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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Conto Da Macieira Chorosa



Não sei o que me deu coragem para contar essa história depois de todos esses anos, mas estou aqui pronto para abrir meu coração para a tela do computador. Realmente não espero que minha imagem de homem sadio e bem sucedido depois que lerem isso, mas não consigo mais guardar isso sozinho. Só peço que depois que ler esse texto, você guarde algo em seu ser e passe a ver o mundo com outros olhos.
Eu tinha apenas 19 anos naquela época, era um momento de transição que mexia muito com meu emocional e meu racional. Tudo que passava pela minha cabeça era a necessidade de independência e dinheiro, sendo que a segunda me levaria à primeira. Então em uma bela manhã de outono eu estava correndo em direção à Agência de Trabalho da minha cidade, sem olhar nada que se passasse ao meu redor e sem me importar com o que ficasse para trás.
No momento em que eu tropecei e cai de bruços no acostamento, eu soube que precisava para um pouco. O motivo da pressa era a fila, sempre a maldita fila, pois nós nunca somos os únicos a querer alcançar nossos objetivos e sempre parece ter muita gente querendo o mesmo que nós. Ao me levantar e me recompor, resolvi olhar em que eu havia tropeçado. Não que houvesse razão maior do que recolher meus documentos caídos, mas decidi saber o que havia feito com que eu ralasse o cotovelo e rasgasse a manga da minha blusa.
Não passava de uma raiz. Uma raiz grossa que saía do chão e continuava por mais alguns metros na calçada até penetrar no solo outra vez. Esse era o tipo de coisa que me fazia pensar, pois sempre fui do tipo que pensa em todas as possibilidades. Por esse motivo decidi olhar em volta. Percebi que estava diante de um belo casarão colonial com um jardim mais belo ainda. Observei a casa com mais cuidado, gostava muito de coisas antigas, vivia dizendo que nasci na época errada. O jardim era todo composto pelas mais belas flores. Bem no centro daquelas belezas, reinava uma alta e frondosa árvore.
Nunca havia visto tamanha grossura em uma árvore frutífera em meio urbano. Mas lá estava a bela macieira, defini a natureza da mesma pelo fato desta estar carregada das maiores maçãs do mundo, ao menos foi isso que pensei quando as vi. Um desejo súbito e estranho se apoderou de mim, algo maior do que minha vontade de chegar cedo à agência. Sem pensar nem uma vez, trepei-me nas grades do enorme portão de ferro e pulei para dentro do terreno.
Andei rápido até a árvore, tomando cuidado para não danificar os gerânios que havia em meu caminho. Parei de frente para o tronco, pronto para começar a subi-lo. Tirei a camisa e olhei para o alto, calculei uns dez metros até a maçã mais próxima. Quando estava prestes a começar a subida, ouvi uma voz aguda e fria cortar o ar.
- E se eu te dissesse que cometerás um pecado terrível, caso comas um desses frutos? –
A voz me gelou a espinha, como se eu tivesse caído dentro de um lago congelado sem estar usando nenhuma peça de roupa. Virei rápido para identificar o dono da voz, pronto para dar uma boa desculpa pelo fato de ter invadido a propriedade
Havia uma figura encapuzada bem em minha frente, alguém alto e esguio, encurvado e apoiado numa bengala. Tal pessoa se aproximou de mim, pude ver os penetrantes olhos azuis dele, era um homem.
- Não preciso sabe o porquê de invadires o lugar, não és o primeiro transeunte que se vê perdido de desejos pelas maçãs redentoras. – o homem estava a menos de dois metros de mim, aquela manhã começou a parecer mais fria. – Mas devo avisar-te que essas daí não são para comer.
- Bem, com certeza o senhor entende que se elas não forem colhidas logo acabarão caindo e apodrecendo no chão, certo? – tentei argumentar, ainda não me acostumara com a estranha presença, mas eu queria uma maçã daquelas.
- Esse é o propósito delas, meu jovem. Essas maçãs carregam as almas daqueles que em vida cometeram assassinato por ganância. Quanto maior tiver sido o sentimento de avareza do assassino na hora do crime, maior é o tamanho do fruto.
Óbvio que não engoli aquela história, aquele velho na certa queria apenas evitar que eu as pegasse para que ele mesmo o fizesse. Com certeza ele sabia que não poderia fazer nada para me impedir e resolveu inventar aquela história.
- Baboseira! – xinguei – Tente me segurar, se puder! – e virei de costas.
- Essas maçãs devem apodrecer para que as almas nelas presas possam enfim veranear. – ele gritou enquanto eu subia na árvore – Comê-las destruirá a alma nelas contida e a pessoa que o fizer absorverá todos os pecados e as mágoas pertencentes à antiga alma. Além disso, você estará conectado à Macieira para sempre.
Não dei ouvidos a ele, subi o mais rápido que pude. Assim que alcancei o primeiro galho, arranquei uma maçã rapidamente. Senti o corpo todo vibrar, mas me segurei firme. Comi a maçã. A mordida foi agradavelmente suave. O gosto era melhor do que tudo que experimentei, senti um prazer superior ao de um orgasmo. Ao longe eu pude ouvir uma voz feminina cantando para mim, chamando meu nome. Meus membros ficaram dormentes e eu adormeci.
Quando acordei estava encostado no tronco da macieira, ainda estava sem camisa e, para minha grande surpresa, meu cotovelo estava sarado. Levantei-me rápido, olhei para o chão, lá estava minha camisa. Antes de vesti-la eu subia na árvore mais uma vez, levando minha bolsa junto. Tirei mais três maçãs, teria levado mais se elas não fossem tão grandes e ocupassem tanto espaço.
