico.
            Subitamente o chão começo a vibrar muito suave. Ouvi o som característico vindo de dentro do carvalho, a música maravilhosa que parecia ser entoada por anjos. Meu corpo todo começou a vibrar também, e logo a música estava também dentro de mim. Lentamente os galhos arrancados começaram a crescer, deles brotavam folhas quase que imediatamente. Todo o gramado danificado durante a batalha reapareceu mais verde do que poderia estar, e todo o sangue seco se liquefez.
            - Você não acha que eles possam voltar à vida, acha? – Héctor olhou assustado para as cabeças crucificadas. – Quer dizer, eu já vi essa coisa levantar defuntos uma vez, por que não poderia acontecer aqui?
            - Simples, lembre que essas pessoas já não estavam mais vivas. Esse composto não funciona com vampiros totalmente mortos. –
            Quando o espetáculo se deu por  encerrado, eu tampei o vidro e o dei para que Héctor pudesse guardá-lo.
            Saímos dali sem mais demora, Héctor estava quase bebendo o ar de tanta fome, corremos como o vento para chegar até o povoado, na certa receberíamos tratamento de honra por ter livrado-os da praga que dizimara metade da população. Não que me importasse com recompensas, faço o que faço por prazer, mas não estava inclinado a gastar meu suado dinheiro com bebidas para Héctor poder usar contra alguma donzela azarada.
            Estávamos de frente ao povoado, até ali o cheiro de morte nos seguira.