O que há por aqui?

Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Vestido de Lady DaGradi



Isso aconteceu há três anos, na época em que meu irmão Christopher ainda morava conosco. Nossa família havia decidido mudar de ares, por vários motivos não conseguíamos mais chamar o nº 64 da Rua Earl Grey de lar. Pergunte a qualquer um da família e ele dirá que mudamos devido ao problema de saúde de minha mãe, Elena. Mas eu posso jurar que a verdadeira razão era a loucura em que meu irmão entrou desde que sua namorada fora assassinada (Mais detalhes sobre esse caso no conto “O Breve Relato Sobre A Rua Earl Grey, 64”).
Assumindo o pulmão poluído da minha mãe como real explicação para a mudança, mudamo-nos para o campo. Depois de alguma pesquisa compramos um antigo casarão no meio de Interiores, estado menos habitado de nosso país. Logo que cheguei percebi que minha vida naquele lugar seria um inferno, isso devido ao fato de nossa casa ser um pontinho marrom em meio ao mais vasto campo de plantações que eu já havia visto. Não haveria ninguém com quem falar nem de quem falar. Era um local tão afastado da civilização que tínhamos que percorrer uma hora na caminhonete até a cidadezinha mais próxima, Eddyville. Sem falar do lamaçal, minha roupa ficara absolutamente imunda ao descer do carro, teria que trocá-las assim que chegasse ao meu quarto.
O cheiro de mofo naquele casarão me fazia espirrar, sem falar nas traças corroendo todas as pinturas do século passado que balançavam nas paredes também carcomidas daquela casa horrorosa. Eu me senti como o único que conseguia enxergar que ficar ali seria ainda pior do que respirar o ar da cidade. Meu quarto era grande, mas nem se comparava ao quarto que meu pai tinha em nossa casa anterior, embora ele ainda tenha alardeado o fato do quarto novo dele ser ainda maior.
Corredores gigantes, primeiro andar, vinte quartos, a casa em si era um monstro. Eu precisava andar uns três minutos até o banheiro mais próximo do meu quarto, ao menos eu não teria que escutar mais gritos da minha mãe dizendo que havia esquecido uma das bagagens na casa antiga, porém me fez estremecer ao lembrar-me de minhas necessidades noturnas.
Logo na primeira noite eu me deparei com uma vontade louca de urinar, eram cerca de 02h34min e eu estava correndo corredor abaixo. Na saída do banheiro eu me deparei com algo que eu não reparara antes (porque nem estava lá, como descobri depois): Um quadro em tamanho real de uma bela dama da corte. Eu soube que era uma nobre porque o nome dela brilhava em ouro na moldura: Lady DaGradi.  Uma mulher alta e magra, muito branca de cabelos tão negros quanto é possível algo ser negro. As feições dela eram firmes e delicadas, os olhos eram de um esplendoroso azul mais intenso que o céu diurno, e a boca era escarlate como sangue.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei admirando a obra, mas meu transe foi interrompido por uma batida. Desperto, eu me dirigi à direção do som e me deparei com a janela que dava para a frente, e lá eu a vi. Deitada no chão, imóvel como que morta, jazia minha irmã, Alessandra. Corri para lá e a trouxe para dentro de casa em meus braços, deitei-a no sofá e verifiquei a pulsação. Com certeza ela estava viva, respirando muito lentamente, mas viva.
Logo que me afastei para buscar um copo de água, eu reparei no vestido que ela usava. Eu com certeza conheço cada roupa que minha irmã usa, pois costumo xingar o modo como ela se veste, mas aquele vestido eu nunca havia visto nela. Apesar disso, havia algo de muito familiar nele, mas não me lembrei de nada no momento.
O vestido era longo, ia até o meio das canelas. O azul do vestido rivalizava com um azul que eu havia visto há pouco. Havia vários detalhes em negro, como babados nos pulsos, na barra e na gola elegantíssima. Além desses, uma linha negra descia desde a gola, passando pelo meio do busto, cortando por onde estariam as pernas até o fim, na barra. Tal peça jamais faria parte do arsenal punk de Alessandra, ela já o teria retalhado e desenhado algumas caveiras. Sempre achei que minha irmã fosse uma perdida, embora minha mãe vivesse dizendo que tudo não passava rebeldia de adolescente e que logo ela começaria a se portar como uma mulher descente, eu duvidava friamente.
No outro dia, Alessandra não soube explicar como fora parar do lado de fora. Ela confessou ter experimentado o vestido, mas disse que caíra no sono logo em seguida.
- E pare de insistir nessa história, Raimundo, ou conto ao papai sobre o seu caso com Jeremy Nicholson. – ela sempre vinha com essa, maldita fedelha – Não vai querer ser a segunda fruta podre da família, não é?  Já não basta o Christopher louco, se descobrem que você é um via..
Corri e pus a mão na boca dela, ela não fez força para se libertar. Deu um sorriso malicioso e saiu de perto de mim. Eu estava com um ódio destrutivo naquele momento, por isso resolvi não me mover até que passasse. Passei meio dia sentado naquele sofá, pensando em porque Alessandra teria saído e porque estava tão decidida a negar o fato. O dia se foi rápido, parece que passei o resto do dia em transe ou dormi.
Á noite eu resolvi voltar ao meu quarto, subi as escadas e dei de cara com o corredor gigantesco. Em pé, diante de mim, estava minha mãe. Assustei-me imediatamente, pois, minha querida mãe, Elena, estava vestindo o vestido azul que minha irmã usara na noite anterior. Se não era o mesmo, era idêntico. O mais estranho foi o olhar dela, focava o infinito como que observava o vento parado.
- Mãe? – indaguei, mas não tive coragem de dar mais um passo sequer – O que é isso? Nunca vi você usando esse vestido!
Não obtive respostas. Minha mãe andou, passou por mim e desceu as escadas, apenas movendo as pernas. Virei a cabeça e a acompanhei com os olhos, ela chegou até a sala e abriu a porta para a rua. De súbito ela girou a cabeça, apenas a cabeça, e me lançou um olhar de baixo para cima. Senti o corpo gelar, mal consegui me mover. Afastei-me da escada, bloqueando a visão da porta, e depois me sentei no chão.
Quando o susto passou, levantei-me e corri lá para baixo. De novo dei de cara com o retrato e tive um susto maior ainda. Diferente da noite anterior, Lady DaGradi estava absolutamente sem roupas. O corpo nu dela apenas ostentava um belo colar de pérolas e nada mais. Foi então que algo me veio à mente, noite passada eu achei ter visto o vestido azul que Alessandra usava em algum outro lugar, agora eu havia me tocado de que era justo esse que a figura no quadro deveria estar usando.
“Mãe de Deus!”