Fugi dali no primeiro ônibus que passou, nem vi o destino. Já em casa eu relaxei no sofá. Na hora do almoço eu não tive fome, então fui para o quarto ler um pouco. Passando pelo banheiro, resolvi escovar os dentes. Aproximei-me da pia, procurei minha escova e a pasta, levantei meu rosto e horrorizei com o que vi.
No geral era o meu rosto que me olhava, mas havia algo terrivelmente errado em minha expressão. Eu sorria maliciosamente com uma presunção desvairada, havia muitas rugas em volta dos meus olhos, e esses estavam vermelhos como o sangue. Olhando-me senti um peso esmagador em minhas costas, semelhante àquele que a maioria de nós sentia ao se encontrar sozinhos no escuro, quando éramos crianças. Havia sombras a minha volta, movendo-se rapidamente em todas as direções.
Sai correndo de casa, agora eu podia ver as sombras por todos os lados. Cheguei à casa da minha namorada e entrei. Sem aviso prévio eu entrei no quarto dela e me meti em suas cobertas.
- O que é isso? – ela me perguntou assustada – Fui à sua casa e seu irmão me contou que você havia saído, e agora você invade o meu quarto como que fugido. Você conseguiu um emprego ou só estava com saudades das minhas coxas?
Não pude responder, estava absorto observando um objeto em cima da escrivaninha.
- Acho que esse globo de neve é meu! – eu disse por fim – Por que você o pegou?
- Ah, lembrei que você disse que eu poderia pegá-lo, se eu quisesse. Você percebeu o quanto eu gostei dele.
- Mentirosa! – gritei – Você o roubou enquanto estive fora! – eu me pus de pé.
Ela me olhava com espanto, posso dizer que vi medo em seus olhos e posso dizer que também o teria caso eu visse o que ela viu. Ela tentou se explicar, mas a ira me subiu a cabeça e eu peguei o globo de neve e o quebrei em sua cabeça.
Corri para fora e depois continuei correndo. Pude ver o rosto de todas as pessoas na rua me observando. Elas sabiam. As sombras passavam rápidas ao meu lado, sorriam para mim. Eu continuei correndo em frente, precisava me livrar daquelas coisas. Senti que o vento não existia, mas as nuvens se moviam velozmente. Minhas pernas estavam pesadas, já estava difícil correr.
Desisti de correr e percebi que chegara a um ponto de taxi. Não sabia se minha teoria estava correta, mas decidi que sabia o que fazer para me livrar daquele tormento. Tomei um taxi até a loja de ferramentas mais próxima e comprei o maior machado que encontrei. Depois fui até o antigo casarão. Após dispensar o taxi, eu entrei.
Dessa vez não precisei pular o muro, o portão estava convenientemente aberto. Entrei e me pus diante da macieira. Não sabia se minha teoria estava certa, mas lembrava do velho encapuzado ter dito algo sobre eu estar ligado àquela árvore para sempre. Cheguei à conclusão que não estaria ligado a uma árvore que foi derrubada, então dei o primeiro golpe no tronco.
Uma força muito forte me jogou para trás, bati no chão com força. Levantei-me desorientado e olhei, algo acontecia com o tronco. Fiquei de pé e me aproximei. Algo escorria do local onde eu acertara, algo vermelho berrante. Então um lamento tocou fundo meu coração, como se alguém estivesse sofrendo muito e passando seu pesar para dentro de mim. Depois de alguns segundos eu entendi, a macieira estava chorando.
Eu estava apavorado, o medo subia pela minha espinha e arrepiava todos os pelos da minha nuca. Girei nos calcanhares para correr e dei de cara com o velho encapuzado, ele também chorava lágrimas de sangue. Sem olhar para ele eu fui até o portão e o abri. A atmosfera pesou, senti um aperto e logo percebi que era o sol que havia mudado. O astro-rei tornara-se também avermelhado, e agora ele me observava com sua face mais cruel.
Desnorteado, corri em frente. Não sei se desmaiei antes ou depois do carro me acertar, só me lembro de acordar no hospital três semanas depois. Uma luz branca foi a primeira coisa que vi, seguida por um jarro de gerânios e uma jarra de água. Elena estava ao meu lado, o que me assustou ainda mais.
- Meu amor, que bom que você acordou! – ela falou sorrindo radiantemente – Tive medo que você ficasse em coma para sempre.
- Coma? Do que está falando, eu... –
- Claro que você não se lembra, mas você foi atropelado há 22 dias, meu amor. Estive aqui ao seu lado todo esse tempo, não perdi as esperanças.
- Ei, 22 dias não são o bastante para se começar a pensar em “perder as esperanças”. – comentei – Mas durante esse sono exageradamente longo eu tive o sonho mais estranho da minha vida. – e contei a ela toda a história.
- Que coisa mais besta, meu bem, você jamais teria coragem de fazer mal a mim. Além do mais, você não tem nenhum globo de neve, embora você sempre quisesse ter um.
Pensei um pouco e depois sorri.
- Tem razão, linda, jamais eu danificaria esse sorriso divino. – e a beijei na boca.
Depois desse momento romântico ela se afastou e se abaixou.
- Ah sim, sua bolsa, deve ter alguma roupa melhor do que esse papel que você está vestindo. – ela me entregou minha mochila, e eu a abri.
Estou contando essa história depois de trinta anos porque hoje acho que finalmente estou livre de tudo isso. Hoje a última das três maçãs finalmente apodreceu, agora acho que nunca mais terei os pesadelos que me acompanham desde daquela tarde no hospital em que eu abri minha mochila e me deparei com um sinal de que havia recebido uma segunda chance e não deveria desperdiçá-la.



