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Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Conto Sobre Fantasmas e Sonhos

Gabriel estava sentado no corredor de sua casa. Eram quatro e meia e o sol ainda não havia dado as caras, tudo estava escuro como breu. As ratazanas no sótão comportavam-se como de costume, corriam de um lado para o outro fazendo um ruído inquietante. O assoalho da casa já tinha cinqüenta anos e nenhum engenheiro profissional para falar por ele, os sons de madeira velha era a música nos dias de vento. Estar sobre um precipício ao mar dava ao velho casarão o ar de cenário perfeito para filmes românticos. Mas não foi o caso com a família de Gabriel.
            Ás cinco o telefone tocou. “Alô?” Gabriel havia pulado uns seis degraus para atender. A voz do outro lado da linha era justo o que ele queria ouvir, rouca e compassada. Falava de coisas que ele sonhara, coisas que ele sabia que aconteceria cedo ou tarde. Após desligar o telefone, ele voltou para o quarto, deitou-se em sua cama luxuosa de quatro colunas e ficou olhando para o teto. Obvio que, naquela situação, ninguém conseguiria dormir.
            Oito horas, ouviu-se a porta da frente abrir. Gabriel levantou da cama e correu até lá embaixo. Ela estava olhando para ele com aquele ar de “meu mundo caiu”.
            - Então, mãe? – foi só o que ele teve forças para falar.
            Ela caiu em prantos e se atirou no sofá. Estava em estado deplorável, e Gabriel resolveu que deveria lhe dar um abraço.
            - Ah, meu filho. – começou ela – Sei que você ama muito sua irmã mas...
            Ela foi interrompida bruscamente pela porta da frente sendo fechada bruscamente. Havia uma garotinha ali. O vestidinho de rendas estava manchado de óleo, as luvinhas brancas estavam rasgadas e esfiapadas. Sua meia de cor branca até o joelho estava suja de óleo também e ela estava sem sapatos. Os lindos cabelos dourados em forma de cachinhos que lhe davam a aparência de um anjo. Um anjo muito sujo.
            - Mamãe? Por que a senhora está chorando? – A voz dela era como uma canção, e sua pele muito branca a fazia parecer uma boneca de porcelana. – Por que me deixou esperando no carro? Por que está chorando?
            Gabriel olhou com amor para a sua irmã, e logo um sorriso imenso se abriu no seu rosto. Ele largou a mãe e correu para a irmã, abraçou-a como nunca havia feito, depois olhou fundo naqueles olhos azuis, segurando o rostinho dela.
            - Eliza! Minha irmãzinha linda! – Gabriel beijou o rosto da irmã e depois a soltou. Eliza sorrio para ele e depois sua voz angelical deixou escapar algumas palavras. “Então estou perdoada por ter quebrado sua guitarra?” Gabriel fez que sim com a cabeça e depois a abraçou de novo.
            A porta voltou a abrir. Dessa vez foi o pai deles quem entrou. Os olhos cheios de lágrimas e o olhar distante. Ele abraçou o filho olhou em volta e depois subiu as escadas. “Comida, banho e cama! Já!”. Uma porta foi batida, mesmo por ela dava para se ouvir os esgares do choro silencioso.
            Meio dia, Gabriel havia conseguido dormir bem por algum tempo. Mas o pesadelo da noite anterior voltou e logo ele estava de pé novamente. Ele desceu as escadas e foi em busca de almoço. A mesa estava posta como de costume, mas faltava um prato ali. O único que ainda estava comendo era seu pai, ele parecia muito assustado com algo. Sua mãe estava lavando os pratos enquanto cantava uma canção de ninar.
            - Onde está Eliza, mãe? – Gabriel queria ver sua irmã, assim esqueceria o pesadelo. Seu pai olhou aterrorizado para Gabriel e depois a mulher. A mãe cochichou, “celeiro”, Gabriel sorriu e fez menção de correr, o pai segurou sua mão e olhou para ele de forma suplicante. Gabriel se soltou e correu ao encontro de sua irmãzinha.
            Eliza estava vestida exatamente como chegara. Sentada em um monte de feno, ela cantava para os animais que ali estavam.
            - Ei, guria! Acho que papai mandou você tomar banho hoje quando chegaram, ou não? – ele tentou fazer cara de mau, mas estava tão feliz em ver sua irmã que acabou sorrindo para ela. – o que a mamãe falou sobre isso?
            - Ela disse que estava tudo bem. Que logo tudo ficaria bem comigo, que eu não deveria deixá-la só. – ela pulou e o abraçou forte – amo você, meu irmãozinho.
            Ele sorriu, soltou-a e passou a tarde inteira brincando com ela no celeiro.
Dezoito horas, eles estavam na sala de estar. Gabriel assistia o jornal junto com seu pai sua mãe estava na cozinha. Algo caiu, um prato talvez, e fez um barulho imenso. Gabriel exclamou, “Eliza”, enquanto corria para a cozinha. Ouviu-se os gritos.