O pior de tudo foi perceber que a expressão no rosto da pintura havia mudado bruscamente. O que antes era um rosto firme de seriedade, agora era um sorriso malicioso e delineado, algo que me fez lembrar alguém que chantageia. A figura estava muito diferente da anterior, e agora eu desconfiava horrorizado que as coisas estavam conectadas. Caí para trás e me deitei num divã da sala, ainda compenetrado pela pintura, quando ouvi uma batida oca.
Certo de que era a mesma batida de antes, corri para a janela. Lá estava minha mãe, deitada na relva, exatamente onde Alessandra tinha estado. Fui para fora intencionando trazê-la para dentro, ainda que o medo me percorresse. Não podia deixar minha mãe naquele estado, o que as pessoas iriam falar? Então andei em direção a ela calmamente, temia que ela virasse o pescoço novamente e me pregasse outro susto. Pulei para trás, pois algo ainda mais estranho aconteceu.
O vento veio com força, folhas voaram para todos os lados. Lentamente o corpo da minha mãe se moveu, na mesma direção das folhas, como que embalado pelo vento. Foi a visão mais assustadora da minha vida, até aquele momento. Ela subia, aos poucos e dançando com as folhas, ela subia. Os braços moviam-se aleatoriamente como que feitos de pano, assim também iam as pernas*. Quando estava a minha altura, a de um homem de vinte anos, ela que voava deitada, mudou de posição para vertical.
Minha mãe me olhou com o já conhecido olhar de desgosto, sempre me lançava esse olhar quando eu fazia algo de errado. Ela tinha um jeito muito estranho de me castigar, eu sempre me sentia mal com esse olhar. Seus pés tocaram o chão e ela caminhou perante mim. Dei uma olhada rápida para o vestido, mas fui interrompido por sua voz.
- Você não está à altura dele, Raimundo! – ela disse rispidamente – Não seja uma vergonha para seus pais e irmãos!
- E o que você sabe sobre isso? – mal reparei que começara a gritar – Você nunca conseguiu me entender, sempre esteve tão cega pelo Chris que nunca reparou nos meus problemas! – não eram palavras falsas, mas nunca as diria se pudesse ter evitado.
- Sua vaidade desmedida é a mancha sangrenta em sua alma corrompida!
Ela desmaiou logo em seguida. O vento reiniciou, ouvi passos que corriam em minha direção. Ao virar-me deparei-me com Alessandra, nua e demoniacamente maquiada. Ela lançou outra vez aquele sorriso e se aproximou.
- Isso é o que você sempre quis, não é? – a voz dela vinha de dentro, seus lábios não se moveram – Sempre escondeu de todos, mas não poderia nunca esconder de mim, seus desejos!
Aquela não era a voz da minha irmã, eu percebi poucos segundos depois. Por trás dela surgiu outra mulher, era ela quem falava. Lady DaGradi se aproximou de mim. Usava o vestido azul, nela ele era infinitamente mais bonito. Logo notei que minha mãe já não usava o vestido, ela estava jogada sem roupa alguma no chão, toda suja de terra.
- Seria essa a razão de você ter invadido o meu quarto e vestido minha roupa? – com certeza era ela falando, não havia mais dúvida alguma disso – Você acaso achou que se compararia à beleza feminina se usasse essa peça maravilhosa?
- Eu não... do que você está falando? – o nervosismo tomou conta dos meus atos, não pude me conter.
Pulei para cima dela e a soquei. Bati nela com tanta força que senti meu punho doer. Ela já não estava mais lá, só havia eu, minha mãe e Alessandra. Minha irmã caiu também desmaiada, e eu tive que carregar as duas para dentro de casa. Pu-las nos sofás e corri a chamar meu pai.
Enquanto subia as escadas gritando, lembrei-me do dia anterior, em que cheguei a essa casa do inferno. Lembrei dos quadros, do cheiro de mofo, de mim entrando no que seria meu quarto, de achá-lo muito pequeno e de...
Parei de correr, lembrei-me do lamaçal. Minha roupa estava imunda, eu tinha que trocá-la. Mas por mais que eu tentasse, não consegui encontrar minha mala em lugar algum.
“Mãe de Deus, a bagagem esquecida!”
Não havia roupa extra para mim, minha mãe esquecera-se de minha mala na nossa antiga casa. Então o que eu havia vestido, afinal? Olhei de relance para meu corpo, embora eu já soubesse o que veria. O vestido brilhava em mim, como uma estrela brilha em meio ao céu sombrio. Mal pude acreditar na revelação que me fora dada, o vestido havia estado em mim o tempo todo.
Na noite anterior, quando chegamos ao casarão, eu havia subido ao meu quarto e me deparado com um baú de roupas. Aparentemente esse era o quarto de alguém nobre, pois a decoração, embora velha, era luxuosa. Como estava cego de raiva por minha mãe não ter trago minhas roupas e por eu estar todo sujo de lama, tudo que pude notar foi que o quarto era menor do que o que meu pai tinha em nossa mansão anterior. Atendendo a minha curiosidade sem limites, abri o baú e olhei todas as roupas que havia dentro. Experimentei os vestidos de um por um, sempre gostei de usar roupas femininas quando estava só. Quando pus o vestido azul de Lady DaGradi, senti uma atração tão poderosa por ele, que resolvi dormir usando-o.
Parei de correr, tudo estava excepcionalmente claro. Não havia sentido em chamar meu pai aqui, pois ele nunca conseguiria chegar. Entrei no meu quarto, lá estava eu, dormindo. Aproximei-me e vi que quem dormia não era eu. A dona do vestido azul levantou-se e me encarou friamente, o olhar de desgosto da minha mãe. Ela estava sem roupas e olhava atentamente de mim para o vestido.
- Então? – perguntou ela sinceramente – Irá devolvê-lo a mim?
Minha vontade inicial era tirar aquele maldito vestido e jogá-lo nela, mas logo percebi que não conseguiria fazê-lo. Eu o queria, eu o amava. Nunca havia me sentido tão certo de uma coisa como eu estava naquele momento, aquele vestido era parte de mim, ele me fazia mais... mulher.
- Não! – gritei para Lady DaGradi – Ele é meu, eu o achei! Você nem deveria estar aqui, suma de uma vez!
O olhar que ela me dera, fora de total bondade.
- Esse vestido me pertence, não posso simplesmente deixá-lo aqui! – ela falou calmamente – Foi um presente do meu marido, é muito especial para mim.
- Não me importo! – falei debochadamente – Você está morta, sabia? Por que não descansa em paz e me deixa na mesma?
Lady DaGradi me olhou de soslaio. Novamente vi em seu rosto a expressão dura e séria que vi, ou sonhei ter visto, no quadro da sala. Ela se afastou de mim lentamente, não caminhando. Virou-se de costas e flutuou até o espelho, chegando a ele, penetrou.
A última coisa que ouvi naquele dia, antes de acordar daquele sonho medonho, foi a voz fria da Lady, dizendo-me que jamais abandonaria o vestido azul e que estaria comigo sempre que eu o usasse. Queria poder dizer que nunca mais o usei, mas todas as noites, antes de dormir, eu ainda ponho meu, sim “meu”, deslumbrante vestido azul de festa, e fico a me olhar no espelho. Admiro-me até que meu reflexo se torne “ela”, então não suporto mais e o dispo.