Ass: Willian D. Pereira

Fim!

8 comentários:

  1. Emocionante isso tudo
    Gostei demais =D
    #vireifã

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  2. Interessante e imprevisível história...
    Apesar de fictícia é possível extrair algo para nossa realidade...
    1# Ganância se indevidamente alimentada distorce a real compreensão que temos do mundo que nos cerca...
    2# Podemos começar algo erradamente sem querer/perceber, mas continuar errando ou recomeçar após perceber a falha é escolha nossa...
    Fez sentido? o_0

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  3. Completamente!
    A ideia é justamente que cada um aprenda algo, seja lá qual for sua interpretação dos fatos.

    Bjoes!

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  4. Nossa Avner muito bom esse texto
    parabéns pelo blog *-*
    vê se continua a postar esses contos!!
    Concerteza trazem ensinamentos para nossas vidas,adorei os momentos de suspense mas me surpreendi realmente com o final glorioso
    Sucesso tampa de coca
    \o/
    kissu

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  5. Simplesmente perfeito, como sempre!

    Kisus ;**

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  6. Toda Vez Que Venho Aqui Dou Um Voto Diferente Pq Acho Que Esse Conto É Interessante, Legal E Cativante!

    Ainda Não Sei Porque Gostei Mais Desse Conto Do Que O Do Fantasma, Talvez Pelo Fato De Parecer Tão Pessoal? Simplesmente, Achei Fantástica A História Que Mexe Com Os Sentimentos De Forma Tão Profunda...

    E Não Sei Mais O Que Comentar Meu Amor, Além Do Fato De Você Estar De Parabéns!

    Amo Vc

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  7. Primeira vez qe li alguma coisa sua
    e simplesmente ADOREI!!
    É muito cativante, impressionante,
    interessante, viciante, e todos ante's!!

    Jáh fiz Becca ler, falta Susu e o resto do mundo!! ;P

    #Byebye xoxo

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  8. Li e amei *---*
    Parabéns Avner ^^
    MUITOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO boa a história e muito bem criada ;)
    Concordo com Juuh: É muito cativante, impressionante,
    interessante, viciante, etc.

    ;*

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