O que há por aqui?

Histórias e Poemas para quem cansou de ler coisas normais, abordando assuntos nada usuais e também alguns comuns ocasionais. Amor, tristeza, amizade, sofrimento, histórias de ninar e suspense!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

História de Ninar Para Bruxas - 2

Hélio e o Solstício de Inverno

Hélio caminhava apressado. Apressado sim, pois queria terminar logo a lamentável missão que lhe fora dada por seu avô. Então desviava habilidosamente das árvores no caminho, não que fosse difícil a um garoto de onze anos desviar daqueles salgueiros, mas ele crescera ali e duvidava muito que algum dos outros garotos da vila conhecesse tão bem a floresta quanto ele.

Conseguiu, então, chegar à orla da floresta. Deu, logo de cara, com os gigantescos portões que cerravam a vila de Yaveh. Aquelas argolas de ouro brilhavam intensamente ao sol do meio-dia e Hélio sentiu a pele arder ao usá-las para bater. Espera nunca fora o ponto forte dele, então ele não parou de bater até que a portinhola se abrisse. Agora ele era encarado por um par de olhos negros, aquele velho olhar que ele bem conhecia.

Na vila de Ishtar, onde Hélio residia, morava uma velha carrancuda e rabugenta. A Srª. Church era a única descendente remanescente do povo de Yaveh naquela vila, e não se sentia nem um pouco satisfeita com isso. Outrora, quando Ishtar e Yaveh eram unidas como uma vila, Church vivia feliz ao lado dos seus. Mas, depois de vários anos de desentendimento religioso, os descendentes de Yaveh decidiram partir. A velha fora deixada de lado por ser considerada uma herege, isso se devia ao fato dela ter se casado com um de Ishtar e ter cometido o pecado da separação. Eles não a levaram, e ela permaneceu ali, amargurada.

Hélio conhecia bem aquele olhar, a velha Srª Church lançava esse olhar de superioridade e nojo sempre que topava com ele. Então não se abalou com aquele dé-já vu.

- Identifique-se, estranho! – o mesmo tom autoritário da velha. “Será que eram todos iguais?” pensou ele.

- Hélio Solem Kraus, da vila de Ishtar. Vim a mando do meu avô, Alphonse Solem Kraus III, dar um recado ao líder da vila de Yaveh. – texto decorado, repassado e agora, finalmente, dito.

- Kraus? O que o velho diz? – indagou os impacientes olhos.

- Ele disse, abre aspas: O Solstício de Inverno se aproxima, aguardo a presença do representante eleito para os preparativos de Yule. Fecha aspas. – Disse sem muitas pausas.

Hélio podia jurar que havia visto faíscas nos olhos, mas é claro que ele nem ligava.

- Natal! – esbravejou os olhos – O nome é Natal. Ao menos em nossas terras pronuncie o nome correto.

- Tá, ta. Que seja! Já dei meu recado e preciso de uma resposta. – disse um impaciente Hélio. – Se me faz o favor.

Pensativo, o par de olhos desapareceu e a portinhola se fechou. “Só um segundo”, rugiu. Esperar não era bem o forte de Hélio e ele começou a ficar mais impaciente ainda. Dez minutos se havia se passado quando o par de olhos retornou com sua resposta.

- Rafael de Noah será o nosso representante, ele estará em Ishtar dentro de dois dias. Agora some daqui, seu vermezinho herege! – essa fora a gota d’água que Hélio esperava cair. Sem pensar duas vezes ele encheu a mão de terra e tacou nos olhos ofensivos. “Recado dado, resposta recebida!” e desapareceu em uma corrida por entre as árvores conhecidas.

De volta à sua amada vila de Ishtar, Hélio não tardou a se juntar com sua turma numa excursão à cachoeira. Ah, linda cachoeira! Estavam lá aos pulos, crianças felizes. Sentindo a água gelada pelo corpo, água tão pura de beber. Ficaram ali aproveitando aquele presente da Mãe-Natureza até que Sol se houvesse posto.

Na volta à mansão de seu avô, Hélio correu à cozinha em busca do já conhecido aroma de bolo de chocolate, quando a voz de seu avô ecoou pelo imenso corredor:

- Parado ai mesmo, seu ultrajante! – um misto de ira e hilaridade – O que o faz pensar que vai comer meu bolo antes de me relatar sobre sua missão?

- Não podemos conversar enquanto comemos? – sim, diga sim!

- Eu não seria eu se dissesse não, comamos! – claro, Alphonse era um admirador do bolo de chocolate da Miranda tão ávido quanto o próprio Hélio. – Mas não esqueça que por ser eu quem paga a cozinheira eu como primeiro.

-Ah, Alphonse, só nessas horas que você quer ser considerado avô, não? – depois disso foram à cozinha e se deliciaram.

Dois dias se passaram, o dia da reunião chegara. Os anciões da vila já estavam sentados ao redor da mesa central na praça central da vila, e o Sr. Kraus esperava o representante de Yaveh à entrada da vila. Ao meio-dia ele chegou!