Raimundo D. Pereira

* Ver videoclipe “Vermillion Pt. 2” – Slipknot


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Breve Relato Sobre A Rua Earl Grey, 64

 Aviso aos fracos de coração e aos puritanos que em meu relato há cenas de violência sexual e mutilação corporal. Aconselho que, caso você vá criticar-me pelo que foi feito, você nem sequer leia esse ocorrido. Não que eu considere isso como algo grandioso, mas aquela noite no número 64 da Rua Earl Grey marcou minha vida.
Sentado à beira do muro eu pude ouvir com clareza o grito da Sra. Motta. Era uma noite de céu estrelado, o clima estava bom para namorar. Gabriela me apertou forte ao ouvir o barulho de vidro sendo estilhaçado, eu estava adorando todo aquele clima de suspense. Logo tive que descer, do contrário Gaby me derrubaria. Apertei-a com mais força e depois a trouxe para perto da minha boca.
- Relaxe, minha pequena, é só a Coroa do Chá tirando o atraso. – eu cochichei com a voz mais doce que consegui dissimular – A dona Berga Motta está recebendo um visitante hoje, provavelmente ela já deve estar sem roupa e tudo o mais.
- Será que nada nesse mundo consegue abalar você? – ela indagou se afastando um pouco – Impressionante a sua habilidade de relacionar tudo ao sexo.
Esse era o tipo de conversa que nos levava sempre ao meu quarto, por isso resolvi dar corda.
- Meu amor, é você que me deixa nesse estado de emoção. – falei com a voz baixa, usando um tom mais malicioso. – Como eu posso pensar em outra coisa tendo você aqui, nessa posição.
Ela fez uma careta e se afastou mais ainda de mim, o jogo seguia sempre as mesmas regras, afinal. Aproximei-me com minha “mão boba”.
- Olha só – sussurrei trazendo-a para mais perto – Acaso eu preciso lembrar-la o tempo todo de que o brilho do sol não passa de uma mísera fagulha prestes a se apagar, se o comparo ao fogo do meu amor por você?
Ela me deu o já conhecido olhar de lado, depois me deu um soco no braço.
- Seu conquistador barato! – ela disse sorrindo – Acha que pode me levar no bico só com essas palavrinhas mixurucas? – e me beijou.
Outro grito vindo da casa, dessa vez singularmente pavoroso. Atendendo ao pedido de Gaby, disquei o número da polícia. Uma viatura chegou em menos de dez minutos, e em menos de dez minutos soubemos do ocorrido. Aparentemente o acompanhante da Coroa do Chá excedera o limite etílico e quebrara algumas garrafas de vodka na cabeça dela.
- Parece que a Sra. Motta pegou o namorado com outra, o pessoal do bar estava comentando sobre a confusão que ela fez lá quando viu os dois “se pegando”. – foi o comentário que Raimundo, meu irmão, fez questão de declarar para mim e para Gabriela. – O cara a mandou para casa e quando chegou lá... foi o fim da Coroa do Chá.
Foi o assunto principal da conversas por algum tempo. Uma semana depois, numa fria madrugada, eu me encontrava sentado no telhado da minha casa, fumando. Era o que costumava fazer quando tinha insônia, o que acontecia sempre na madrugada que precedia meus encontros com Gabriela. Estávamos juntos há pouco mais de três meses e eu ainda ficava todo ansioso antes de encontrá-la. Posso dizer sem a menor vergonha que eu estava desesperadamente apaixonado por ela.
Minha rua era típica dos subúrbios de classe média alta, silenciosa durante toda a madrugada, eu era a única alma a observar os movimentos, ao menos seria caso houvesse algum. Foi quando de repente um vulto negro veio em minha direção, derrubando-me de volta à minha varanda. Tratava-se do Dr. Negrus, gato de estimação da vizinha, dona Motta, que na certa se sentia carente, uma vez que não havia mais ninguém naquela casa para mimá-lo.
- Ai, bichano! – realmente não foi uma queda confortável – Sei que a solidão é trágica, mas não lhe basta uma morte por mês nessa rua? – e peguei o gato no colo.
O bicho escapou de meus braços e escapuliu para dentro do meu quarto. Antes que eu pudesse sequer pensar no que fazer com ele, o gato abocanhou meu Rolex e fugiu correndo por debaixo das minhas pernas.
- Gato ladrão? – indaguei coçando a cabeça.
Pude ver o animal correndo para dentro da casa vizinha e na hora me bateu o receio. Aquele relógio era herança de família, eu não podia apenas deixá-lo de lado. Sendo assim subi de volta ao telhado e me esgueirei até o da casa onde o gato havia entrado.
“Espero que o telhado da morta aguente”
Com alguma habilidade adquirida nos anos de molecagem em cima da minha própria casa, eu me joguei para a varanda da casa no movimento rápido e preciso, sem fazer muito barulho.
“Olha só! Sou quase um Príncipe da Pérsia.”
Por sorte a casa da dona Berga Motta ainda estava vazia, não existe muita gente que deseje morar numa casa onde houve um assassinato. Arrombei a porta muito delicadamente, não tinha intenção de acordar a vizinhança, e entrei pela sala de estar.
Na rápida olhadela que eu dera antes de entrar na casa, pude ver que todas as mobílias estavam cobertas com os panos brancos habituais em casas nessas condições. Agora tente imaginar minha reação ao dar de cara com uma decoração totalmente diferente, sem falar nos inúmeros móveis de luxo dispostos de maneira absolutamente desigual ao que vi através do vidro.
Daqui meu coração quase que escapa pela boca: Um homem de terno entrou acompanhado de uma bela dama, rodopiando ao som de uma música clássica melodiosa. Minhas tentativas de explicar-me foram em vão, descobri logo, pois aparentemente aqueles dois não podiam me ver nem ouvir. Então um homem entrou derrubando a porta, veio para cima deles e começou a gritar. Ao menos eu supus que estivesse gritando, pois logo percebi que eu nada ouvia além da música. Sem pestanejar a mulher puxou um revolver de dentro da bolsa e meteu uma bala bem no meio da testa dele.
