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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Breve Relato Sobre A Rua Earl Grey, 64

 Aviso aos fracos de coração e aos puritanos que em meu relato há cenas de violência sexual e mutilação corporal. Aconselho que, caso você vá criticar-me pelo que foi feito, você nem sequer leia esse ocorrido. Não que eu considere isso como algo grandioso, mas aquela noite no número 64 da Rua Earl Grey marcou minha vida.
Sentado à beira do muro eu pude ouvir com clareza o grito da Sra. Motta. Era uma noite de céu estrelado, o clima estava bom para namorar. Gabriela me apertou forte ao ouvir o barulho de vidro sendo estilhaçado, eu estava adorando todo aquele clima de suspense. Logo tive que descer, do contrário Gaby me derrubaria. Apertei-a com mais força e depois a trouxe para perto da minha boca.
- Relaxe, minha pequena, é só a Coroa do Chá tirando o atraso. – eu cochichei com a voz mais doce que consegui dissimular – A dona Berga Motta está recebendo um visitante hoje, provavelmente ela já deve estar sem roupa e tudo o mais.
- Será que nada nesse mundo consegue abalar você? – ela indagou se afastando um pouco – Impressionante a sua habilidade de relacionar tudo ao sexo.
Esse era o tipo de conversa que nos levava sempre ao meu quarto, por isso resolvi dar corda.
- Meu amor, é você que me deixa nesse estado de emoção. – falei com a voz baixa, usando um tom mais malicioso. – Como eu posso pensar em outra coisa tendo você aqui, nessa posição.
Ela fez uma careta e se afastou mais ainda de mim, o jogo seguia sempre as mesmas regras, afinal. Aproximei-me com minha “mão boba”.
- Olha só – sussurrei trazendo-a para mais perto – Acaso eu preciso lembrar-la o tempo todo de que o brilho do sol não passa de uma mísera fagulha prestes a se apagar, se o comparo ao fogo do meu amor por você?
Ela me deu o já conhecido olhar de lado, depois me deu um soco no braço.
- Seu conquistador barato! – ela disse sorrindo – Acha que pode me levar no bico só com essas palavrinhas mixurucas? – e me beijou.
Outro grito vindo da casa, dessa vez singularmente pavoroso. Atendendo ao pedido de Gaby, disquei o número da polícia. Uma viatura chegou em menos de dez minutos, e em menos de dez minutos soubemos do ocorrido. Aparentemente o acompanhante da Coroa do Chá excedera o limite etílico e quebrara algumas garrafas de vodka na cabeça dela.
- Parece que a Sra. Motta pegou o namorado com outra, o pessoal do bar estava comentando sobre a confusão que ela fez lá quando viu os dois “se pegando”. – foi o comentário que Raimundo, meu irmão, fez questão de declarar para mim e para Gabriela. – O cara a mandou para casa e quando chegou lá... foi o fim da Coroa do Chá.
Foi o assunto principal da conversas por algum tempo. Uma semana depois, numa fria madrugada, eu me encontrava sentado no telhado da minha casa, fumando. Era o que costumava fazer quando tinha insônia, o que acontecia sempre na madrugada que precedia meus encontros com Gabriela. Estávamos juntos há pouco mais de três meses e eu ainda ficava todo ansioso antes de encontrá-la. Posso dizer sem a menor vergonha que eu estava desesperadamente apaixonado por ela.
Minha rua era típica dos subúrbios de classe média alta, silenciosa durante toda a madrugada, eu era a única alma a observar os movimentos, ao menos seria caso houvesse algum. Foi quando de repente um vulto negro veio em minha direção, derrubando-me de volta à minha varanda. Tratava-se do Dr. Negrus, gato de estimação da vizinha, dona Motta, que na certa se sentia carente, uma vez que não havia mais ninguém naquela casa para mimá-lo.
- Ai, bichano! – realmente não foi uma queda confortável – Sei que a solidão é trágica, mas não lhe basta uma morte por mês nessa rua? – e peguei o gato no colo.
O bicho escapou de meus braços e escapuliu para dentro do meu quarto. Antes que eu pudesse sequer pensar no que fazer com ele, o gato abocanhou meu Rolex e fugiu correndo por debaixo das minhas pernas.
- Gato ladrão? – indaguei coçando a cabeça.