            - Mãe, a senhora está bem? Eliza, está machucada? – o pai dele levantou-se rápido, olhou a cozinha e depois subiu as escadas clamando em nome de Deus.
            Havia uma travessa quebrada pelo chão, Eliza estava nos braços de sua mãe enquanto Gabriel limpava tudo. Depois de tudo limpo, eles foram até a sala. Devido a pressa em subir as escadas, o pai dele havia deixado o televisor ligado. Eliza, sentada no sofá, ao lado da mãe, fez uma cara séria quando olhou para a reportagem que era exibida naquele momento.
            “…e os para-médicos só chegaram ao local do acidente meia hora depois do telefonema do Sr. Martins. O corpo foi levado à UTI por volta das cinco da madrugada e...” As luzes apagaram. O pai dele desceu as escadas correndo, agarrou o filho e olhou assustado para o sofá.
            - O que o senhor está fazendo? Me solta! – Desviando-se do aperto pai, ele foi até o sofá e se agarrou com a mãe e a irmã. – Tudo bem mãe, vou procurar a caixa de fusíveis para que Eliza não se apavore e...
            - Cale a boca! Pare de falar como se ela ainda estivesse aqui! – Seu pai havia, finalmente, explodido.
            Gabriel olhou para ele de forma repreensiva, o puxou pelo braço e o arrastou pára fora. Estando no terraço, Gabriel olhou furioso para seu pai e falou:
            - Acha que eu não sei o que aconteceu? Eu acabei de ver no noticiário, e já havia notado que ela estava diferente. - eles já tinham a mesma altura, mesmo que Gabriel fosse só um adolescente. – Não precisa me tratar como uma criança só porque você está com medo! – ele se virou e abriu a caixa de fusíveis – Não vou deixar a mamãe se sentir solitária, eu amo a Eliza também, então pare de tentar me alertar ou ela vai acabar indo embora.
            O pai então parou. A expressão dele mudou de medo para surpresa, olhou o filho trocar a peça queimada por uma nova e depois, quando estavam frente a frente de novo, ele cochichou, “Acho que você não entende”, depois ele sentou no banco do terraço e permaneceu ali.
            Meia Noite, seu pai já havia desistido de avisá-lo. Disse que dormiria mais cedo e os havia deixado sós. Gabriel brincava com Eliza no tapete, enquanto olhava sua mãe os observando do sofá. Mamãe, com aquele vestido vermelho que ela usava sempre, os olhava com um olhar carinhoso e amável. O telefone tocou e Gabriel esperou que a mãe o atendesse, mas como ela nem sequer desviou o olhar de sua filha, ele mesmo o fez.
            - Alo”ha”! – ele sempre atendia ao telefone assim – Ah? Ele foi dormir desde as dez…Não, estamos aqui eu e minha mãe…quem ta falando?…não vou chamar meu pai, se quiser ligue para ele amanhã! - e bateu o telefone. Sua mãe olhou para ele assustada, “O que aconteceu?” – Aparentemente essa pessoa acha que a senhora não é capaz de cuidar de mim sozinha, acho que a culpam pelo acidente com a Eliza.
            Nesse instante, como antes, formou-se a expressão de “meu mundo caiu” no rosto da mãe. Os cabelos negros caíram-lhe no rosto e os olhos verdes o penetraram. As mãos brancas foram ao rosto e ela começou a chorar. Eliza levantou-se depressa e olhou assustada para o irmão. Ela abraçou a mãe e falou algo em seus ouvidos. A mãe levantou-se do sofá e saiu da sala.
            - Não fale essas coisas para a mamãe, El, você quer que ela se sinta só? – Eliza abraçou seu irmão e deitou ao lado dele.
            Quatro horas, Gabriel se acordou e notou que havia adormecido no sofá. Eliza o observava, sentada na poltrona. Olhar sua irmã daquele ângulo o assustou, mas isso passou no momento em que ela sorriu. Ele a abraçou e falou ao ouvido dela.
            - Hora de dormir, minha pequena, aliás, você dormiu mesmo à tarde? Não sei bem se depois do que houve você precisaria dormir. – estava pensativo enquanto falava.
            Ela o olhou curiosamente e respondeu, “estou cansada”.
            - Vou chamar a mamãe para dar banho em você, essa sua roupa já está cheirando mal, o que me deixa mais pensativo. – ele a olhou e depois subiu.
            Sua mãe estava debruçada na janela do quarto de Eliza, o papel de parede rosa ainda estava lá, “e estará sempre”, ele pensou. Ela se virou e olhou bem para seu filho;
            - Mãe. Pode descer, a Eliza está esperando que a senhora dê banho nela. Faz essa vontade dela, mesmo que agora... –
            - Você não entende nada, meu filho. – ela sorriu para ele de forma carinhosa. O vento entrou e assobiou de leve, ela se virou e olhou mais uma vez para o horizonte. – Já está quase na hora, traga sua irmã aqui!
            Ele não deu muita atenção ao que sua mãe disse, “o choque da perda ainda é grande”. Gabriel se virou para descer e deu de cara com seu pai olhando para ele, Eliza vinha subindo as escadas, pulando dois degraus por vez. Toda a família estava reunida agora.