A cena se desfez logo em seguida, dando lugar a uma nova decoração. O estilo tornou-se mais renascentista e havia um belo carpete avermelhado por toda a sala. Num divã, a menos de dois metros de onde eu estava, um casal transava loucamente. Não pude deixar de assustar-me com tal coisa, afinal surgiram do nada e gemiam alto. De súbito a mesma porta foi escancarada, dessa vez uma jovem aparentando uns vinte anos de idade entrou. Lágrimas desceram pelo rosto dela, isso me tocou. Nesse momento percebi que se sucedia, eu estava vendo ecos, aparentemente uma sucessão de adultérios. O homem, o traidor, levantou-se e começou a gritar e gesticular, mandando a moça sair. A moça correu para cima dele e deu-lhe vários murros, como esmurram as mulheres quando choram. Uma briga rápida fez com que a pobre coitada traída caísse da sacada e morresse lá embaixo.
Eu já não estava mais tão apavorado quanto inicialmente, tenho o incrível dom de superar esse tipo de choque. Sorte minha, porque logo que constatei a morte da moça, a cena mudou outra vez. Dessa vez era a decoração de que eu me lembrava, só que os móveis estavam descobertos e ainda a música tocava. Dona Berga Motta entrou chorando e jogo-se no sofá. Os contornos dos olhos estavam inchados e vermelhos e o rosto todo borrado de maquiagem e lágrimas. A música então se tornou mais rápida e agressiva, aparentemente era uma sonata tocada no piano por Beethoven. A porta então se escancarou e o namorado da Coroa do Chá entrou na sala.
Houve gritos de ambas as partes, ela lhe apontava o dedo e abria os olhos ameaçadoramente. Ele andava de um lado para o outro, aparentava ainda estar muito fora de si devido ao álcool ou a alguma droga. Ele se sentou e ligou o aparelho de TV, pôs as pernas num pufe e deitou a cabeça. A Sra. Motta, depois de um grito tresloucado, buscou um vaso próximo e o quebrou decididamente na cabeça dele, fazendo que muito sangue jorrasse e ele se levantasse assustado. O sujeito ficou enlouquecido, pude ver em seus olhos que aquilo ultrapassara todos os limites conhecidos pela aquela careca ensanguentada.
O homem avançou para cima dela num pulo e enfiou a mão dentro da boca da mulher. Ela contorceu-se tentando livrar-se do ataque, mas o adúltero enfiou mais ainda o braço, até o cotovelo. A Sra. Motta logo parou de contorcer-se, o homem retirou o braço e trazia na mão alguma coisa mole e muito cheia de sangue. Aparentemente ele a rasgou toda por dentro, pois aquele não era outro senão o coração da Coroa do Chá. A dona havia sido morta de uma forma mais letal do que algumas garrafadas.
Logo tudo desapareceu, voltaram os móveis encobertos pelos lençóis brancos. A poeira estava como deveria estar, numa casa abandonada há sete dias, minha alergia estava prestes a presentear-me com uma crise de espirros. Eu não pude me mexer, algo ainda estava acontecendo naquela sala e não demorou muito para que eu percebesse. No princípio julguei ser apenas mais um eco, mas então reparei nos personagens.
Havia Gregory Motta, filho da antiga dona dessa casa que há muito se mudara para uma cidade do interior do país devido à faculdade. A outra ocupante era alguém que eu conhecia muito bem, embora eu não conseguisse aceitar o fato dela estar ali se agarrando com Gregory ao invés de dormindo, como havia me dito que estaria. No princípio abateu-se sobre mim uma tristeza e um vazio, mas o tempo era curto demais para se pensar nesses sentimentos. Como se o rio que alimenta uma bela cachoeira simplesmente secasse, extinguiu-se ali toda a felicidade que em mim havia crescido nos últimos três meses.
Superado o choque da inescrupulosa traição, restava-me agir antes que fosse tarde demais. Os amaldiçoados notaram a minha presença, levantaram-se de um pulo do sofá onde executavam as “preliminares” e me olharam com um ar de espanto. Antes que eles pudessem dizer palavra eu puxei um atiçador de lareiras que repousava encostado numa mesa e o enfiei no meio do rosto de Gregory Motta, este já não me incomodaria mais. O corpo dele caiu com um baque surdo, ela gritou horrorizada.
- Não posso permitir que isso continue! – gritei.
- Você está louco! – como ela se atrevia?
Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa que acabasse me levando a tornar-me também um eco, pulei em cima dela e a derrubei no chão. Sem armas tudo o que me restava era meus membros, então rasguei a saia dela e arranquei-lhe a calcinha. A desgraçada estava usando a lingerie que eu lhe dera de presente, vermelho-sangue e com rendas diversas. A ira subiu-me a mente como que fervesse, então lhe segurei as pernas e as abri. Estando ela numa posição adequada, meti-lhe o pé esquerdo dentro do sexo e enfiei com toda minha força a perna lá dentro, sentindo o sangue lamber-me a pele.
Ela morreu cerca de dez segundo depois de eu não conseguir penetrar mais fundo com minha perna, agonizou muito durante o processo. Enfim estava morta, e com ela a possibilidade da minha morte nessa casa amaldiçoada. Carreguei os corpos até o porão da casa e lá os deixei sob a terra. Limpei minhas digitais do atiçador e joguei a saia na lareira, eliminando assim qualquer prova que houvesse contra mim. Depois tratei de recuperar meu relógio com o Dr. Negrus, seria uma perda inestimável abandonar essa peça caríssima nesse lugar abandonado. Sem falar que isso seria uma bela assinatura de assassino.
Talvez eu acabe sendo pego durante as investigações, sempre acontece nos seriados como CSI ou Cold Case, o namorado sempre é o principal suspeito. Mas posso agora dormir sossegado, sabendo que todas as pessoas mortas naquela casa foram vingadas por um traído, assim como elas. O lado ruim é ver, todas as noites, o baleado, a moça caída e a Sra. Berga Motta, agradecendo-me fervorosamente, toda vez que me olho no espelho.