Pude ver o animal correndo para dentro da casa vizinha e na hora me bateu o receio. Aquele relógio era herança de família, eu não podia apenas deixá-lo de lado. Sendo assim subi de volta ao telhado e me esgueirei até o da casa onde o gato havia entrado.
“Espero que o telhado da morta aguente”
Com alguma habilidade adquirida nos anos de molecagem em cima da minha própria casa, eu me joguei para a varanda da casa no movimento rápido e preciso, sem fazer muito barulho.
“Olha só! Sou quase um Príncipe da Pérsia.”
Por sorte a casa da dona Berga Motta ainda estava vazia, não existe muita gente que deseje morar numa casa onde houve um assassinato. Arrombei a porta muito delicadamente, não tinha intenção de acordar a vizinhança, e entrei pela sala de estar.
Na rápida olhadela que eu dera antes de entrar na casa, pude ver que todas as mobílias estavam cobertas com os panos brancos habituais em casas nessas condições. Agora tente imaginar minha reação ao dar de cara com uma decoração totalmente diferente, sem falar nos inúmeros móveis de luxo dispostos de maneira absolutamente desigual ao que vi através do vidro.
Daqui meu coração quase que escapa pela boca: Um homem de terno entrou acompanhado de uma bela dama, rodopiando ao som de uma música clássica melodiosa. Minhas tentativas de explicar-me foram em vão, descobri logo, pois aparentemente aqueles dois não podiam me ver nem ouvir. Então um homem entrou derrubando a porta, veio para cima deles e começou a gritar. Ao menos eu supus que estivesse gritando, pois logo percebi que eu nada ouvia além da música. Sem pestanejar a mulher puxou um revolver de dentro da bolsa e meteu uma bala bem no meio da testa dele.
A cena se desfez logo em seguida, dando lugar a uma nova decoração. O estilo tornou-se mais renascentista e havia um belo carpete avermelhado por toda a sala. Num divã, a menos de dois metros de onde eu estava, um casal transava loucamente. Não pude deixar de assustar-me com tal coisa, afinal surgiram do nada e gemiam alto. De súbito a mesma porta foi escancarada, dessa vez uma jovem aparentando uns vinte anos de idade entrou. Lágrimas desceram pelo rosto dela, isso me tocou. Nesse momento percebi que se sucedia, eu estava vendo ecos, aparentemente uma sucessão de adultérios. O homem, o traidor, levantou-se e começou a gritar e gesticular, mandando a moça sair. A moça correu para cima dele e deu-lhe vários murros, como esmurram as mulheres quando choram. Uma briga rápida fez com que a pobre coitada traída caísse da sacada e morresse lá embaixo.
Eu já não estava mais tão apavorado quanto inicialmente, tenho o incrível dom de superar esse tipo de choque. Sorte minha, porque logo que constatei a morte da moça, a cena mudou outra vez. Dessa vez era a decoração de que eu me lembrava, só que os móveis estavam descobertos e ainda a música tocava. Dona Berga Motta entrou chorando e jogo-se no sofá. Os contornos dos olhos estavam inchados e vermelhos e o rosto todo borrado de maquiagem e lágrimas. A música então se tornou mais rápida e agressiva, aparentemente era uma sonata tocada no piano por Beethoven. A porta então se escancarou e o namorado da Coroa do Chá entrou na sala.
Houve gritos de ambas as partes, ela lhe apontava o dedo e abria os olhos ameaçadoramente. Ele andava de um lado para o outro, aparentava ainda estar muito fora de si devido ao álcool ou a alguma droga. Ele se sentou e ligou o aparelho de TV, pôs as pernas num pufe e deitou a cabeça. A Sra. Motta, depois de um grito tresloucado, buscou um vaso próximo e o quebrou decididamente na cabeça dele, fazendo que muito sangue jorrasse e ele se levantasse assustado. O sujeito ficou enlouquecido, pude ver em seus olhos que aquilo ultrapassara todos os limites conhecidos pela aquela careca ensanguentada.
O homem avançou para cima dela num pulo e enfiou a mão dentro da boca da mulher. Ela contorceu-se tentando livrar-se do ataque, mas o adúltero enfiou mais ainda o braço, até o cotovelo. A Sra. Motta logo parou de contorcer-se, o homem retirou o braço e trazia na mão alguma coisa mole e muito cheia de sangue. Aparentemente ele a rasgou toda por dentro, pois aquele não era outro senão o coração da Coroa do Chá. A dona havia sido morta de uma forma mais letal do que algumas garrafadas.