            - Vem, mãe. Eliza está esperando. – Gabriel aproximou-se da mãe e estendeu a mão. Ela não a pegou e olhou para sua filha. Eliza sorriu e correu para abraçar sua mãe, o pai abriu os olhos de forma espantosa, mas logo, como se algo lhe tivesse vindo a mente, o olhar tornou-se um pequeno sorriso.
            - Então…essa é a hora. – então ele virou o olhar para Eliza e a abraçou. – Desculpe, minha filhinha. Não fique triste, mamãe não ficará só sem você. – Gabriel olhou sorridente para seu pai.
            - Que bom que o senhor parou de evitá-la, pai. Ela também te amava. – disse isso enquanto também se aproximava para abraçar a irmã. – ainda bem que o senhor entendeu.
            Nessa hora, o pai o olhou de novo, agora com um sorriso bondoso no rosto. Eliza então olhou bem para seu irmão e sussurrou, “Parece que você que ainda não entendeu”. Gabriel, de fato, não estava entendendo o que todos diziam que ele não entendia.
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            Quatro horas de ontem, Gabriel acordou assustado depois de um pesadelo terrível. No sonho, sua irmã Eliza jazia morta depois de um acidente terrível de carro, sua mãe e seu pai choravam inconsolados e ele estava paralisado de pânico. Já acordado, Gabriel se lembrou que seus pais e Eliza estavam fora naquele momento. Uma festa na casa de um dos amigos de trabalho de seu pai, pelo que ele se lembrava. O terror da possibilidade se abateu sobre ele, então telefonou para o celular de seu pai. Ninguém atendeu. Ele sabia que seu pai logo perceberia a chamada não atendida, então esperou sentado no corredor até o telefonema.
            Cinco horas de ontem, o telefone tocou e Gabriel atendeu ansioso. “Er…Filho? Vi que você me ligou, nós vamos demorar um pouco porque houve um acidente e… o motorista estava bêbado e…o que? Morta? Nãããããão!…filho, depois eu ligo.”
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            Quatro horas, Gabriel estava confuso. Ele já não conseguia se segurar, aquela situação estava passando dos limites da força dele. Ele queria saber o que todos sabiam e ele não.
            - O que há? Do que vocês estão falando? Eu aceitei, está bem? Eu suportei como ninguém faria. Estou lidando com esse fato. Amo a Eliza, minha irmã sempre estará viva no meu coração. Então o que raios eu não estou entendendo? – ele estava suando frio, era só um adolescente e não tinha maturidade o suficiente para superar isso.
            - Isso é o que você não consegue entender. Houve um acidente, alguém morreu… mas você não está deixando essa pessoa descansar. – o pai estava com a voz baixa e calma – Você precisa falar para essa pessoa que não precisa dela aqui, e que não ficaremos sós porque temos uns aos outros.
            - Mas pai, a mãe vai ficar só se a Eliza partir e… -
            - Filho, a vida é para os vivos. Nós temos a nós mesmos, deixe-a ir, não vê que a faz sofrer? – essas palavras, Gabriel percebeu, foram ditas com todo o pesar.
            Então ele parou para pensar, não era mesmo certo manter alguém que já morreu entre os vivos. Mesmo que ele amassa muito sua irmã, ela estaria melhor no outro mundo. Aceitar perder a irmã levou todas as suas forças, mas ele sabia que era o certo.
            - Tudo bem, pai. O senhor está certo, vou dizer a ela que estamos bem sem ela e que não estaremos sozinhos. – Ele se virou para Eliza e abriu a boca para falar, mas foi interrompido por seu pai, “Creio que você vá se despedir da pessoa errada, meu filho”. Essa frase foi o “tapa na cara” de compreensão que ele precisava.
            No fim das contas, nada não é exatamente nada, uma vez que tudo não é exatamente tudo. As coisas que você acha que conhece podem surpreender você. Afinal, durante o aprendizado de nunca deixar escapar nada, você pode ter deixado algo escapar.

4 comentários:

  1. Minha mente travou com o "tapa na cara"!
    Muito boa mesmo cara! Mais um ótimo conto sobre o mundo sombrio.

    Parabéns e continue a semear a semente do sobrenatural.

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  2. Wow...
    deixa eu respirar de novo pq eu perdi o fôlego...

    ta show!!!
    =D

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  3. cara, curti a historia e o final... mas fiquei um pouco zonza ela foi contada muito rapida, com muita informação e falta dela ao mesmo tempo Oo...

    Mas, ... essa historia realmente me pegou ;)

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  4. Simplesmente fantástico,Avner!Prendeu minha atenção do começo ao fim,e isso não é algo fácil de se fazer ;D (olha só q "honra" =P)

    Acompanharei seu blog daqui pra frente.Estarei no aguardo de mais histórias suas \^^

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