Christopher D. Pereira

FIM!

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Signo Vermelho - Parte 04

Pegamos o primeiro trem até Lumière Rouge, quanto mais rápido eu estivesse diante da famosa Rocha Vermelha, melhor. No caminho, Natan me contou os detalhes da ameaça feita em nome do Clã de Ishtar pelo meu irmão, Amadeus. Soube que os membros de meu antigo clã haviam se hospedado num antigo castelo nas redondezas da cidade principal, oficialmente eles disseram que estavam no meio de uma busca pessoal, mas depois lançaram a ameaça.
Sempre adorei as maravilhosas paisagens dessa ilha, não é em todo lugar que se encontra troncos e folhas tão vermelhas. Provavelmente devido ao fato de todos os frutos gerados em Île Rouge serem avermelhados, todas as aves apresentavam a mesma cor nas plumagens. Observar toda essa vermelhidão causava um nervosismo, porém não se pode negar que há muita beleza.
Saímos da área da floresta e agora os trilhos ladeavam uma estrada asfaltada, aqui se iniciou a área desmatada impiedosamente pelo crápula do Têterouge. Nunca entendi a necessidade que os reis da ilha tinham em transformar os arredores da capital em uma cópia das cidades americanas, mas eu já começava a sentir o mal-estar comum que essas cidades me causavam. Havia várias mansões e castelos a vista, bem como carros de todos os tipos. Quem visita essa ilha se sente perdido entre dois períodos distintos na história.
- Gosta de nossos castelos, Lorde Lucas? – Natan resolveu mudar o rumo da conversa – É um orgulho para os cidadãos saber que ainda há desses sobrevivendo à modernidade em nossa amada ilha.
- Não creio de dure muito. – fui franco – Mais uma mudança de Têterouge e todos esses castelos serão vendidos à Wal-Mart, ou a algum Shopping Center. – era o que estava acontecendo com as casas senhoriais de dentro dos muros de Lumière Rouge, quase todas já pertenciam a multinacionais
Meu companheiro de viagem fez uma expressão de surpresa, depois olhou rápido para o outro lado. Talvez eu não devesse ter sido tão sincero, mas pouco me importava. Encostei e voltei a olhar os castelos. Mal podia esperar para ver a tal pedra, ainda tinha esperanças de obtê-la, mesmo que tivesse que enfrentar todos os X-Hunters. Tinha em mente o número de monstros que eu conseguiria manda para o inferno de uma só vez, essa arma não podia ficar restrita à Île Rouge para sempre. Eu faria com que isso se tornasse um bem da humanidade.
- Chegamos, mi lorde. – esbravejou ele – Estamos às portas de Lumière Rouge!
O trem chegou à estação, que ficava bem ao lado dos muros da cidade. Descemos e fomos identificarmo-nos, ninguém entrava na capital sem ser registrado adequadamente. Era necessário deixar clara a intenção da visita, caso você não fosse um morador.
- Bem, espero que aprecie nossa hospitalidade. – ele já abrira o sorriso novamente – Nossa cidade é um pouco grande, então tente não se perder, Oh grande lorde das florestas! – senso de humor no meio de uma crise dessas, ao menos alguém tinha a cabeça no lugar.
Entramos na cidade. Eu já havia me esquecido o quanto ela era enorme, havia uma longa avenida que cortava toda a cidade até chegar ao Castelo do Têterouge. Em minha mente veio a imagem de milhares de pessoas, andando de um lado a outro. Porém não havia absolutamente ninguém a vista, além dos soldados da cidade. Nada dos habituais mercadores, gritando seus preços e sacudindo tapetes, nenhum Hakai contando as velhas histórias da ilha, nada.
- Hum! Natan, eu acho que você esqueceu-se de mencionar que hoje seria feriado. – embora a expressão dele demonstrasse tanta surpresa quanto a minha.
- Temos que correr! – ele cochichou – Acho que chegamos tarde demais.
Antes que eu pudesse responder ele saiu correndo na diagonal, escondendo-se atrás de uma enorme construção. Eu não estava acostumado a seguir alguém, geralmente eu é que sou seguido. Então estar naquela posição de leigo me irritava fervorosamente.
- Quer deixar a situação mais clara? Não me lembro de nada sobre abdução em massa na ameaça que você descreveu para mim! – eu impus com vigor – Seja conciso!
Ele estava olhando atentamente para o castelo. Depois de uma olhada rápida para o chão ele me mirou nos olhos.
- Lembra quando eu disse que acoplada a um arco a Rocha Vermelha mataria cem com uma flecha?
- Claramente! – nós dois sussurrávamos agora.
- Imagine se a acoplarmos a um espelho Voleur de corps? – ao ouvir essa suposição, senti um peso cair no estômago.
A antiga lenda de Russel Krona e o Espelho que Roubava Corpos era uma das mais contadas histórias entre os Hakais da ilha. Conta-se que o jovem Têterouge havia descoberto uma forma para manter sua juventude intacta, tamanha era sua vaidade que o medo de envelhecer tirava-lhe muitas noites de sono. A lenda menciona um espelho capaz de aprisionar corpos de várias pessoas e dar ao captor toda a juventude adquirida na empreitada.
- Certamente você não acredita qu.. –
- O espelho é real! – ele me interrompeu bruscamente – Nós o vimos uma vez. Os X-Hunters já invadiram um dos Templos Sagrados de Ishtar, buscando um velho mago que havia lançado uma maldição em nosso senhor Lê Mount, Têterouge de Île Rouge. – ele parou para respirar – Nós o vimos se tornar jovem para tentar escapar, ele aprisionou um de meus companheiros.
- Acho que eu saberia se meu clã possuísse um artefato de tamanha magnitude. – repliquei – Acaso se esquece que eu sou um De Ishtar?
- Mas você deserdou há anos. Vimos esse espelho há alguns meses. – ele estava suando frio – Com certeza eles o adquiriram depois de você os abandonar.
Fazia sentido. Minha ganância desmedida não era uma característica particular, todos os membros do clã estavam sempre buscando novas posses. Em especial as que continham algum tipo de poder mágico, e se espelho for real com certeza seria alvo de buscas incansáveis.
- Agora que você já parou de questionar, vamos penetrar no castelo. – novamente ele dava as coordenadas – Como X-Hunter eu conheço cada entrada e saída secretas desse lugar. Não podemos ser pegos por alguém que eventualmente tenha invadido o local.
- Tudo bem. Aponte o caminho e saia da frente! – pela expressão dele eu tinha certeza que não haveria discordância.
Seguindo uma rota alternativa, usando um túnel subterrâneo, conseguimos cruzar toda a cidade sem sermos notados. Impressionante como algo que deveria ser o esgoto pudesse ser mais luxuoso que o próprio castelo, mas o piso de mármore preto, as paredes revestida com ouro e a cera milenar nas velas que iluminavam o caminho deixavam bem claro o fato de essa ser uma passagem apenas para os nobres.
Escureceu.
- Parece que temos companhia, oh sábio X-Hunter. – eu sussurrei debochadamente – Hora de mostrar os resultados de seu árduo treinamento.
Natan se adiantou puxando uma luz vermelha e intensa de dentro da roupa. Imagino que fosse a insígnia da Ordem, mas não tive tempo de perguntar. Estávamos diante de cerca de 19 sombras, em pé de forma dura em nosso caminho. Olhos escarlates e lanças medonhas prontas para nos empalar.
- Julian? – Natan aparentemente reconheceu um deles – Ah, que bom que são só vocês. - Ele baixou um pouco a luz e virou para mim – São meus parceiros X-Hunter, devem estar tentando fazer o mesmo que nós.
Não cri. Minha Fouillis vibrava, estava sentindo a ira que emanava de nossos inimigos. Ouvir Natan contradizendo-a me fez dar um passo atrás
- Por que os olhos vermelhos? – indaguei a ele – Isso é normal também? Faz parte da decoração da ilha? – tudo era vermelho naquele lugar.
Ele deu mais uma olhada. Percebi que estava pesando as possibilidades.
- Hey, Julian! – ele falou alto para o indivíduo no centro – O que vocês fazem aqui?
Aparentemente Julian não queria responder. Saltou em direção a Natan com um urro gutural. Ele não estava preparado para receber o ataque, mas minha espada se moveu sozinha em busca da lança do agressor. Um barulho ensurdecedor seguido de várias faíscas de cor púrpura. Eu estava frente a frente, lâmina a lâmina com ele. No momento em que o encarei mais profundamente, entendi a questão.
- Amadeus! – eu escarneci – É claro que era você, percebi pelo cheiro de podridão.
Julian baixou a lâmina e se afastou.
- Lucas, meu irmãozinho! – a voz de meu irmão mais velho saindo da boca daquele estranho confirmou minha teoria – O que o trás ao nosso mais novo domínio? Acaso algum sugador de sangue escapou da desordem que é essa sua espada? – ridículo
- E você? Ainda honrando a sujeira e imundice que paira sobre o nome de Ishtar? Não é o bastante envergonhar a Deusa agora mancha de sangue o nome do clã?
- Já ouvi todas essas lamúrias na noite em que você nos deixou, e você não mudou nada! Ainda é o vermezinho insignificante se espreitando nas sombras dessa porcaria que é a sua espada.
Já deixei claro o quanto sou ganancioso, embora eu jamais matasse alguém inocente por isso. Mas tenho um orgulho assassino da minha espada, e não admito esse tipo de ofensa, não sem fazer jorrar sangue.
As armas estavam escolhidas, os inimigos expostos. Eu e Natan estávamos prontos.
- Lutemos!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Conto Da Macieira Chorosa