Rafael de Noah era alto e forte, com olhos dourados como os cabelos, que iam presos num perfeito rabo de cavalo. Ele vinha vestindo uma túnica azul-celeste com estrelas brancas bordadas. Ladeado por dois homens muito grandes, um deles com olhos avermelhados, como se neles tivesse sido atirado um punhado de areia.

- Ai caramba! – Hélio correu de seus amigos e apontou – Aquele cara, foi o que recebeu meu presente de areia.

A comitiva de Yaveh sentou-se em seu lugar na mesa central, o Sr. Kraus dirigiu-se a seu lugar mas não sentou.

- Bem vindos, de Yaveh. Comamos antes este maravilhoso almoço para então tratar do assunto. – os grandões de Yaveh nem esperaram dois segundos, atacaram a comida como se nunca houvesse comido em toda vida. Uma bela ave assada, pernis suculentos, saladas de todos os tipos e suco de abóbora. Os visitantes não fizeram a menor cerimônia. Rafael não tocou na comida.

Depois de terminada a refeição, mulheres limparam a mesa e eles enfim estavam prontos para confabular. Hélio, porém, não tinha permissão de estar ali, e como a história é dele não se sabe o que foi dito por lá.

Então às duas da tarde, quando não havia mais graça em ficar correndo em volta da muda da Árvore da Felicidade, Hélio voltou para ver o que acontecia por lá pela praça central. A reunião acabado quando e os visitantes já tinham partido. O Sr. Kraus estava admirando a fonte enquanto os outros anciões conversavam com as cabeças juntas.

- Ah sim, meu neto. Este ano Yule será grandioso. – disse mais para si do que para Hélio.

- O que é Yule, Alphonse? – sabia que era o nome da festa que eles comemoravam todo ano na mesma época, junto com a vila de Yaveh, mas não entendia o porquê disso.

- Yule é o nome da celebração em honra à noite mais longa do ano. Comemoramos o nascimento de Deus, ou, para ser mais exato, o início de uma nova Roda do Ano. O fim de um ciclo de plantação. Celebramos esse Sabbath para garantir que os deuses rejuvenesçam nossos corações e limpem nossas almas de tudo que seja velho.

- Hum, então por que os de Yaveh também celebram? Eles têm outro deus, não? –

- Isso não importa. Eles celebram o nascimento do filho do deus deles, para eles é um momento de alusão à paz e ao amor. Sendo assim as intenções são quase as mesmas. – parecia meio estranho, mas Hélio aceitou essa explicação.

No solstício de inverno as duas vilas estavam juntas de novo, celebrando o nascimento do representante de sua fé e esperança. Filhos de Ishtar e de Yaveh estavam sentados na imensa mesa redonda da mansão do Sr. Kraus, comendo o resultado das safras das duas vilas e comungando como iguais.

Até que, como sempre, começou a discussão. Sempre algum dos de Yaveh sempre se sente ofendido pelo fato dos de Ishtar conseguirem ser felizes com seus deuses sem apenas com danças, música, alguns rituais e amor à terra, assim sendo sempre começam com gracinhas sobre a existência de um único Deus. É claro que os de Ishtar não são nada santos. Às vezes eles mesmos começam a briga, sempre questionando como um deus que deveria ser amor puro permitiria a existência de assassinos psicopatas.

Enfim, a briga já havia começado e ninguém sabia ao certo quem dera o pontapé inicial. Pragas e ofensas. Até que Rafael estava de pé e todos de Yaveh se calaram. Quando um não quer, dois não brigam e, seguindo essa lógica, os de Ishtar se calaram também.

“Olhem! Rafael se levantou.” Diziam e murmuravam os de Yaveh. “O que terá acontecido para que ele se prontificasse?”.

De fato, Rafael era muito disperso do mundo e era preciso mais do que uma briguinha para fazê-lo se interessar.

Uma turma de crianças estava no canto do grande salão. Brincavam, cantavam, faziam coisas de criança, totalmente alheias àquela briga sem sentido. E não eram apenas crianças de Yaveh ou de Ishtar, ambas as vilas estavam representadas ali.

Rafael foi em direção às crianças e se sentou ao lado delas.

Por esse simples gesto, todos no salão se lembraram porque estavam ali e porque realizavam aquela festa juntos. Desculparam-se e prosseguiram com Yule e com o Natal.

Não é necessário um presente para fazer uma pessoa feliz, a não ser que esse presente seja a felicidade em si.

Comamos!

6 comentários:

  1. Eh uma ótima história sobre as diferenças.
    Muito boa.
    :D (sou péssima com comentários)

    ResponderExcluir
  2. *-*

    Muito bom, lição de moral wins!

    Um conto gostoso de se ler, adorei mesmo!
    Post mais desses ^^/

    ResponderExcluir
  3. Meu manoo escreve mtmt beem!

    O texto tá ótimo *_*

    ResponderExcluir
  4. Gostei muito da história!!
    principalmente dos olhos taum expressivos...
    ^^
    Você escreve muito bem, te que virar escritor.
    Te dou todo apoio....

    ResponderExcluir
  5. Yule, um dos sabbats mais lindos da roda do ano, para os pagãos! O Deus renasce :D

    ResponderExcluir