Logo tudo desapareceu, voltaram os móveis encobertos pelos lençóis brancos. A poeira estava como deveria estar, numa casa abandonada há sete dias, minha alergia estava prestes a presentear-me com uma crise de espirros. Eu não pude me mexer, algo ainda estava acontecendo naquela sala e não demorou muito para que eu percebesse. No princípio julguei ser apenas mais um eco, mas então reparei nos personagens.
Havia Gregory Motta, filho da antiga dona dessa casa que há muito se mudara para uma cidade do interior do país devido à faculdade. A outra ocupante era alguém que eu conhecia muito bem, embora eu não conseguisse aceitar o fato dela estar ali se agarrando com Gregory ao invés de dormindo, como havia me dito que estaria. No princípio abateu-se sobre mim uma tristeza e um vazio, mas o tempo era curto demais para se pensar nesses sentimentos. Como se o rio que alimenta uma bela cachoeira simplesmente secasse, extinguiu-se ali toda a felicidade que em mim havia crescido nos últimos três meses.
Superado o choque da inescrupulosa traição, restava-me agir antes que fosse tarde demais. Os amaldiçoados notaram a minha presença, levantaram-se de um pulo do sofá onde executavam as “preliminares” e me olharam com um ar de espanto. Antes que eles pudessem dizer palavra eu puxei um atiçador de lareiras que repousava encostado numa mesa e o enfiei no meio do rosto de Gregory Motta, este já não me incomodaria mais. O corpo dele caiu com um baque surdo, ela gritou horrorizada.
- Não posso permitir que isso continue! – gritei.
- Você está louco! – como ela se atrevia?
Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa que acabasse me levando a tornar-me também um eco, pulei em cima dela e a derrubei no chão. Sem armas tudo o que me restava era meus membros, então rasguei a saia dela e arranquei-lhe a calcinha. A desgraçada estava usando a lingerie que eu lhe dera de presente, vermelho-sangue e com rendas diversas. A ira subiu-me a mente como que fervesse, então lhe segurei as pernas e as abri. Estando ela numa posição adequada, meti-lhe o pé esquerdo dentro do sexo e enfiei com toda minha força a perna lá dentro, sentindo o sangue lamber-me a pele.
Ela morreu cerca de dez segundo depois de eu não conseguir penetrar mais fundo com minha perna, agonizou muito durante o processo. Enfim estava morta, e com ela a possibilidade da minha morte nessa casa amaldiçoada. Carreguei os corpos até o porão da casa e lá os deixei sob a terra. Limpei minhas digitais do atiçador e joguei a saia na lareira, eliminando assim qualquer prova que houvesse contra mim. Depois tratei de recuperar meu relógio com o Dr. Negrus, seria uma perda inestimável abandonar essa peça caríssima nesse lugar abandonado. Sem falar que isso seria uma bela assinatura de assassino.
Talvez eu acabe sendo pego durante as investigações, sempre acontece nos seriados como CSI ou Cold Case, o namorado sempre é o principal suspeito. Mas posso agora dormir sossegado, sabendo que todas as pessoas mortas naquela casa foram vingadas por um traído, assim como elas. O lado ruim é ver, todas as noites, o baleado, a moça caída e a Sra. Berga Motta, agradecendo-me fervorosamente, toda vez que me olho no espelho.

Christopher D. Pereira

FIM!

2 comentários:

  1. Nossa, amei mesmo esse conto!
    Adoro ver um sanguezinho alheio *o*(sanguezinho?), e sem falar que combinou perfeitamente com o tema do adultério.
    Espero por mais contos recheados de sangue e mutilação, me fascinam bastante! [/psicopatamodemON]

    Kisus ;**

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  2. Realmente Esse Foi Mais Pesado, Mas Mesmo Assim Foi Muito Bem Escrito!
    Você Deveria Ler Os Contos De Edgar Allan Poe!

    Oh My Love, Estou Sem Palavras ^^

    Amo Vc

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