Não sei o que me deu coragem para contar essa história depois de todos esses anos, mas estou aqui pronto para abrir meu coração para a tela do computador. Realmente não espero que minha imagem de homem sadio e bem sucedido depois que lerem isso, mas não consigo mais guardar isso sozinho. Só peço que depois que ler esse texto, você guarde algo em seu ser e passe a ver o mundo com outros olhos.
Eu tinha apenas 19 anos naquela época, era um momento de transição que mexia muito com meu emocional e meu racional. Tudo que passava pela minha cabeça era a necessidade de independência e dinheiro, sendo que a segunda me levaria à primeira. Então em uma bela manhã de outono eu estava correndo em direção à Agência de Trabalho da minha cidade, sem olhar nada que se passasse ao meu redor e sem me importar com o que ficasse para trás.
No momento em que eu tropecei e cai de bruços no acostamento, eu soube que precisava para um pouco. O motivo da pressa era a fila, sempre a maldita fila, pois nós nunca somos os únicos a querer alcançar nossos objetivos e sempre parece ter muita gente querendo o mesmo que nós. Ao me levantar e me recompor, resolvi olhar em que eu havia tropeçado. Não que houvesse razão maior do que recolher meus documentos caídos, mas decidi saber o que havia feito com que eu ralasse o cotovelo e rasgasse a manga da minha blusa.
Não passava de uma raiz. Uma raiz grossa que saía do chão e continuava por mais alguns metros na calçada até penetrar no solo outra vez. Esse era o tipo de coisa que me fazia pensar, pois sempre fui do tipo que pensa em todas as possibilidades. Por esse motivo decidi olhar em volta. Percebi que estava diante de um belo casarão colonial com um jardim mais belo ainda. Observei a casa com mais cuidado, gostava muito de coisas antigas, vivia dizendo que nasci na época errada. O jardim era todo composto pelas mais belas flores. Bem no centro daquelas belezas, reinava uma alta e frondosa árvore.
Nunca havia visto tamanha grossura em uma árvore frutífera em meio urbano. Mas lá estava a bela macieira, defini a natureza da mesma pelo fato desta estar carregada das maiores maçãs do mundo, ao menos foi isso que pensei quando as vi. Um desejo súbito e estranho se apoderou de mim, algo maior do que minha vontade de chegar cedo à agência. Sem pensar nem uma vez, trepei-me nas grades do enorme portão de ferro e pulei para dentro do terreno.
Andei rápido até a árvore, tomando cuidado para não danificar os gerânios que havia em meu caminho. Parei de frente para o tronco, pronto para começar a subi-lo. Tirei a camisa e olhei para o alto, calculei uns dez metros até a maçã mais próxima. Quando estava prestes a começar a subida, ouvi uma voz aguda e fria cortar o ar.
- E se eu te dissesse que cometerás um pecado terrível, caso comas um desses frutos? –
A voz me gelou a espinha, como se eu tivesse caído dentro de um lago congelado sem estar usando nenhuma peça de roupa. Virei rápido para identificar o dono da voz, pronto para dar uma boa desculpa pelo fato de ter invadido a propriedade
Havia uma figura encapuzada bem em minha frente, alguém alto e esguio, encurvado e apoiado numa bengala. Tal pessoa se aproximou de mim, pude ver os penetrantes olhos azuis dele, era um homem.
- Não preciso sabe o porquê de invadires o lugar, não és o primeiro transeunte que se vê perdido de desejos pelas maçãs redentoras. – o homem estava a menos de dois metros de mim, aquela manhã começou a parecer mais fria. – Mas devo avisar-te que essas daí não são para comer.
- Bem, com certeza o senhor entende que se elas não forem colhidas logo acabarão caindo e apodrecendo no chão, certo? – tentei argumentar, ainda não me acostumara com a estranha presença, mas eu queria uma maçã daquelas.
- Esse é o propósito delas, meu jovem. Essas maçãs carregam as almas daqueles que em vida cometeram assassinato por ganância. Quanto maior tiver sido o sentimento de avareza do assassino na hora do crime, maior é o tamanho do fruto.
Óbvio que não engoli aquela história, aquele velho na certa queria apenas evitar que eu as pegasse para que ele mesmo o fizesse. Com certeza ele sabia que não poderia fazer nada para me impedir e resolveu inventar aquela história.
- Baboseira! – xinguei – Tente me segurar, se puder! – e virei de costas.
- Essas maçãs devem apodrecer para que as almas nelas presas possam enfim veranear. – ele gritou enquanto eu subia na árvore – Comê-las destruirá a alma nelas contida e a pessoa que o fizer absorverá todos os pecados e as mágoas pertencentes à antiga alma. Além disso, você estará conectado à Macieira para sempre.
Não dei ouvidos a ele, subi o mais rápido que pude. Assim que alcancei o primeiro galho, arranquei uma maçã rapidamente. Senti o corpo todo vibrar, mas me segurei firme. Comi a maçã. A mordida foi agradavelmente suave. O gosto era melhor do que tudo que experimentei, senti um prazer superior ao de um orgasmo. Ao longe eu pude ouvir uma voz feminina cantando para mim, chamando meu nome. Meus membros ficaram dormentes e eu adormeci.
Quando acordei estava encostado no tronco da macieira, ainda estava sem camisa e, para minha grande surpresa, meu cotovelo estava sarado. Levantei-me rápido, olhei para o chão, lá estava minha camisa. Antes de vesti-la eu subia na árvore mais uma vez, levando minha bolsa junto. Tirei mais três maçãs, teria levado mais se elas não fossem tão grandes e ocupassem tanto espaço.
Fugi dali no primeiro ônibus que passou, nem vi o destino. Já em casa eu relaxei no sofá. Na hora do almoço eu não tive fome, então fui para o quarto ler um pouco. Passando pelo banheiro, resolvi escovar os dentes. Aproximei-me da pia, procurei minha escova e a pasta, levantei meu rosto e horrorizei com o que vi.
No geral era o meu rosto que me olhava, mas havia algo terrivelmente errado em minha expressão. Eu sorria maliciosamente com uma presunção desvairada, havia muitas rugas em volta dos meus olhos, e esses estavam vermelhos como o sangue. Olhando-me senti um peso esmagador em minhas costas, semelhante àquele que a maioria de nós sentia ao se encontrar sozinhos no escuro, quando éramos crianças. Havia sombras a minha volta, movendo-se rapidamente em todas as direções.
Sai correndo de casa, agora eu podia ver as sombras por todos os lados. Cheguei à casa da minha namorada e entrei. Sem aviso prévio eu entrei no quarto dela e me meti em suas cobertas.
- O que é isso? – ela me perguntou assustada – Fui à sua casa e seu irmão me contou que você havia saído, e agora você invade o meu quarto como que fugido. Você conseguiu um emprego ou só estava com saudades das minhas coxas?
Não pude responder, estava absorto observando um objeto em cima da escrivaninha.
- Acho que esse globo de neve é meu! – eu disse por fim – Por que você o pegou?
- Ah, lembrei que você disse que eu poderia pegá-lo, se eu quisesse. Você percebeu o quanto eu gostei dele.
- Mentirosa! – gritei – Você o roubou enquanto estive fora! – eu me pus de pé.
Ela me olhava com espanto, posso dizer que vi medo em seus olhos e posso dizer que também o teria caso eu visse o que ela viu. Ela tentou se explicar, mas a ira me subiu a cabeça e eu peguei o globo de neve e o quebrei em sua cabeça.
Corri para fora e depois continuei correndo. Pude ver o rosto de todas as pessoas na rua me observando. Elas sabiam. As sombras passavam rápidas ao meu lado, sorriam para mim. Eu continuei correndo em frente, precisava me livrar daquelas coisas. Senti que o vento não existia, mas as nuvens se moviam velozmente. Minhas pernas estavam pesadas, já estava difícil correr.
Desisti de correr e percebi que chegara a um ponto de taxi. Não sabia se minha teoria estava correta, mas decidi que sabia o que fazer para me livrar daquele tormento. Tomei um taxi até a loja de ferramentas mais próxima e comprei o maior machado que encontrei. Depois fui até o antigo casarão. Após dispensar o taxi, eu entrei.
Dessa vez não precisei pular o muro, o portão estava convenientemente aberto. Entrei e me pus diante da macieira. Não sabia se minha teoria estava certa, mas lembrava do velho encapuzado ter dito algo sobre eu estar ligado àquela árvore para sempre. Cheguei à conclusão que não estaria ligado a uma árvore que foi derrubada, então dei o primeiro golpe no tronco.
Uma força muito forte me jogou para trás, bati no chão com força. Levantei-me desorientado e olhei, algo acontecia com o tronco. Fiquei de pé e me aproximei. Algo escorria do local onde eu acertara, algo vermelho berrante. Então um lamento tocou fundo meu coração, como se alguém estivesse sofrendo muito e passando seu pesar para dentro de mim. Depois de alguns segundos eu entendi, a macieira estava chorando.
Eu estava apavorado, o medo subia pela minha espinha e arrepiava todos os pelos da minha nuca. Girei nos calcanhares para correr e dei de cara com o velho encapuzado, ele também chorava lágrimas de sangue. Sem olhar para ele eu fui até o portão e o abri. A atmosfera pesou, senti um aperto e logo percebi que era o sol que havia mudado. O astro-rei tornara-se também avermelhado, e agora ele me observava com sua face mais cruel.
Desnorteado, corri em frente. Não sei se desmaiei antes ou depois do carro me acertar, só me lembro de acordar no hospital três semanas depois. Uma luz branca foi a primeira coisa que vi, seguida por um jarro de gerânios e uma jarra de água. Elena estava ao meu lado, o que me assustou ainda mais.
- Meu amor, que bom que você acordou! – ela falou sorrindo radiantemente – Tive medo que você ficasse em coma para sempre.
- Coma? Do que está falando, eu... –
- Claro que você não se lembra, mas você foi atropelado há 22 dias, meu amor. Estive aqui ao seu lado todo esse tempo, não perdi as esperanças.
- Ei, 22 dias não são o bastante para se começar a pensar em “perder as esperanças”. – comentei – Mas durante esse sono exageradamente longo eu tive o sonho mais estranho da minha vida. – e contei a ela toda a história.
- Que coisa mais besta, meu bem, você jamais teria coragem de fazer mal a mim. Além do mais, você não tem nenhum globo de neve, embora você sempre quisesse ter um.
Pensei um pouco e depois sorri.
- Tem razão, linda, jamais eu danificaria esse sorriso divino. – e a beijei na boca.
Depois desse momento romântico ela se afastou e se abaixou.
- Ah sim, sua bolsa, deve ter alguma roupa melhor do que esse papel que você está vestindo. – ela me entregou minha mochila, e eu a abri.
Estou contando essa história depois de trinta anos porque hoje acho que finalmente estou livre de tudo isso. Hoje a última das três maçãs finalmente apodreceu, agora acho que nunca mais terei os pesadelos que me acompanham desde daquela tarde no hospital em que eu abri minha mochila e me deparei com um sinal de que havia recebido uma segunda chance e não deveria desperdiçá-la.



Ass: Willian D. Pereira

Fim!

O Retorno de Avner Astaroth!!!


Boa Tarde!

            Há muitos meses eu não posto nada por aqui, e tenho duas boas desculpas para isso. A primeira é a mais absurda: estive esse tempo todo sem internet. A segunda é um pouco mais compreensível, eu acho: Não consigo pensar em finais adequados para as duas histórias que eu estava postando aqui. Por mais que eu pensasse, não queria escrever algo comum nem nada que estivesse muito em evidência.
É muito comum, quando se escreve ficção, acabar adicionando elementos de outras histórias famosas. Quase impossível encontrar um conto onde todas as personalidades e acontecimentos sejam 100% originais, isso me incomoda muito. Não gosto de seguir tendências, prefiro inovar a pegar carona em outras modas. Essa é uma das razões para que eu tenha posto os vampiros da história “Signo Vermelho” como sendo caça e não caçadores.
Como solução para esse dilema, decidi que não postarei o final de “Madame Colt” no blogger. Ao contrário, irei passar essa história para o físico e em alguns meses publicarei o livro de verdade. Assim sendo, darei prosseguimento a “Signo Vermelho”, agora com meu pensamento focado em encontrar um meio e um final adequados a apenas essa história.
Em fim, agradeço às pessoas que porventura leiam esse post por estarem lendo esse post. (uhauhauah)


Avner Astaroth